É natal aqui no O Cru e o Maltado! E, por mais estranho que
isso vá soar, não poderia haver época mais adequada para continuarmos nossa
conversa sobre estereótipos imperialistas e racistas em rótulos de cerveja. Na
última postagem, contei aos meus leitores a “linda história de amor” de John
Stedman e de Joana, e argumentei que o rótulo inicialmente proposto pela
cervejaria Evil Twin para sua Imperial Brazilian Wax reiterava e corroborava
estereótipos ligados à exploração sexual de mulheres negras por europeus nos
trópicos. Papo brabo. Mas agora quero mostrar um exemplo contrário,
evidenciando como uma outra cervejaria europeia discutiu com ironia e humor a
cultura do racismo e do imperialismo em um rótulo de cerveja de inspiração
natalina. Estou falando da cervejaria belga Brasserie de la Senne e de sua
Belgian dark strong ale chamada Zwarte Piet.
Mas não vamos nos apressar e pôr os carros na frente dos
bois. Esse rótulo é uma espécie de “piada interna” difícil de entender para
nós, brasileiros. Para compreendê-lo, primeiro precisaremos saber um pouquinho
sobre a história e o folclore natalinos da Holanda e da Bélgica.
São Nicolau e o “Pedro Preto”
Ícone russo de São
Nicolau de Mira,
do século XIX.
Fonte: commons.wikimedia.org |
Você já deve ter ouvido falar que o Papai Noel, o nosso
conhecido “bom velhinho” natalino, tem sua origem na figura de um santo
católico chamado São Nicolau de Mira. Bom, se nunca tinha ouvido falar nisso,
ouviu agora! Nicolau foi bispo da cidade de Mira, na Turquia, durante o século
IV da era cristã, e a ele se atribuem diversos milagres. Entre suas pias obras,
destacam-se a assistência e a educação de crianças pobres, o que veio a lhe
render a fama de um benfeitor de crianças. São Nicolau tornou-se muito
celebrado como patrono da igreja na Rússia e na Noruega, onde cresceu a veneração
ao santo. O aniversário de sua morte é comemorado em 6 de dezembro, data
próxima ao natal, o que facilitou a identificação do “bom velhinho” com a festa
do nascimento de Cristo. Seu nome (“Saint Nikolaos”) foi sofrendo uma série de
corruptelas até assumir a forma, em holandês, de “Sinterklaas”, de onde surgiu
“Santa Claus”, o Papai Noel.
Ocorre que, na Holanda e na Bélgica, o bom velhinho não é
comemorado na data do natal (25 de dezembro). Pelo contrário, existe uma grande
celebração popular do santo, conhecido pelo nome holandês de Sinterklaas, no
dia 6 de dezembro, data de sua morte. Diz a lenda natalina do “nosso” Papai
Noel (como devem saber todos os que um dia tiveram infância) que ele entrega
presentes para as crianças do mundo inteiro auxiliado por suas renas mágicas e
por um montão de “elfos” ou “duendes”. Pois bem: no folclore flamengo e
holandês, a lenda é um pouquinho diferente. Lá, Sinterklaas tem um ajudante
negro chamado “Zwarte Piet” – ou, traduzindo para o português, “Pedro Preto”.
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Ilustração de Zwarte Piet
como criado
doméstico de São Nicolau, do
livro de Jan Schenkman (1850). Aqui,
ele é negro e veste roupas mouriscas.
Fonte: de.wikipedia.org |
A figura do Zwarte Piet surgiu durante o século XIX, quando
ele era retratado como um serviçal (vestindo roupas típicas de criados medievais)
de pele escura, alternativamente mouro ou negro. Suas atribuições não se
limitavam a ser uma espécie de auxiliar de Papai Noel. Zwarte Piet também era
uma figura meio assustadora, que, no lugar de dar presentes, punia as crianças
que não haviam se comportado bem durante o ano. Como se fosse o “lado B” do bom
velhinho: se você se comportou ao longo do ano, ganha presentes de Sinterklaas.
Se não se comportou, apanha do Zwarte Piet. Ao longo do século XX, essa imagem
“malévola” do Zwarte Piet foi sendo gradualmente atenuada: hoje em dia, na
maior parte dos festivais de Sinterklaas, o Zwarte Piet funciona como uma
espécie de ajudante trapalhão que, invariavelmente, acaba sem querer fazendo
alguma besteira com os presentes e põe em risco o natal das crianças. E aí
sucedem-se mil trapalhadas e é preciso que as pessoas acorram para restabelecer
a ordem e salvar o natal.
Não é fortuito que o Zwarte Piet tenha surgido no folclore
flamengo e holandês bem no século XIX. Essa foi justamente a época em que, no
pensamento europeu, começaram a ser desenvolvidas várias teorias
pseudocientíficas que supostamente “provavam” a inferioridade congênita da raça
negra, em comparação com os brancos. Também foi a época em que, apoiadas nessa
crença espúria de que os negros seriam naturalmente inferiores e mais
selvagens, as grandes potências europeias invadiram o continente africano e
impuseram uma brutal dominação colonial que durou até depois da II Guerra Mundial.
O Zwarte Piet, como um serviçal mau ou abobalhado, era perfeitamente condizente
com essas ideias racistas que dominavam a cultura do período. Ele era um
subalterno da autoridade de um bondoso e sábio senhor branco em posição
superior (São Nicolau) e uma figura de capacidades limitadas e moral duvidosa,
com um gosto pela violência. Na Bélgica e na Holanda, até hoje o Zwarte Piet é
uma figura central das celebrações públicas e festejos do Sinterklaas, em 6 de
dezembro. Multidões de belgas e holandeses saem às ruas e muitos se vestem como
Zwarte Piet, pintando os rostos de preto, usando batom vermelho para imitar
lábios grossos de negro e usando uma peruca afro e vestes de serviçal.
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Sim, é assustador. E um
pouco constrangedor mesmo.
Fonte: zwartepiet.nl |
Mas nós estamos no século XXI, e a cultura do racismo
começou a ser sistematicamente questionada em todos os lugares. Nas últimas
décadas, a Europa se encheu de imigrantes de suas ex-colônias (incluindo
ex-colonos negros do Congo e Caribe, no caso da Bélgica e da Holanda), que se
sentiram bastante incomodados com a representação do Zwarte Piet. A partir dos
anos 1970, mais ou menos, os protestos foram recorrentes. As coisas esquentaram
nos últimos anos: em 2011, dois manifestantes negros contrários ao festejo
foram presos pela polícia. Já em 2013, Verene Shepherd, eminente acadêmica
jamaicana estudiosa da escravidão e representante da ONU, manifestou-se a favor
do fim do costume de representar o Zwarte Piet nos festejos públicos de
Sinterklaas. A manifestação de Shepherd gerou forte reação contrária da parte
de tradicionalistas da Holanda e Bélgica. Outros grupos desses dois países,
porém, começaram a incluir nos festejos de Sinterklaas figuras de Zwarte Piet
com a pele verde e azul, em adição ao negro, como forma de mitigar o caráter
racista da figura. A Bélgica e a Holanda começaram a repensar uma antiga
tradição folclórica que todo mundo, até então, simplesmente reproduzia sem
pensar muito a respeito do seu significado.
A questão ainda permanece em aberto, mas hoje é muito mais
difícil ocultar ou ignorar o teor racista dessa antiga tradição folclórica dos
belgas e holandeses. E foi justamente no meio de toda essa confusão que
aterrissou o rótulo que quero discutir hoje.
Brasserie de la Senne e sua “Zwarte Piet”
A Brasserie de la Senne é uma das cervejarias belga da “nova
geração”. Fundada em 2006, atuou como cervejaria cigana por alguns anos,
produzindo suas cervejas em outras fábricas, até conseguir estabelecer sua
própria estrutura produtiva em Bruxelas em 2010. O nome deriva do rio Senne,
que banha a cidade. Seu portfolio inclui alguns produtos em estilos
tradicionais belgas e outros em estilos característicos da nova escola mundial.
A “Zwarte Piet” é uma Belgian dark strong ale. A mesma receita já era produzida
pela cervejaria sob o nome de Equinox, mas foi rebatizada como Zwarte Piet em
2012 – bem no meio da rebordosa em torno dos protestos antirracistas contra o
Sinterklaas. O nome, portanto, era altamente provocativo.
A partir desse nome, esperaríamos que o rótulo trouxesse
algum tipo de variação estilizada (como é comum na identidade visual da marca)
do ajudante negro do Papai Noel. Mas não é nada disso que encontramos. Vejamos:
Um negro vestido com as roupas típicas de um explorador
europeu na África, carregando um fuzil e fazendo gesto de quem está observando
o terreno. Sua boca é de um vermelho vivo, lembrando os lábios grossos pintados
de batom vermelho das pessoas (brancas) que se fantasiam de Zwarte Piet no 6 de
dezembro. À sua frente, como se fosse um batedor, vemos uma galinha. Em segundo
plano, uma fera espreita incógnita, talvez pronta para devorar os dois incautos
exploradores. O cenário lembra uma vegetação tropical, mas ao fundo vemos um
horizonte urbano e, bem à esquerda, é possível divisar o Atomium, um dos
principais pontos turísticos de Bruxelas. Mas que diabos é isso, afinal de
contas? Não tem nada de Zwarte Piet, nem de Sinterklaas ou de natal aqui! Pois
é. Os caras da Brasserie de la Senne ficaram loucos? Ou será que o rótulo é só
uma viagem sem nenhum sentido mesmo? Comparemos a ilustração do rótulo com a
imagem abaixo, que é a capa de uma revista em quadrinhos de 1931, chamada As aventuras de Tintim no Congo:
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Fonte: forum.touteslesbieres.fr |
Agora vemos claramente de onde saiu a inspiração para o
rótulo da Zwarte Piet. A referência é inequívoca – até o bizarro formato das
meias de Tintim é reproduzido no explorador do rótulo da Brasserie de la Senne.
Para quem nunca ouviu falar, Tintim é um herói de quadrinhos extremamente
popular na Bélgica – país que é conhecido tanto pelos seus quadrinhos quanto
por suas cervejas. A Brasserie de la Senne, portanto, está citando no rótulo
dois elementos que são motivo de orgulho para os belgas: um de seus mais
famosos personagens de ficção (Tintim) e uma de suas maiores festas folclóricas
(o Sinterklaas com seu Zwarte Piet). Mas será que o rótulo pode ser lido como
uma homenagem a essas duas coisas? No meu ponto de vista, decididamente não. Como
entender então essa bizarra dupla inspiração da Brasserie de la Senne?
Na verdade, é mais produtivo encarar o rótulo como uma
ironia, ou até uma crítica a essas duas tradições belgas. Vejamos. Na capa
original do quadrinho, Tintim era apresentado como um intrépido explorador que,
apenas com a ajuda de seu fiel cãozinho Milu, partia para uma perigosa viagem
de descobrimento pelo Congo. Eram os anos 1930. Na época, o Congo ainda era uma
colônia belga. Aliás, o regime colonial belga no Congo ficou nas páginas da
história como um dos mais brutais e violentos regimes de dominação colonial do
continente africano. As populações nativas eram forçadas a trabalhar na
extração de produtos agrícolas de exportação (principalmente a borracha) e na
construção de linhas férreas no meio da mata, em condições de segurança e saúde
abomináveis. Morriam às pencas. Diz uma lenda popular no Congo que, durante a
construção da estrada de ferro que liga Matadi a Kinshasa, um africano morreu
por cada dormente de madeira instalado. Alguns estudiosos especulam que as
condições de saúde da população tornaram-se tão frágeis que isso criou
condições que facilitaram o surgimento do vírus do HIV – que talvez nunca
tivesse se desenvolvido e propagado em uma população saudável. (E você que
achava que os belgas eram todos uns monges pacíficos que passavam o dia fazendo
cerveja, hein?) A brutalidade do regime colonial belga no Congo foi denunciada
pelo escritor anglo-polonês Joseph Conrad em seu clássico livro O coração das trevas – o mesmo que
serviu de inspiração para o filme Apocalipse
Now. Pois é: originalmente, o apocalipse era no Congo, e não no Vietnã.
Voltemos a Tintim. Suas aventuras no Congo, em plena época
de colonização belga, são a marca da presença colonial belga na região e da
violência do regime de dominação. No entanto, Tintim parece caminhar garbosamente
(a roupa ainda estava limpinha!) por um terreno totalmente desabitado, povoado
apenas por bestas selvagens. Nenhum traço dos milhares de nativos negros
oprimidos pelo regime colonial. Era costume, nos relatos de viagem do século
XIX, descrever os territórios africanos “descobertos” pelos
viajantes-aventureiros europeus como se eles fossem “vazios”, apenas esperando
que os brancos chegassem, “descobrissem-nos” e tomassem posse deles. Na
verdade, sabemos pelos documentos que esses exploradores sempre andavam em caravanas
organizadas pelos nativos, que os levavam a lugares já bem conhecidos em troca
de mercadorias – ou, em casos extremos, sob ameaça de represália militar. Essas
terras estavam muito longe de serem desconhecidas e mesmo desabitadas, mas era
assim que elas eram representadas para o público leitor europeu ávido pelas
aventuras de grandes exploradores como David Livingstone ou Richard Burton. O
continente era descrito como uma grande “vazio humano” disponível para a
ocupação europeia. Tintim era o substituto ficcional, no século XX, desses
lendários aventureiros reais que percorreram a África no século anterior.
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O missionário inglês David
Livingstone
em um momento “thug life”. Era assim
que um europeu viajava pela África
com estilo!
Fonte: www.scalarchives.it/ |
Para a crítica literária Mary Louise Pratt (que analisou
magistralmente esses relatos de viagem oitocentistas em seu livro Os olhos do império), a atitude mantida
por esses viajantes-exploradores era a de possuir com o olhar: como se, ao ver
uma paisagem, eles pudessem legitimamente tomá-la como possessão para seus países.
Mais ou menos como quando Pedro Álvares Cabral declarou a “descoberta” do
Brasil e mandou Pero Vaz de Caminha descrever a terra em sua célebre carta como
forma de declarar a posse portuguesa de um território que, na verdade, já era
densamente povoado por populações indígenas. Mary Louise Pratt descreveu esse olhar
agressivamente masculino e possuidor, comum aos exploradores europeus, como uma
atitude do “monarca-de-tudo-o-que-vejo”. Pois bem: eis aqui Tintim, em pleno
Congo belga, com a mão esquerda cobrindo os olhos em gesto de observação da
paisagem, como um autêntico “monarca-de-tudo-o-que-vejo” europeu em terras
africanas. Ele carrega um rifle, sim, mas sua verdadeira arma para dominar a
terra é o olhar, já que, pela ilustração, parece nem haver pessoas contra as
quais seria necessário lutar para conquistar a região (o que, obviamente, nunca
foi verdade no Congo belga). A capa d’As
aventuras de Tintim no Congo, portanto, pode ser interpretada como uma
saudosa homenagem a esses grandes viajantes representantes do imperialismo
europeu na África. Olhando a partir do século XXI (muito depois do fim das colônias
europeias na África), é um tributo a uma história muito feia de opressão e
violência.
Relações perigosas
Mas o que diabos São Nicolau e o “Pedro Preto” têm a ver com
Tintim, à parte o fato de ambos serem elementos tipicamente associados à
cultura belga? Quando uma cervejaria batiza sua cerveja de Zwarte Piet mas, em
vez do folclórico ajudante negro do Papai Noel, ilustra o rótulo com uma alusão
ao Tintim, está querendo que pensemos em qual seria a semelhança entre essas
duas figuras. O que torna possível “trocar” o Zwarte Piet pelo Tintim no Congo?
Ora, a característica comum a ambos é sua associação com um histórico e uma
sensibilidade associados ao racismo e ao imperialismo. Assim como o Zwarte Piet
expressa uma visão negativa dos negros, o Tintim no Congo traduz as aspirações
imperialistas belgas que pressupunham, também, a inferioridade dos negros e sua
dominação pelos exploradores brancos.
O que o rótulo faz, no entanto, não é reforçar ou endossar
essa sensibilidade, mas invertê-la de forma irônica e paródica. Se o Zwarte
Piet do folclore natalino é um branco fantasiado de negro fantasiado de
serviçal, o Zwarte Piet da cervejaria é um negro igualmente fantasiado, mas
desta vez de dominador colonial. Os papéis foram trocados. Seu olhar abobalhado
é tanto uma paródia da suposta “inocência” do explorador europeu (o
“monarca-de-tudo-o-que-vejo” que não dispara um tiro e só observa a paisagem)
quanto uma referência ao aspecto parvo e atrapalhado do Zwarte Piet nos
festejos belgas de natal. No lugar de Milu, o fiel cão de Tintim, vemos uma
galinha, animal normalmente associado a populações pobres africanas (em
contraste com o aristocrático cão de caça do ariano Tintim). O animal feroz ao
fundo se mantém, mas, no lugar de um leopardo, aparece apenas como um vulto
negro indefinido – será o bicho-papão do colonizador branco pronto para devorar
os frutos do trabalho, a saúde e a vida dos súditos coloniais?
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Reconhece?
Fonte: |
O rótulo faz questão de nos dizer claramente que, a despeito
da alusão à capa do Tintim, ele não está falando do Congo, mas sim da Bélgica.
Como apontei, se prestarmos atenção ao cenário, conseguiremos notar ao fundo a
silhueta do Atomium, um dos mais famosos pontos turísticos de Bruxelas. O
cenário é a Europa moderna (dilacerada pelos protestos de e contra imigrantes negros),
e não o Congo dos anos 1930. O rótulo do Zwarte Piet é um cutucão provocativo à
cultura do racismo na Bélgica contemporânea. Em primeiro lugar, ele ironiza o
hábito de pessoas brancas se fantasiarem como negras no Sinterklaas e mostra
como essa proposta é descabida ao fazer o contrário: vestir um negro como um
explorador branco na África, criando uma situação inversa e igualmente espúria.
Mais do que isso, o rótulo junta dois elementos considerados centrais do
orgulho nacional belga – o Sinterklaas e Tintim – e mostra como ambos são
solidários com uma cultura de racismo e de exploração imperial na África. É um
duro ataque, feito com humor inteligente, que tem o poder de conduzir os belgas
a refletirem o quanto de sua cultura “típica” está baseada em atitudes racistas
e em históricos muito pouco lisonjeiros de dominação imperial e discriminação
racial.
Na postagem anterior, sobre o rótulo da Evil Twin Imperial
Brazilian Wax, tentei demonstrar como uma cervejaria europeia reproduziu
hábitos arraigados de pensamento com conotações imperialistas, machistas e
racistas. O rótulo da Brasserie de la Senne Zwarte Piet, pelo contrário,
oferece um revigorante contraponto, e mostra uma outra cervejaria – igualmente
europeia, mas com uma atitude política totalmente diferente – disposta a
desconstruir e ironizar esses hábitos de pensamento arraigadamente imperialistas
e racistas de uma parte importante da cultura europeia. Alguns cervejeiros e
consumidores brasileiros, incomodados com os protestos contra rótulos
ideologicamente problemáticos como o Imperial Brazilian Wax, frequentemente se
queixam de uma suposta “patrulha ideológica do politicamente correto”, e alegam
que não se pode mais fazer alusão a nenhum grupo social subalterno e/ou
marginalizado sem ser taxado de preconceituoso. E aí desfilam todo o rosário
histriônico do saudosismo conservador sobre como “o nosso mundo está perdido” e
sobre como “o politicamente correto acabou com o humor e a criatividade” das
pessoas, e todo aquele blablabla que estamos carecas de saber.
Ora, o rótulo da Brasserie de la Senne Zwarte Piet é uma
clara demonstração de que isso é uma enorme bobagem: a cervejaria mobilizou
vários estereótipos delicados (para dizer o mínimo) com humor e inteligência,
sem ser preconceituosa nem reforçar a discriminação. Muito pelo contrário,
aliás: em tempos de polarização da opinião pública belga em torno dos festejos
de Sinterklaas, a cervejaria lançou uma provocadora proposta para que os belgas
repensassem sua cultura de discriminação. Basta saber onde você está mexendo e
assumir uma atitude crítica e questionadora diante das babaquices que circulam
por aí no nosso mundo. É perfeitamente possível ser bem humorado e espirituoso
sem se escorar na muleta fácil de uma cultura que sempre ridicularizou as
minorias. Façamos um brinde à Brasserie de la Senne e ao humor criativo!
A cerveja
Ué, mas e a cerveja? Como é a Zwarte Piet no copo? Um rótulo
desses com certeza merece uma descrição sensorial! Como mencionei, a Zwarte
Piet é uma Belgian dark strong ale, o mesmo estilo de tradicionalíssimas
cervejas monásticas belgas. Nada mais adequado, aliás, para um rótulo que faz
alusão ao folclore natalino do que um estilo desenvolvido pelos cervejeiros
católicos. Mas é uma reinterpretação moderna do estilo, com lupulagem assertiva
(tanto em aroma quanto em amargor), uma certa secura e com perfil de maltes um
pouco mais torrado. Trata-se, portanto, de uma releitura moderna da tradição –
muito adequada, aliás, para uma cervejaria do século XXI que não se limita a
reproduzir as tradições belgas (como o Sinterklaas racista ou as cervejas de
abadia), mas que inova criativamente a partir delas e nos oferece uma variação
atual sobre o tema. Vejamos como ela se comporta no copo:
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Ah, é, a cerveja!
Fonte: |
Estilo: Belgian
dark strong ale
Teor alcoólico:
8.2%
Aparência: a
coloração é típica do estilo, um marrom-escuro com reflexos em tom bordô,
talvez um pouco mais escura do que o tradicional, com creme alto e de boa
persistência.
Aroma: curioso e
atípico para o estilo. No lugar do trio caramelo-frutas-especiarias que
encontramos em outras Belgian dark strong ales, a Zwarte Piet apresenta um
perfil de malte mais torrado (muito cacau em pó e um toque de café) e lupulagem
bem perceptiva, lembrando variedades nobres (gerânios e ervas finas). Mamão e
cravo dão o suave toque “belga” da receita, e nuances exóticas de amêndoas
cruas, coco e cal/mineral vai se desenvolvendo, lembrando até cervejas com
maturação em madeira. Com o tempo, esses elementos começam até a predominar,
descaracterizando um pouco o estilo e roubando algo da complexidade da receita.
Paladar:
inicialmente há um equilíbrio entre a doçura do malte e o amargor dos lúpulos,
mas ela vai se tornando seca ao longo do gole e finaliza com amargor que predomina
visivelmente sobre a doçura, o que é atípico para o estilo, conduzindo a um
retrogosto intensamente amargo e seco com toques de ervas e café.
Sensação na boca:
o aquecimento alcoólico é bem suave para seus 8.2% e o corpo é surpreendemente
seco e leve para o estilo, sem o peso de outras Belgian dark strong ales, mas
com uma textura acetinada bem agradável.
No cômputo geral, é uma releitura bastante moderna e
experimental do estilo, com um toque lupulado característico da “nova escola”
cervejeira mundial. Não tem o peso, nem a complexidade frutada e envolvente, nem
a picância dos exemplares canônicos do estilo, perdendo em profundidade, mas
traz alguns aromas exóticos e interessantes para compensar. (Clique aqui para
ver a avaliação completa)
Mas, pensando bem, diante do rótulo, não poderíamos mesmo
esperar que a Brasserie de la Senne se limitasse a reproduzir as
características “tradicionais” do estilo, assim como se recusou a reproduzir o
teor tradicionalmente racista dos festejos de natal belgas. Mais um brinde à
inovação, ao bom humor e à modernidade!