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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

A cena cervejeira em Portugal - Parte III: Roteiro cervejeiro lisboeta


Pelas partes anteriores desta matéria sobre a cena cervejeira lusitana (veja um pouco sobre as grandes marcas e a diversificação de estilos no mercado português), acho que o leitor do blog já terá percebido que Portugal não oferece uma cena exuberante para o apreciador de cervejas. De fato, os portugueses estão acordando apenas lentamente para os prazeres que o mundo cervejeiro é capaz de proporcionar. Como resultado, é preciso garimpar um pouco para descobrir os picos locais. Como, felizmente, eu tinha dois meses e contei com a ajuda de alguns amigos cervejeiros (em especial Fernando Cardoso, do blog À base de cerveja, e Bruno Aquino, do portal Cervejas do Mundo), pude descobrir e visitar alguns pontos de interesse para os amantes de cerveja e compartilho com vocês um breve roteiro para quem for visitar Lisboa!

Diversidade de rótulos importados no El Corte Inglés. 
Sim, aquela vermelhinha no canto inferior 
esquerdo é uma legítima Brahma!
Fonte: acervo pessoal
Devo confessar que, durante os dois meses em que morei em Lisboa, eu bati carteirinha no El Corte Inglés, que é uma enorme loja de departamento próxima à estação São Sebastião de metrô. A parte que nos interessa fica no subsolo: o supermercado da loja possui uma ótima seleção de cervejas importadas, com destaque para uma boa variedade de belgas, além de algumas norte-americanas, alemãs e inglesas. Os preços são os melhores que você encontrará na capital. Há mais alguns rótulos escondidos nas adegas climatizadas do empório da loja, mas o grosso fica nas prateleiras do supermercado mesmo. Não deixe de visitar também as seções de vinhos e queijos regionais. Uma ótima descoberta que a loja me proporcionou foi a belga Gulden Draak, uma excelente dark strong ale que se encontra irregularmente no Brasil. Decididamente doce, pesada, oleosa e licorosa, ela equilibra sua sensação de doçura com uma gostosa picância de especiarias e álcool, como em um licor. Tem aroma complexo, em que o forte caramelado do malte é enriquecido com especiarias (alcaçuz, canela) e um perfil frutado lembrando cereja e vinho. Não sei se fiquei sugestionado pelas bebidas locais, mas ela me sugeriu vivamente a ginja, um licor de cerejas que é típico de Portugal.

Cruzamento das avenidas António Augusto de Aguiar, Marquês de Fronteira e Sidónio Pais.
Horários de funcionamento: seg.-qui.: 10:00-22:00; sex.-sáb.: 10:00-23:30; dom. e feriados: 10:00-20:00

Fachada do British Bar ao entardecer.
Fonte: acervo pessoal
O British Bar é um pub de estilo britânico que consta ter sido no passado um reduto de marinheiros, ao lado do Cais do Sodré e bem próximo do centro histórico e turístico de Lisboa. Tem ambiente despretensioso e mesas de madeira onde lisboetas e turistas convivem durante o happy-hour, além do balcão de onde saem chopes belgas e locais. O destaque da casa são os rótulos da tradicional cervejaria inglesa Samuel Smith – o bar não cobra barato por eles, mas oferece a maior seleção da marca na cidade. Quando estive lá, tive a oportunidade de provar a excelente Samuel Smith’s Imperial Stout, uma stout imperial bem britânica, para nos relembrar como era o estilo favorito dos russos antes do extremismo das interpretações norte-americanas. Com 7% de álcool, destaca-se pela incrível sensação na boca, com corpo impecavelmente cremoso, e pela doçura bem equilibrada pelo amargor secundário. Chocolate e bananas passas escoltam nuances mais sutis de torrefação (café, caramelo, queimado) e um elegante lúpulo inglês (terroso, flor de laranjeira). Uma imperial stout muito gentil, acolhedora, que não agride nem um pouco.

Rua Bernardino da Costa, n. 52
Telefone: +351 213 422 367
Fecha aos domingos

Fachada do O’Gilins Irish Pub.
Fonte: acervo pessoal
Um simpático pub irlandês localizado próximo ao Cais do Sodré, talvez a uns 100 ou 200 metros do British Bar. O ambiente é aconchegante, com mesas de madeira e um bem-vindo jazz ao vivo em algumas noites. O carro-chefe da casa é o chope Guinness, como não poderia deixar de ser, mas há outras opções, como as belgas Duvel e Chimay Bleue (precisa mais?). A cada cerveja pedida, o bar oferece, como cortesia, uma “tapa”, ou seja, um pequeno tira-gosto. Aproveitei minha visita para revisitar a clássica Duvel: a cerveja que deu origem ao estilo Belgian golden strong ale é diabolicamente fácil de beber, leve, seca, aromática e fresca, lembrando de longe um bom espumante. Florais e apimentados típicos dos lúpulos Saaz e Styrian Golding combinam-se com frutas frescas (peras, banana, laranja), enquanto o corpo leve e seco e o amargor delicado potencializam a drinkability. Um clássico, imperdível para qualquer apreciador de cervejas.

Rua dos Remolares, n. 8-10

É fácil perder a discreta fachada 
enquanto se galga a íngreme ladeira.
Fonte: acervo pessoa
No elegante bairro do Chiado, na parte alta, fica um restaurante e mercearia de aparência charmosamente rústica, que opta por dar destaque aos produtos artesanais e tradicionais da cozinha e da baixa gastronomia portuguesa. Daí possivelmente o fato de ser o único lugar da capital em que eu consegui encontrar cerveja artesanal portuguesa – especificamente, a Sovina, sobre a qual falei um pouco na parte anterior desta matéria. Aproveitei minha visita para degustar a dry stout da cervejaria, acompanhada de um couvert com azeitonas, pães e azeite português. A Sovina Stout tem problemas de fabricação típicos de microcervejarias recém-instaladas, ainda em fase de adaptação das receitas caseiras para o equipamento industrial (me lembrou algumas caseiras e artesanais no Brasil há uns 4 ou 5 anos atrás). Apesar disso, mostra seu potencial com um perfil bem diversificado de sabores de torrefação, iniciando o gole com um chocolate que dá lugar a café e cinzas em um final bem seco, típico do estilo. O corpo é leve para médio, e o amargor predominante é perturbado por uma certa acidez lática que prejudicou sua pureza. Valeria conferir como andam os novos lotes da Sovina Stout.

Rua das Flores, n. 103
Telefone: +351 213 479 418
Horário de funcionamento: seg.-sex.: 12:00-24:00; sáb.: 16:00-24:00

Café Medeia
No shopping center Dolce Vita, ao lado da estação Saldanha do metrô, funciona o cinema Medeia, cujo restaurante e café, bem ao lado das bilheterias, é um dos melhores lugares para curtir uma boa cerveja em Lisboa. O cardápio conta com lanches, pratos e porções para acompanhar uma carta de cervejas extensa para os padrões lisboetas, que inclui rótulos belgas, ingleses e alemães a bons preços. Perfeito para um copo de boa cerveja antes da sessão de cinema. Aproveitei minha visita para provar mais um rótulo da inglesa Samuel Smith, a Samuel Smith’s India Ale, uma IPA leve e harmoniosa, que prima pela interação afinada entre o malte ricamente acastanhado e o lúpulo delicadamente britânico, trazendo frescor frutado e floral para acompanhar o terroso-apimentado típico das variedades inglesas. A doçura do malte equilibra o amargor, que predomina sem muita intensidade no início e no residual. Uma IPA bem equilibrada, na qual os fanáticos por lúpulo talvez sintam falta de mais amargor.

Centro Comercial Monumental Dolce Vita
Avenida Fontes Pereira de Melo, n. 51
Telefone: +351 213 143 396
Horários de funcionamento: 12:30-24:00

No calor, a pedida são as mesas 
colocadas do lado de fora.
Fonte: http://www.wingmanid.com
Trata-se de um “pseudo-brewpub”, restaurante e cervejaria que tem uma linha exclusiva de chopes que, no entanto, não é produzida pela casa, mas sim encomendada para a Unicer, a mesma companhia que produz a lager de massa Super Bock. Localizada no Parque das Nações, longe do centro turístico e em uma área em modernização, tem um amplo e agradável deck à beira do Tejo, onde se podem degustar porções, sanduíches e os chopes da casa. Há ofertas sazonais que pareceram ser bastante interessantes, como uma lager forte de natal e uma cerveja com maltes de uísque turfados, mas não estavam disponíveis no verão, quando visitei o local. Pude provar a República da Cerveja Puro Malte, uma lager clara um pouco mais intensa, bem no perfil de uma Vienna lager mais clara, bastante doce, com notas expressivas de mel acompanhadas de um certo frutado remetendo a abacaxi e um floral de lúpulo bastante convencional. De corpo intenso, pesada, ela é saborosa mas um pouco enjoativa, não pedindo um segundo copo.

Jardim das Tágides, lt. 2.26.01, Parque das Nações
Telefone: +351 218 922 590

A Cervejeira Lusitana é uma rede de lanchonetes com várias unidades na região de Lisboa, que serve uma linha exclusiva de chopes e cervejas produzidos sob licença pela Unicer. A unidade que visitei fica no shopping center Vasco da Gama e tem o ambiente meio “pasteurizado” de um típico restaurante de shopping, com serviço um tanto confuso e o incômodo vai-e-vem dos passantes que visitam lojas e a praça de alimentação. A linha de chopes e cervejas inclui alguns poucos produtos que saem do lugar-comum, como a Lusitana Spicy, pesadamente aromatizada com gengibre e pimenta malagueta, e a Cervejeira Lusitana Weizen Dunkel. Esta é uma cerveja de trigo bávara escura de baixa tipicidade, adaptada para o paladar do consumidor português médio, que parece ter sido pensada como uma variação do clássico “chope escuro” adocicado, com maior acidez e corpo e algum aroma frutado complementar. O cravo-banana típico do estilo fica um pouco apagado diante do acastanhado e caramelado do malte, mas ela ainda tem alguma complexidade aromática interessante.

Centro Vasco da Gama, lj. 3029
Telefone: +351 218 968 162

Fachada do Museu da Cerveja, com mesas na calçada.
Fonte: acervo pessoal
O recém-inaugurado Museu da Cerveja fica na Praça do Comércio (também conhecida como Terreiro do Paço), bem no coração do centro turístico da cidade, às margens do Tejo e de frente para as imponentes arcadas construídas pela monarquia no século XVIII. No térreo, funciona um restaurante-cervejaria em que frutos do mar são escoltados pelo chope exclusivo da casa, em três estilos (American lager, dark American lager e Vienna lager, todos produzidos pela Sociedade Central de Cervejas e Bebidas, a mesma que produz a Sagres), e por rótulos de Portugal, das ilhas atlânticas e de alguns países de língua oficial portuguesa, como Brasil e Angola. Os aficionados lisboetas tinham esperança de ver no Museu da Cerveja alguma cerveja artesanal brasileira, mas o cardápio só apresenta Brahma e Skol. A maior atração é o piso superior, onde funciona uma instituição museológica dedicada à história da cerveja nos países lusófonos, sobre a qual já comentei aqui. A cerveja servida ao final da visita ao museu, a Cerveja do Museu Bohemia, apesar do que o nome sugere, não é uma Bohemian pilsner, estando mais para uma Vienna lager forte, bem adocicada e frutada, com uma combinação de caramelo e maçãs vermelhas e um final levemente amargo para equilibrar sua doçura.

Terreiro do Paço, Ala Nascente, n. 62-65.
Telefone: +351 210 987 656
Horário de funcionamento: 09:00-02:00

Impossível não sacar qual a especialidade da casa.
Fonte: acervo pessoal
Por esta eu não esperava. É sabido que um dos doces mais tradicionais da culinária portuguesa é o pastel de nata, cujos representantes mais famosos e tradicionais são servidos quentinhos nas pastelarias do bairro de Belém (não ignore o excessivamente turístico Pastéis de Belém, ao lado do Convento dos Jerônimos, mas aventure-se pelo bairro procurando as pastelarias menores e poderá ter boas surpresas). E uma pastelaria do bairro, chamada simplesmente Pastéis de Cerveja, em homenagem ao seu carro-chefe, especializou-se num produto que une essa especialidade portuguesa ao nosso querido fermentado de cevada. Trata-se de um curioso pastel que leva cerveja como ingrediente, com recheio que parece ser feito com ovos e cerveja lager clara e uma suave cobertura de amêndoas. É uma das poucas comidas que já provei em que realmente se pode sentir uma cerveja tão leve quanto uma American lager, mostrando um sabor de malte fresco e uma doçura de cerveja oxidada (como aquela que fica no copo de um dia para o outro) que, no contexto do pastel, caiu como uma luva. A pastelaria serve, para acompanhar, o chope Super Bock, que fornece uma boa harmonização por semelhança. O dono da pastelaria parece absolutamente alheio ao fato de que existem outros estilos cervejeiros que ele poderia usar para variações do seu pastel, mas eu não pude deixar de imaginar o que seria um pastel de cerveja feito com uma porter, uma Münchner dunkel ou uma dubbel.

Rua de Belém, n. 15
Telefone: +351 213 634 338

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A cena cervejeira em Portugal - Parte II: Uma diversidade recente


Na primeira parte desta matéria, falamos um pouquinho sobre a cena cervejeira de Portugal a partir do ponto de vista das grandes marcas de American lagers de massa que dominam o mercado lusitano (nomeadamente, Super Bock e Sagres). Ora, nesse ponto, Portugal não oferece nenhuma novidade substancial: as American lagers dominaram todos os mercados cervejeiros do mundo ao longo do século XX. A coisa só começou a mudar mais ou menos a partir da década de 1970, quando começou a surgir uma tendência, encabeçada pela Inglaterra e pelos EUA, de revitalização da diversidade cervejeira tradicional e criação de novos e surpreendentes estilos e cervejas com produções em pequena escala. A chamada “revolução da cerveja artesanal” espalhou-se para a Europa e, na década de 2000, explodiu como fenômeno mundial – como atesta o recente fortalecimento dessa tendência no Brasil.

No Brasil, a Eisenbahn é quem melhor representa a 
aliança entre a inovação microcervejeira e uma 
macroestrutura de produção e distribuição. Na imagem, 
a edição comemorativa de 10 anos da marca.
Fonte: sopromocoes.com.br
Em quase todos os lugares em que essa reorientação do mercado ocorreu, o protagonismo foi dos pequenos produtores, que decidiram apostar alto na produção de cervejas de aceitação restrita, gradualmente ajudando a estabelecer um gosto e uma demanda por essa diversidade cervejeira. Foi apenas num segundo momento que os estilos cervejeiros menos convencionais começaram a chamar a atenção das grandes companhias. Hoje, elas estão de olho nas artesanais no mundo todo. Nos EUA, um dos países em que a “revolução artesanal” mostrou-se mais teimosamente resistente ao grande capital, a Anheuser-Busch (parte da globalizada AB-InBev) adquiriu em 2011 a excelente microcervejaria Goose Island, de Chicago. No Brasil, antes disso, a Schincariol (atual Kirin-Brasil) já havia comprado três micros: a Devassa (RJ), a Eisenbahn (SC) e a Baden Baden (SP). Em ambos os casos, as grandes companhias começaram a produzir, em diversas de suas plantas fabris e em escala nacional, algumas receitas que antes só eram produzidas localmente. A diversidade cervejeira e as chamadas “cervejas artesanais” (termo que parece cada dia mais ultrapassado no novo cenário mundial) estão no centro dos holofotes na cena internacional.

Ora, pois: Portugal é um país com pouca tradição cervejeira, sempre tendo sido conhecido muito mais por seus vinhos. Apesar disso, nos últimos dez anos começou também, na terra de Camões, um tímido movimento de interesse por estilos diversificados. Contudo, o que mais me chamou a atenção em Portugal é que, diferentemente do que ocorreu nos EUA ou no Brasil, esse movimento não ocorreu a partir das criações das microcervejarias. São as grandes cervejarias portuguesas – as mesmas que, por décadas, produziram apenas American lagers como a Sagres ou a Super Bock – que estão, lentamente, apostando na diversidade cervejeira. Isso ocorre em escala restrita, com produtos que ainda parecem ter pouca personalidade diante do olhar de um entusiasta por artesanais, mas trata-se de uma tendência clara. Vejamos algumas dessas criações.

A ampliação do leque da Super Bock

Super Bock Stout
Fonte: uni.unicer.pt
Atualmente, a Unicer é a companhia que mais tem procurado se sintonizar com a tendência mundial à diversidade cervejeira e introduzi-la em Portugal. Desde 2003, a companhia tem ampliado rapidamente sua linha de cervejas Super Bock: o primeiro rótulo além da American lager a ser introduzido no mercado português foi a Super Bock Stout – uma verdadeira miscelânea indigesta de nomenclaturas, já que se trata de uma cerveja que, apesar de conter os estilos “stout” e “bock” em sua denominação, está mais próxima de uma lager escura de estilo americano (“American-style dark lager”, segundo o guia do BA). Disponível no mercado brasileiro, a Super Bock Stout é uma cerveja de perfil suave, que combina os sabores de uma torrefação discreta de maltes (café e chocolate em concentração moderada) com algum floral de lúpulo e uma certa esterificação frutada (banana). O resultado é uma cerveja limpa, fácil de beber, um tanto adocicada (mas nem de longe tanto quanto as nossas Malzbiers), lembrando mesmo uma American lager em que o sabor do malte pilsen é substituído por uma leve torrefação (veja aqui a avaliação completa).

De lá para cá, a Super Bock aumentou seu portfolio para nove rótulos fixos e três edições limitadas: além da American lager e da Stout, temos as cervejas sem álcool (clara e escura), a Green (com limão) e a Classic (uma lager clara mais forte, na linha de uma Dortmunder export). A aproximação com as artesanais é mais clara na linha premium, de inspiração belga, que conta com a Super Bock Abadia, a Super Bock Abadia Gold e a Super Bock Abadia Rubi. Além desses rótulos fixos, a cervejaria produziu três edições especiais, com rolhas de cortiça e faixa de preço substancialmente mais elevada, sob a denominação “Cerveja de Autor”: a Double Gold (uma Belgian golden strong ale), a Doppelbock e a Bohemian Pilsner. Uma clara ampliação do portfolio em direção à tendência mundial da diversificação cervejeira, incluindo estilos normalmente associados às microcervejarias, como doppelbock ou as cervejas de estilo belga.

Em todos os casos, os rótulos da Super Bock não apresentam aquela intensidade e aquela personalidade que esperamos de um produtor artesanal ou tradicional de pequena escala. Tratam-se de receitas adaptadas para o mercado de massas, com algumas de suas características mais agressivas atenuadas para não assustar o consumidor português, ainda pouco habituado a sabores muito marcantes. De certa forma, a linha da Super Bock lembra um pouco o que a Bohemia tem feito no Brasil. Diferentemente do que acontece com as microcervejarias, as grandes empresas arriscam menos (até porque há muito mais capital em jogo). O interessante é que, a médio e longo prazo, isso parece estar despertando nos portugueses, aos pouquinhos, o gosto pela diversidade. Cabe aos pequenos produtores entrarem nessa brecha com cervejas com mais caráter.

O belo cartaz publicitário da Super Bock 
Abadia ressalta as origens do estilo.
Fonte: acontece.wordpress.co
A meu ver, a Super Bock Abadia é uma cerveja paradigmática dessa tendência – até porque me lembra muito a nossa Bohemia Abadia. Como esta, é uma Belgian blond ale que parece inspirada nas características sensoriais da Leffe Blond, mas com menos intensidade e complexidade. A Super Bock Abadia tem paladar predominantemente adocicado e mostra aromas maltados dominantes, remetendo a mel, acompanhados de toques frutados (compota de abacaxi), florais e de especiarias (talvez algum cravo ao fundo?) típicos das leveduras belgas. Tem corpo médio para intenso, refletindo a forte doçura residual, e uma pegada um pouco incômoda de “cerveja forte”, com sensação química e alcoólica um pouco mais agressivas do que nos melhores exemplares belgas do estilo (clique aqui para ver a avaliação completa).

Pseudo-brewpubs

Outra tendência que começou nos EUA e que hoje parece se disseminar pelo mundo todo é a dos brewpubs – ou seja, bares e restaurantes que produzem as próprias cervejas que servem a sua clientela, fresquinha. Brewpubs fortalecem a produção local, permitem ao produtor ter um diálogo direto com os consumidores e oferecem a estes a possibilidade de beberem receitas exclusivas e sempre frescas. A cidade de Lisboa conta hoje com dois estabelecimentos que servem chopes “da casa” em estilos diversificados, à maneira de um brewpub: a República da Cerveja e a Cervejeira Lusitana. Contudo, em vez de produzirem localmente suas cervejas, ambas as encomendam às grandes cervejarias (as mesmas que produzem a Sagres e a Super Bock), que produzem chopes e os entregam com exclusividade às casas.

A taça da República da Cerveja Puro Malte e o ótimo 
queijo alentejano que pedi para acompanhá-la.
Fonte: acervo pessoal
A República da Cerveja localiza-se no Parque das Nações, região de Lisboa longe do centro, em processo de valorização e modernização. Trata-se de um agradável restaurante num dos deques à beira do Tejo, um ambiente agradável e amigável para um happy hour. A linha de chopes da casa é fornecida pela Unicer (a mesma que produz a Super Bock) e, além dos chopes claro e escuro, inclui uma Weizenbier, uma Vienna Lager e três chopes sazonais: uma lager forte de natal, uma cerveja produzida com malte de uísque turfado e uma receita de primavera que me pareceu, pela descrição, próxima de uma saison. Infelizmente, nenhum dos rótulos sazonais estava disponível quando visitei a República da Cerveja, de modo que optei pela República da Cerveja Puro Malte, uma Vienna lager mais clara, de bonita cor dourada, com perfil de malte claramente dominante (trazendo mel e cereais) acompanhado de um expressivo frutado e de algum floral e cítrico de lúpulo. A cerveja é saborosa, mas um pouco enjoativa devido à ausência de amargor para equilibrar a forte doçura. Cai bem em pequenas doses, e escoltou bem o queijo alentejano que pedi para acompanhar (clique aqui para ver a avaliação completa).

Cervejeira Lusitana Spicy.
Fonte: pt-pt.facebook.com
A Unicer ainda fornece os chopes da casa da CervejeiraLusitana, uma rede de restaurantes cuja unidade no Shopping Vasco da Gama (próximo ao Parque das Nações) tive a oportunidade de visitar. Trata-se de um típico restaurante de shopping center, com serviço um tanto mais confuso do que eu gostaria, mas com uma boa gama de chopes e cervejas exclusivas. Quando visitei a casa, estavam disponíveis os chopes claro e escuro, além de uma Weizenbier, uma Weizendunkel e a Cervejeira Lusitana Spicy, uma lager clara de 5.1% de álcool com adição de gengibre e pimenta malagueta, engarrafada e arrolhada. As especiarias têm um evidente protagonismo na cerveja, resultando em aromas intensos lembrando gengibre, lavanda, limão e Pinho-Sol, além de um final marcante, extremamente picante e apimentado. O paladar é ácido e picante, pedindo harmonização com alimentos doces, talvez uma das sobremesas à base de creme e ovos, típicas da culinária portuguesa. Cerveja ousada, mas um tanto desequilibrada em seus excessos, que sai do lugar-comum mas, com isso, perde um pouco sua identidade de “cerveja” (clique aqui para ver a avaliação completa).

As microcervejarias portuguesas

Nem só de grandes cervejarias vive a nascente diversidade de estilos em Portugal. O país tem um pequeno movimento de hombrewers que, do ano passado para cá, tem resultado na abertura, ainda tímida, de algumas microcervejarias regularizadas, com produtos um pouco mais ousados que aqueles produzidos pelas macros. As duas micros portuguesas que existiam quando visitei o país em agosto e setembro de 2012 (nomeadamente, a Vadia e a Sovina) localizam-se no norte do país, no Porto, e são muito difíceis de serem encontradas fora de sua região de origem. Na capital, consegui localizar (depois de uma certa ajuda dos entusiastas locais) apenas alguns rótulos da Sovina, e somente em um único bar escondido no bairro do Chiado (sobre o qual falarei mais adiante).

A Sovina é a marca da cervejaria 3 Cervejeiros, do Porto. A princípio, fique em dúvida se a palavra “Sovina” teria algum significado diferente em Portugal, mas meus amigos lusitanos me esclareceram que o termo faz, como no Brasil, referência ao pão-durismo – embora a cerveja seja relativamente cara para os padrões portugueses (€3,50 por 330ml). Irreverente. A cervejaria apresenta seus produtos em garrafas de 330ml (semelhantes aquelas “gorduchinhas” belgas) e de 750ml (arrolhadas), além do chope (indisponível em Lisboa). Seu portfolio conta com 6 rótulos diferentes: a Amber (uma bière de garde que, infelizmente, não consegui encontrar), a Helles (uma Münchner helles), a IPA, a Stout, a Trigo (uma Weizenbier de estilo bávaro) e a Bock. As duas que consegui provar (a Stout e a Trigo) exibiram problemas típicos de cervejarias novas, que ainda não conseguiram afinar 100% o equipamento e o processo produtivo às receitas. Mas, assim que esses detalhes forem resolvidos, a Sovina tem tudo para oferecer produtos interessantes e diversificados para um público português que, até o momento, só conhecia as cervejas de massa e as importadas. A Sovina Trigo me pareceu interessante e promissora, merecendo uma menção mais extensa.


Estilo: German Weizenbier
Teor alcoólico: 4.4%
Aparência: cor amarela queimada, bem opaca e com belo creme fofo e duradouro.
Aromas: exibe bastante personalidade dentro de um estilo um tanto padronizado, com malte de trigo muito presente, lembrando aveia, muito fermento e um aroma floral e cítrico de lúpulo. Cravo e banana, típicos do estilo, mostraram-se presentes, mas não preponderantes, e um leve toque de defumação (advindo dos fenóis) deu-lhe mais interesse e personalidade. Infelizmente, a amostra mostrou-se comprometida por aromas de milho cozido, cebola e esmalte mais intensos do que o esperado.
Paladar: a acidez típica do estilo predomina, mas torna-se mais suave, conduzindo a um bem-vindo final seco e amargo. A doçura é menos relevante.
Sensação na boca: o corpo é mediano, com certa adstringência de malte e uma carbonatação vívida e refrescante.

Clique aqui para ver a avaliação completa.

De forma geral, a Sovina Trigo é uma Weizenbier de personalidade, em que a dupla malte-fermento se impõe mais claramente do que os ésteres e fenóis (banana-cravo) típicos do estilo. A lupulagem é expressiva, tanto em aroma quanto no final seco e amargo, o que a torna mais refrescante e leve. Infelizmente, alguns defeitos de fabricação (especialmente compostos sulfúricos) comprometeram a degustação e impediram que ela brilhasse como deveria.

A Sovina é o prenúncio de uma reviravolta microcervejeira que está só começando em Portugal. Contrariamente ao que ocorreu na maior parte do mundo, onde as grandes companhias estão tendo de correr atrás da demanda criada pelas micros, em Portugal parece que só agora as pequenas cervejarias estão encontrando espaço para se estabelecerem em um mercado cujo interesse pela diversidade foi criado timidamente pelas grandes empresas. Provando que a história nem sempre se repete – e que as macrocervejarias não precisam ser vistas como as grandes vilãs da chamada “revolução artesanal”.