domingo, 15 de fevereiro de 2015

A explosão selvagem de 2014

Depois de ler os votos publicados na enquete organizada pelo Roberto Fonseca sobre a cena cervejeira de 2014 no Brasil (para quem não viu, fica a indicação de leitura), consolidei minha impressão de que o ano que passou foi um momento de intenso despertar do público brasileiro pelas cervejas selvagens – as sour ales e seus subestilos, desde as arquiclássidas (e arquiclassudas) lambics belgas até as descompromissadas e refrescantes Berliner Weisse. Produtores, profissionais, especialistas e amantes inveterados de cerveja estão definitivamente com os radares ligados para esse estilo cervejeiro, e há previsões bastante concretas de que, em 2015, teremos pelo menos alguns lançamentos de sour ales de cervejarias brasileiras. Quando escrevi aqui sobre cervejas selvagens produzidas no Brasil, há pouco mais de um ano, o cenário era um deserto desolador. Hoje, as coisas estão mudando.

Desafios do azedume no Brasil

Diante desse cenário de consolidação das sour ales no Brasil, levanto algumas questões a respeito da possibilidade de que esses estilos consigam ganhar mercado no Brasil nos próximos anos. A primeira delas diz respeito à aceitação do público. Há um entusiasmo dos especialistas em relação às sours, mas não sei até que ponto o público em geral está receptivo a tanto azedume. Há alguns dias li uma reportagem da Folha de S. Paulo, na qual Alessandro Oliveira, cervejeiro da Way Beer, afirmou que parte dos consumidores tem estranhado as sours lançadas pela cervejaria. Em suas palavras: “tem gente que manda e-mail para nós dizendo que comprou cerveja estragada, azeda”. Há uma monumental tarefa de educação do consumidor pela frente, se quisermos que as sour ales desenvolvam potencial de mercado no Brasil ao ponto de se tornarem algo mais do que lançamentos para um nicho minúsculo. Tenho a impressão de que o público bebedor de vinhos (acostumado a valorizar bebidas ácidas) é um mercado a se explorar. Na Europa, uma boa parte dos entusiastas tradicionais de lambics e sour ales belgas vem da comunidade dos enófilos, e não dos bebedores de cerveja. É algo a se pensar para o marketing das nossas cervejarias.


A segunda questão (que está relacionado com a primeira) diz respeito ao preço. Já cansei de dizer aqui: sour ales são estilos difíceis de se fabricar, demandam uma boa dose de tentativa e erro, requerem longos tempos de maturação e fermentação e geralmente necessitam de barris de madeira. Tudo isso encarece o produto. Há cervejarias que repassarão integralmente os custos ao consumidor, e aí é batata que as suas sours chegarão às prateleiras numa faixa de preços incompatível com o mercado, ainda mais em um ano em que se acena com a possibilidade de recessão e retração do consumo. A mineira Falke comercializa desde 2011 uma sour ale com jabuticaba – a Falke Vivre Pour Vivre –, mas ela chega ao mercado custando acima de R$ 200. Quem é que provou, sinceramente? (eu já!) Aqueles que já provaram, comprariam de novo? Duvido muito. Se a receita se repetir, esses lançamentos podem ser um tiro no pé, monumentais elefantes brancos nos empórios que certamente vão demandar muito mais esforço para vender do que o famoso elefantinho rosa belga (desculpe, não resisti). Outras cervejarias provavelmente encararão as despesas extras como um investimento para a valorização da marca (o que, cá para mim, parece uma estratégia de mercado mais consistente para quem tem condições), e tentarão colocar suas sours no mercado com um preço apenas marginalmente superior ao de seus rótulos mais elaborados e intensos. É esperar para ver, mas o fato é que, a depender dos preços, vai ser ainda mais difícil que esses rótulos atinjam o público médio. O Brasil já tem excelentes sours belgas clássicas a preços acessíveis, e não sei se é inteligente cobrar muito mais por sour nacionais.

Ainda mais se essas cervejas nacionais estiverem muito abaixo do nível das belgas clássicas que temos no Brasil. O que me leva à minha terceira preocupação: qual será o padrão de qualidade dos nossos lançamentos de sours nos próximos dois anos? Sabemos que há cervejarias que já estão se preparando há algum tempo para o desafio e terão condições de oferecer produtos maduros. Mas também haverá um monte de gente que vai decidir pegar o bonde andando e irá lançar produtos sem expertise e sem o tempo de maturação adequada. Ora, uma obra-prima belga como uma gueuze demora pelo menos 3 anos e meio para ficar pronta. Se uma cervejaria brasileira quisesse lançar uma gueuze em 2015 (pode esquecer, não tem a menor condição), deveria ter começado a produzir talvez antes de 2012. Há estilos que ficam prontos mais rapidamente, mas quase nunca com menos de 1 ano, exceto os mais simples (como Berliner Weisse). Será que teremos lançamentos oportunistas com cervejas que ainda não estarão totalmente maduras, mas que serão vendidas como se fossem produtos de luxo? Ponho minha mão no fogo como teremos. E isso não será nada bom para a imagem das sours nacionais diante do público. A conjunção dos três fatores pode ser explosiva, a curto e médio prazo, num cenário de retração do consumo: resistência dos consumidores, preços altos e concorrência com belgas melhores e mais baratas. A coisa pode azedar.

“Pô, garçom, isso me custou mais que uma 
Cantillon Grand Cru Bruocsella!”
Mas nem tudo são previsões apocalípticas. Algumas cervejarias nacionais têm dado sinais de que estão enfrentando com peito aberto o desafio de produzir boas cervejas selvagens e lançá-las a preços razoáveis. Na verdade, escrevo esta matéria para falar sobre elas e fazer um balanço das sour ales lançadas no mercado nacionais em 2014. A partir daí, talvez seja possível discutir tendências, possibilidades e horizontes para a selvageria no Brasil. Abstenho-me de comentar as cervejas que ainda não foram lançadas comercialmente, de modo que me focarei apenas no que realmente chegou às prateleiras.

Mezzo selvaggio

Começo com as “menos selvagens” das selvagens lançadas comercialmente em 2014. Estou falando dos experimentos da cervejaria Tupiniquim com leveduras do gênero Brettanomyces. A estreante micro gaúcha se valeu da expertise de seus parceiros estrangeiros (a dinamarquesa Evil Twin e a norteamericana Stillwater) com cervejas com adição de Brettanomyces para lançar no mercado dois interessantes lançamentos colaborativos. Ambos foram fermentados integralmente com Brettanomyces, desde a fermentação primária até a refermentação na garrafa. Nesse contexto, as Brettanomyces se comportam de forma semelhante às Saccharomyces tradicionais, adicionando uma levíssima acidez acética e sutis aromas “exóticos” (um frescor frutado diferente, talvez um acento animal leve). As Brettanomyces demoram mais ou menos 6 meses para começar a se manifestar de forma mais clara (deixando a cerveja mais seca e com aroma animal e frutado intenso), de modo que seria preciso esperar para que essas cervejas manifestem um perfil claro de Bretta. Inclusive, há quem diga que as leveduras vendidas pelos maiores fornecedores para a produção desses estilos de “Brett ales” na verdade são Saccharomyces. Tudo isso para dizer que as selvagens da Tupiniquim têm um pezinho bem tímido no lado da selvageria. O que já é suficiente no cenário que vivemos.

Fonte: www.ocontadordecervejas.com.br
O primeiro lançamento selvagem da marca foi a excelente Tupiniquim/Evil Twin Lost in Translation IPA Brett. Já falei sobre essa cerveja aqui antes, então não quero me alongar, mas acho que foi o rótulo mais interessante que a cervejaria já lançou até o momento, do meu ponto de vista. Tem a vantagem de ser uma IPA de boa qualidade (o que já é um mérito por essas bandas), seca, com amargor limpo e afiado e com bons aromas herbais (verbena) e frutados (manga, mamão, limão). As Bretta contribuem com um suave toque exótico que remete a uvas verdes, couro de sapateiro e borracha defumada. Ótima pedida. A segunda boa cerveja “semisselvagem” da marca foi a Tupiniquim/Stillwater Saison de Caju, saison inteiramente fermentada com Brettanomyces e produzida com adição de polpa de caju e manga. Acho que essa foi a primeira saison nacional que provei que saiu realmente fiel ao estilo. Amarela clara e opaca na taça, com espuma nababescamente alta e muito persistente. No aroma, frutas, terroso e especiarias em equilíbrio, como preconiza o estilo. Na ala das frutas, a manga é bem mais evidente que o caju (o que, de certa forma, torna o nome da cerveja um pouco estranho), e sentem-se também abacaxis maduros, laranja e damascos secos trazidas pela levedura. Terroso e pimenta-do-Reino em boa intensidade trazem o tradicional contraponto do estilo. Um pouquinho de pão branco do malte, um tiquinho de untuosidade de DMS. O paladar é bem seco, com acidez expressiva na boca e um final amargo, terroso, típico do estilo. O corpo é mediano e a adstringência é perceptível. Contudo, as Brettanomyces aqui ficaram bem apagadas, quase imperceptíveis. Talvez – e eu digo talvez – um toque de borracha defumada ao fundo, lembrando a Lost in Translation. Ou estaria eu sugestionado? Não importa: o fato é que o perfil de Bretta é muito sutil, de modo que é melhor encará-la como uma saison bem feita. Acredito que, depois de uns 6 meses na garrafa, as danadas das Brettanomyces vão começar a aparecer.

Selvageria germânica

Outra cervejaria que andou brincando com estilos selvagens foi a tradicionalíssima e germaníssima Abadessa, também do Rio Grande do Sul. Em 2014, a micro gaúcha lançou comercialmente sua versão para o estilo Gose, estilo selvagem tipicamente associado à região de Leipzig, na Alemanha (clique aqui para saber mais sobre esse estilo pouco conhecido e que quase foi extinto). A Abadessa Gose já havia sido lançada em 2013, mas não tinha sido engarrafada e distribuída comercialmente devido a pendências com o registro da cerveja. Em 2014, ela finalmente chegou aos empórios. A microcervejaria apostou numa interpretação suave do estilo, que potencializasse sua drinkability e sua refrescância, distante da acidez mais acentuada que parece ter sido marca das versões mais tradicionais dos séculos XVIII e XIX. A Abadessa Gose não fermenta com bactérias láticas para desenvolver sua acidez. Em vez disso, recebe adição de ácido lático já pronto, apenas para “ajustar” a acidez desejada, o que faz com que o azedinho fique bem suave. Como é típico do estilo, ela também recebe sal e sementes de coentro.

Essa bruxa me dá medo. 
De um jeito errado.
Fonte: cervejasartesanaisdobrasil.blogspot.com
O resultado é ao mesmo tempo sutil e surpreendente. Na taça, a Abadessa Gose mostra um dourado radioso, levemente esbranquiçado, e alguma turbidez. Na boca, abre com uma leve doçura de malte e desenvolve uma acidez suave e refrescante, um firme amargor de lúpulos e um apetitoso toque salgado, tudo se alternando na boca e se equilibrando sem que nada sobressaia. No aroma, muito pão branco, floral de lúpulo nobre (pareceu-me a variedade Saaz com seu perfume de camomila), o cítrico-apimentado das sementes de coentro e um frutadinho que lembra banana verde, tudo em harmonia. A persistência na boca é muito alta e agradável (como é uso ocorrer nas cervejas da Abadessa, aliás), com sabor rico de pão branco e sensação seca, amarga, ácida, levemente salgada, extremamente apetitosa. Apesar do corpo mediano, o sal preenche a boca e dá volume. Parece uma Münchner Helles com sal, coentro e uma leve acidez. Não espere um exemplar extremo ou marcante do estilo: a Abadessa Gose é uma cerveja sutil e equilibrada, talvez um pouco conservadora, sim, mas com um enorme poder de abrir o apetite. Imagino imediatamente esta cerveja sendo servida como aperitivo em uma festa numa tarde de calor.

Frutas tropicais

De todos os lançamentos selvagens do ano de 2014, talvez o que mais tenha chamado a atenção do público e da mídia especializada foi a linha Sour me Not, da microcervejaria curitibana Way Beer. Também, pudera. São 3 rótulos de sour ales inclementemente ácidas, com receitas parecidas, mas diferenciando-se pela adição de diferentes frutas: morango, acerola e graviola. A Way mexeu com o imaginário do público brasileiro, mostrou que as cervejarias brasileiras estão antenadas com a tendência internacional das sour ales e, de quebra, ainda provou que é possível oferecer rótulos do estilo a preços acessíveis: a linha Sour me Not custa em torno de R$ 15 cada garrafinha. OK, não são sour ales de produção tão complicada quanto lambics. Todas têm a mesma receita de base, de um baixo teor alcoólico de 3.5%, com fermentação mista com leveduras comuns do gênero Saccharomyces e bactérias láticas do gênero Lactobacillus, sem Brettanomyces e sem passagem por madeira. E todas levam adição de polpa de frutas, claro.

Fonte: embuscadacervejaperfeita.com
Também não quero me estender especialmente nelas, uma vez que já lhes dediquei uma postagem aqui no blog. Neste momento, só quero fazer um comentário geral sobre a linha e comentar como ela se insere dentro dos lançamentos do ano. A similaridade entre as receitas da linha Sour me Not é bastante notável. Em todas, percebe-se um ataque de acidez lática muito destacada (um pouco agressiva para meu gosto) e uma doçura residual de malte também bem perceptível, sobretudo no final, com doçura notável e sabor de pão doce e baunilha. O jogo entre doce de malte e acidez lática lembra a sensação de uma Berliner Weisse, mas com tudo bem mais intenso. As três também exibiram um aroma lático um pouco estranho, lembrando iogurte ou probiótico, que pode talvez ser explicado pela intensidade da fermentação lática. O aroma da fruta fica em segundo plano, mas nas três ele é perceptível. Dito isso, cada um dos rótulos da linha tem seus destaques. A Way Beer Sour me Not Morango tem doçura um pouco acentuada demais e aroma de fruta passada ou cozida – foi a que menos me agradou das três. A Way Beer Sour me Not Acerola, preferida de muitos, é a mais seca, com acidez firme e refrescante e bons taninos, embora o aroma da fruta seja mais tímido. Mas, para mim, o destaque fica por conta da Way Beer Sour me Not Graviola: a fruta traz boa suculência (e eu adoro graviola) e a sensação de doçura é intermediária entre as outras duas, resultando em equilíbrio.

Blendagem

Um dos traços mais característicos dos estilos belgas de cervejas selvagens é o uso da técnica da blendagem: a mistura entre cervejas maturadas durante períodos de tempo variáveis, em tanques, tonéis, ou barris diferentes. A blendagem é uma técnica que ajuda muito os produtores a oferecerem sour ales equilibradas e complexas em escala comercial, pois permite combinar as características de lotes diferentes (aumentando as camadas de sabor e aroma) e esconder ou minimizar problemas que quase sempre aparecem na imprevisível maturação em madeira. A Wäls tem sido uma das poucas cervejarias a experimentar a blendagem de forma sistemática em suas cervejas ácidas. Até pouco tempo atrás, esses experimentos haviam ficado limitados aos poucos barris da fábrica da cervejaria, sem distribuição comercial. Em dezembro de 2014, isso mudou com o lançamento da Wäls Wild Ale EAP, resultante do blend entre uma dubbel ácida e uma dubbel “normal”, combinando o melhor de ambas.

Para quem não sabe, EAP é a sigla para o famoso Empório Alto dos Pinheiros, um dos mais tradicionais pontos de venda da Wäls aqui em São Paulo. A cerveja foi lançada num lote bastante limitado de apenas 1000 garrafas de 375ml. Segundo a cervejaria, a ideia teria se originado de uma encomenda de Paulo Almeida, proprietário do empório. Não falei a esse respeito nem com ele e nem com os irmãos Carneiro, da Wäls, mas tenho um palpite de como tudo aconteceu. Lá em torno de 2011, quando começaram a vir os chopes da Wäls para São Paulo, lembro-me de uma torneira de Wäls Dubbel, lá no EAP, que estava com problemas. A cerveja havia sofrido uma contaminação bacteriana (não sei se no barril ou na serpentina) e estava extremamente ácida. O Paulo Almeida me ofereceu um copo para eu provar, e eu me recordo vivamente de um comentário que ele fez na época: “Está azeda, mas está gostosa. Se eu oferecesse como uma sour ale, aposto como venderia!” OK, as palavras exatas podem não ter sido essas, mas você entendeu o espírito. Eis que, uns quatro anos depois, cá estamos nós com essa sour dubbel da Wäls feita por encomenda do Paulo.

Fonte: untappd.com
A cerveja foi produzida por um método curioso. Sua receita-base foi a medalhista Dubbel da cervejaria. Metade do lote fermentou e maturou durante 3 meses em tanques de aço inox, a temperatura de 0º C, enquanto a outra metade fermentou e maturou em barricas de carvalho durante 3 meses, ganhando acidez. As duas partes foram blendadas na proporção de 1:1 e engarrafadas, e depois passaram aproximadamente 4 anos evoluindo nas garrafas. A Wäls esperou o momento oportuno de lançar comercialmente esse blend, e a hora chegou agora, quando se vive um recrudescimento no interesse por sour ales no país. Há várias coisas interessantes a respeito da produção dessa cerveja. Em primeiro lugar, o fato de ela ter sido feita quando ainda poucos falavam em sour ales no Brasil. Em segundo lugar, o fato (até onde sei, inédito no Brasil) de uma cervejaria envelhecer suas cervejas na garrafa antes de comercializá-las, apresentando um produto que chega ao consumidor com claros sinais de evolução e envelhecimento. Em terceiro lugar – e aqui está o fato mais instigante da cerveja –, é curiosa a forma como se fez a acidificação da metade ácida do blend. Segundo José Felipe Carneiro, cervejeiro da Wäls, não houve adição ou inoculação deliberada de bactérias ou de leveduras do gênero Brettanomyces na fermentação da cerveja: a cerveja recebeu apenas o fermento comum da casa, com leveduras do gênero Saccharomyces. Em vez disso, as barricas de carvalho que maturaram metade do blend foram expostas à microflora local do entorno da cervejaria, adquirindo uma mistura de microorganismos que ocorrem na área, sem controle seletivo do cervejeiro. Quem já visitou a Wäls, em Belo Horizonte, sabe que a cervejaria se localiza num bairro arborizado, próximo ao Campus Pampulha da UFMG, área que propicia a reprodução da microflora no ar. Ou seja: a fermentação lática da Wäls Wild Ale EAP poderia ser chamada de “espontânea”, lembrando os métodos de produção das lambics belgas. Verdadeiramente uma “wild ale”.

Tanto a fermentação “semiespontânea” nas barricas quanto o envelhecimento na garrafa por 4 anos imprimiram sinais claros na cerveja, compondo um conjunto sui generis. Apesar de o método de produção não seguir nenhum estilo definido, o resultado lembra muito um raro estilo belga em decadência, denominado oud bruin ou Flanders brown ale (escrevi sobre elas aqui). A apresentação é caprichada, a começar pela garrafa embrulhada por uma folha de papel que faz as vezes de rótulo – como ocorre com muitas sours belgas tradicionais. Na taça, ela mantém a pose com uma bela coloração ameixa, transparente, e uma espuma farta. No aroma, um estranhamento inicial e muita complexidade que vai se revelando em camadas, com o tempo. O estranhamento é a ausência de sinais evidentes de Brettanomyces – nada daquele aroma animal característico, nem das frutas frescas. Pode-se imaginar que a microflora local da cervejaria talvez não inclua cepas de Brettanomyces. Na sequência, muita licorosidade de malte (caramelo aos montes, achocolatado) e frutas doces (maçãs ao forno, ameixas secas, cerejas ao marrasquino e mamão cristalizado). Lúpulo floral (ainda perceptível depois de tanto envelhecimento!) e toques terrosos e azedos são o contraponto aromático a toda essa doçura. Um perfil muito intenso e definido de evolução e oxidação evidencia claramente os quatro anos da longa maturação: muito vinho do Porto, amêndoas doces, suco de tomate e couro curtido, além de um toque um pouco incômodo de plástico. Na boca, a doçura licorosa predomina, mas há uma acidez bem perceptível e uma sensação salgada-carnuda de umami, típica de boas cervejas envelhecidas. Corpo mediano, terroso, com adstringência sem exagero. O final é um pouco inexpressivo – talvez seu ponto mais fraco. No conjunto, lembrou muito um clássico de guarda do estilo oud bruin: a belga Liefmans Goudenband (que está chegando ao Brasil muito em breve). Esta Wäls Wild Ale EAP consegue atingir o mesmo equilíbrio entre doce, licorosidade, evolução e acidez, mas com mais complexidade aromática. Não é uma sour ale muito agressiva – pelo contrário, a acidez é clara mas é secundária diante do perfil doce e licoroso da dubbel e da guarda. Não deverá assustar quem não está acostumado com a secura da maior parte das sour ales. Ótima receita da Wäls! Apesar das incertezas envolvendo a parceria entre Wäls e AmBev, fica a esperança de que a fusão não interfira na ousadia da micro mineira e a expectativa de que venha mais coisa selvagem bem feita! Uma vez que ela foi lançada apenas em dezembro e eu só consegui prová-la em janeiro, não deu tempo de incluí-la na minha retrospectiva de 2014, mas ela certamente mereceria um lugarzinho lá.

Um balanço – preliminar

O que dizer diante de todos esses lançamentos selvagens de 2014? Em primeiro lugar, parece claro que as cervejarias brasileiras estão começando a se aventurar no universo da selvageria. Mas qual o balanço desses primeiros passos? Como essas sete cervejas se enquadram diante dos três questionamentos com os quais eu comecei esta matéria (aceitação, preço e qualidade)?

No quesito da aceitação do público, as micros brasileiras parecem ir numa direção interessante. Dentre as quatro cervejarias indicadas, pareceu-me que apenas a Way apostou no lançamento de sour ales radicais, de acidez extrema. Em todas as demais, os traços selvagens são relativamente suaves, permitindo que o público se acostume progressivamente com a proposta. No caso das cervejas da Tupiniquim, o caráter de Bretta é quase imperceptível, sobretudo para um leigo, e quase não há acidez. A bem da verdade, as cervejas da Tupiniquim não são sour ales, apenas ales comuns com toques de Brettanomyces. No caso da Abadessa Gose, a acidez lática é sutil, muito equilibrada, dando origem a uma cerveja refrescante e apetitosa que não deverá incomodar o paladar de ninguém minimamente aberto a novas experiências. No caso da Wäls Wild Ale EAP, o perfil se aproxima muito das oud bruin, as mais suaves das cervejas selvagens belgas, com licorosidade o bastante para “disfarçar” a acidez. Ou seja: é um cenário em que, por enquanto, o consumidor relutante tem uma boa gama de opções, digamos, mais “conservadoras”.

No quesito do preço, o ano de 2014 nos autoriza um certo otimismo, mas eu tenho cá para mim que esse cenário vai mudar em 2015 e 2016. Os preços da Tupiniquim e da Abadessa ficaram na média dos demais rótulos das cervejarias. Os da Way ficaram apenas marginalmente acima. Claro que, nos três casos, estamos falando de estilos selvagens de fabricação mais simples, sem o uso de madeira e sem maturação estendida, o que ocasiona preços mais acessíveis. A exceção é a Wäls Wild AleEAP, que teve uma longuíssima maturação de 4 anos na garrafa e que empregou barris de carvalho durante 3 meses. Apesar disso, o preço não foi tão alto assim: R$ 30, o que representa menos de 50% acima da linha belga da cervejaria. Para mim, esse valor é razoável diante de uma cerveja com maturação tão longa e com uso de madeira.

Finalmente, resta o quesito qualidade. Fizemos boas sour ales no ano de 2014? Vejamos caso a caso, inicialmente. As cervejas da Tupiniquim são ótimas representantes de seus estilos de base (American IPA e saison), mas as características selvagens são um tanto tímidas, então elas não contam. A Abadessa Gose é sem dúvida uma cerveja produzida com excelência e com o elevado padrão de qualidade da Abadessa nos estilos alemães, mas seu “perfil selvagem” é bastante conservador, um pouco decepcionante para um “heavy user” de sour ales. A linha Sour me Not da Way é a mais ousada no quesito acidez, mas as cervejas da linha ainda têm algumas arestas importantes a aparar antes de poderem ser consideradas excelentes sour ales com frutas. Por fim, a Wäls obteve, na minha percepção, o melhor equilíbrio entre ousadia e qualidade. Sua Wild Ale EAP tem ousadia o bastante, mas também tem um caráter amigável, semelhante ao estilo oud bruin. Já ouvi a opinião de pessoas que se decepcionaram porque esperavam algo “mais selvagem”. Por outro lado, essa proposta é bem executada, complexa e interessante, talvez com mais destaque para o perfil de evolução do que para o selvagem, propriamente. E vale ainda destacar a surpreendente ousadia da Wäls em apostar na viabilidade de uma fermentação “semiespontânea” – o que, sinceramente, eu achei que demoraríamos muitos anos, quiçá décadas, para ver acontecer no Brasil. Resta saber como ficará toda essa ousadia agora que a Wäls é parte da gigante AB-InBev.

A verdade é que uma sour ale “completona”, ao mesmo tempo excelente e ousada – seca, com caráter exuberante de Brettanomyces, complexa e equilibrada como as melhores belgas – ainda é uma meta a ser atingida pela indústria nacional de cerveja. Mas tenhamos calma. O jogo está só começando e estamos nos primeiros lances da partida.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Amburana em três versões

É fato: as cervejas com maturação em madeira vieram para ficar. Se, há alguns anos, rótulos envelhecidos em barris de carvalho eram raros e difíceis de encontrar, hoje a oferta desse tipo de cerveja cresceu muito no mercado brasileiro. Mais importante que isso: antes eram apenas algumas poucas importadas que tinham estágio em madeira, enquanto hoje as principais microcervejarias brasileiras também têm feito experimentos com barris. Os primeiros resultados desse “surto madeireiro” brazuca já estão nas prateleiras, e não há dúvida de que mais outros chegarão.

O extraordinário barrel room da cervejaria 
Goose Island, em Chicago. Um dia a gente chega lá.
Fonte: www.esquire.com
A maturação em madeira é uma técnica cervejeira muito antiga, já que, antes do surgimento de tanques de maturação feitos em aço, os barris e tonéis de madeira eram o recipiente mais comum para fermentação e maturação das cervejas. A maioria das cervejarias migrou para o aço ao longo do século XIX, de modo que o uso da madeira foi se tornando mais e mais raro. Isso não foi fortuito. A madeira apresenta algumas dificuldades para o cervejeiro: em comparação com o inox, ela é porosa e difícil de higienizar completamente, ocasionando o surgimento de infecções e microorganismos indesejáveis para a maior parte dos estilos cervejeiros. Além disso, a troca de compostos químicos entre a madeira e o líquido ocasiona alterações no sabor, no aroma e na textura da cerveja, gerando diferenças difíceis de serem padronizadas. A idade da madeira, o tamanho dos barris, o tratamento e a tosta empregados, tudo isso causa alterações no produto final, de modo que é possível dizer que cada barril vai dar origem a uma cerveja diferente. A substituição da madeira pelo inox, portanto, fez parte do conjunto de transformações da indústria cervejeira no século XIX, que garantiram maior padronização dos produtos.

Ainda assim, a madeira seguiu sendo usada em alguns estilos tradicionais, como algumas old ales inglesas, bem como as lambics e as Flanders red ales da Bélgica. Mais recentemente, a maturação em madeira foi resgatada pela escola norteamericana, que voltou a empregar barris para maturar uma enorme diversidade de estilos. A princípio, a madeira passou a ser usada para a produção de estilos alcoólicos e robustos, como imperial stouts. Com o tempo, porém, começaram a ser usados em outros estilos, e hoje há até IPAs maturadas em madeira. O guia de estilos da Brewers Association, antenado às principais tendências do mercado cervejeiro, inclui nada menos que 5 categorias especialmente reservadas para cervejas envelhecidas em madeira (sem contar os estilos em que a madeira já era tradicionalmente empregada), atentando para diferenças em coloração, teor alcoólico e acidez da cerveja-base.

Madeira, madeiras

Um dos experimentos mais interessantes feitos pelas microcervejarias é o emprego de diferentes tipos de barris para maturar a mesma cerveja-base. As diferenças no produto final são surpreendentes. O estratagema mais frequentemente empregado pelas cervejarias para variar a madeira é maturar suas cervejas em barris de segundo uso que foram usados antes para maturar outros tipos de bebidas. Assim, pode-se oferecer uma mesma imperial stout maturada em barris de cognac, vinho tinto, vinho do Porto, uísque, Bourbon, e por aí vamos – como faz a belga Struise com sua prestigiada linha Black Damnation. O uso ubíquo de barris de segundo uso levou até ao surgimento de um conceito equivocado de que a bebida anteriormente usada nos barris afetaria o produto final mais do que a madeira em si – assim, cervejas maturadas em barris de uísque são descritas como tendo “sabor de uísque”, por exemplo, o que é uma tremenda simplificação dos efeitos da madeira sobre a cerveja. A Mikkeller foi ainda mais longe para produzir sua série Forêt: maturou a mesma cerveja-base (uma “barley wine” de 19,3% ABV) em barris feitos com carvalho francês de três diferentes origens geográficas, variando o grau de tosta dos barris.

A majestosa amburana, cuja madeira é amplamente 
empregada na indústria da cachaça.
Fonte: biosementes.com.br
Contudo, o que permanece quase sempre constante nas cervejas maturadas em madeira mundo afora é que, com pouquíssimas exceções, os barris empregados são sempre de carvalho – seja francês, seja americano. Isso reflete o fato de que o carvalho é a madeira mais amplamente empregada na produção de bebidas alcoólicas ao redor do mundo, devido à sua durabilidade, impermeabilidade e bom impacto sensorial nas bebidas. Contudo, nesse quesito em particular, o Brasil oferece uma interessante exceção: nossa brasileiríssima cachaça é uma das poucas bebidas que são corriqueiramente maturadas em barris e tonéis de diferentes tipos de madeira. Há cachaças envelhecidas em barris de carvalho, ipê, amendoim, amburana, bálsamo, jequitibá, e por aí vamos. E cada tipo de madeira interage de formas muito diferentes com a bebida dentro dos barris, gerando resultados completamente distintos.

Parece-me evidente que, se a indústria cervejeira brasileira busca um diferencial na produção de estilos maturados em madeira, deve se valer da experiência das cachaçarias brasileiras com o uso de diferentes tipos de madeira. Por enquanto, o carvalho ainda predomina nas salas de maturação das microcervejarias nacionais, mas há experimentos com outras madeiras que podem abrir todo um imenso horizonte de variações de cores, sabores, texturas e aromas. Em especial, algumas cervejarias têm investido no emprego de uma madeira tipicamente sul-americana chamada amburana (conhecida ainda como umburana, imburana-de-cheiro ou cumaru), extraída de uma árvore (a Amburana cearensis) que, infelizmente, encontra-se ameaçada de extinção.

A amburana é uma velha conhecida dos apreciadores de cachaça – e, devo dizer, uma das minhas madeiras preferidas para maturação de uma boa “amarelinha”. Uma das minhas cachaças preferidas, a mineira Claudionor, da cidade de Januária, é maturada em amburana por 1 ano antes de ser engarrafada. A amburana tem um aroma marcante, adocicado e sedutor, que me lembra muito cocada preta, baunilha, móveis da fazenda (a amburana também é usada na fabricação de mobiliário, em parte devido ao seu odor agradável) e um toque de especiarias doces, como a canela.

Três cervejas maturadas em amburana

Fonte:
www.ocontadordecervejas.com.br
Temos hoje, no mercado cervejeiro, três rótulos com maturação em barris de amburana, todos com perfis muito diferentes. O pioneiro foi lançado em 2011 e faz parte de uma série especial, de inspiração norteamericana, produzida pela cervejaria Bäcker, intitulada 3 Lobos. A 3 Lobos Bravo é uma imperial porter que matura em barris de umburana, com receita do mestre Paulo Schiaveto. É provavelmente a cerveja com estágio em barris mais barata do mercado artesanal, com um excelente custo-benefício, podendo ser encontrada a partir de R$ 12 pela long neck. A mais escura das três, apresenta uma coloração marrom bem escura, quase preta. Seu aroma exala indulgência e doçura em doses cavalares: muito chocolate ao leite, açúcar mascavo e caramelo dos maltes interagindo com toques acentuados da umburana, remetendo a cocada preta, madeira doce e mobiliário colonial. Impossível não lembrar de cachaça! Toques frutados (banana e ameixas) ficam em segundo plano. Na boca, uma avalanche de doçura do começo ao fim, com amargor secundário mas correto (os respeitáveis 42 IBUs só equilibram a doçura do malte) e final longo, persistente, com retrogosto de coco, chocolate e madeira. O corpo é intenso e a textura é bem licorosa, açucarada. Os 9% de álcool são perceptíveis, mas não chegam a incomodar decisivamente. Os primeiros lotes dessa cerveja ficaram prejudicados por um toque muito intenso de acetaldeído (que tem aroma químico e acentua desagradavelmente o álcool), o que fez com que a cerveja deixasse uma má impressão nos degustadores, mas tenho a impressão de que a receita foi mais bem ajustada depois, o que elevou a qualidade da cerveja significativamente. A 3 Lobos Bravo tem boas condições para envelhecimento, de modo que é uma ótima opção para encher a adega!

Fonte: acervo pessoal
A segunda cerveja maturada em umburana a ser lançada no mercado brasileiro foi a Way Amburana Lager. É uma das poucas opções de lagers envelhecidas em madeira, sendo que a receita-base se inspira levemente no estilo doppelbock, mas é um pouco mais seca e delicada. Na verdade, a receita foi toda pensada para interagir com a madeira, e a cervejaria também desenvolveu uma tosta específica dos barris para alcançar o resultado almejado. A Way Amburana Lager tem uma proposta bem diferente da 3 Lobos: trata-se de uma cerveja mais leve, com alta drinkability considerando seu teor alcoólico, de sabor e sensação amena e agradável na boca, mas sem abdicar de um toque decididamente amadeirado no sabor. Sua coloração lembra o mogno, com um bonito marrom-avermelhado e uma ótima espuma clara, muito persistente, deixando rendas na lateral do copo. O aroma é o menos expressivo das três cervejas analisadas aqui, predominando no nariz um perfume floral um pouco chapado dos lúpulos e um toque do malte caramelado, lembrando ainda melaço de cana. O que lhe falta de profundidade no nariz, porém, é compensado pela profusão de sabores na boca: o caramelo e o melaço do malte interagem lindamente com a madeira criando a impressão de toffee e até um toque de cappuccino. A amburana está lá com sabores de cocada preta, móveis coloniais, baunilha doce e um toquezinho sutil de defumação. Além disso, sentem-se frutas escuras e vermelhas, com destaque para cerejas e um agradável sabor de Amaretto que persiste na boca. Predomina a doçura do malte, mas o amargor secundário se faz perceber de forma firme e equilibrada no final. O corpo é leve para mediano, sutil para o estilo, com carbonatação suave e textura macia e agradavelmente acetinada. Os 8.4% ABV estão diabolicamente ocultados, tornando-a perigosamente fácil de beber. Falta-lhe a intensidade avassaladora que aprendemos a esperar de cervejas maturadas em madeira, mas ela compensa mostrando-se fácil de beber e agradável. Uma cerveja mais suave que a média do estilo, mas com um sabor agradavelmente amadeirado.

Fonte: tripstapix.com
A mais recente cerveja com maturação em amburana que chegou ao mercado faz parte da recente e já muito prestigiada linha Wood-Aged Series, da microcervejaria curitibana Bodebrown. A proposta da linha é apresentar diferentes cervejas com perfil adequado para longos períodos de guarda, todas maturadas em diferentes tipos de madeira. Depois da estreia da série com uma excelente strong ale maturada em carvalho, o segundo rótulo foi a Bodebrown Wee Heavy Wood Aged Series 2014. Trata-se de uma versão da premiada strong Scotch ale da cervejaria, maturada durante 6 meses em dornas de amburana de 750 litros, anteriormente utilizadas para a produção de cachaça pela cachaçaria gaúcha Weber Haus. Cerveja séria, seríssima. De coloração marrom-avermelhada, mostrou pouca espuma, o que é comum em cervejas maturadas em madeira. Seu aroma é, de longe, o mais complexo das três cervejas analisadas: uma tonelada de toffee, doce de leite e cocada-preta interagem em primeiro plano. A umburana imprime notas de baunilha, especiarias doces (canela e cravo) e uma sensação mineral, lembrando cal e gerânios, que se encontra em algumas cervejas maturadas em madeira, e que não é totalmente agradável – provavelmente seu maior defeito. Bananas passas e tâmaras secas dão-lhe um interessante toque frutado. Um quê de defumação, lembrando copa e embutidos defumados, reflete a pequena porcentagem de maltes defumados da receita-base e interage bem com a doçura do conjunto, sem ofuscá-la. Há uma certa untuosidade de DMS ao fundo, que não chega a comprometer a cerveja decisivamente. Na boca, mais uma vez a doçura é intensa e predominante, com amargor suficiente apenas para equilibrá-la, sem roubar a cena, e o retrogosto é muito persistente, macio e vívido. O corpo é intenso e licoroso sem exageros – em algum lugar entre a leveza da Way e o peso da 3 Lobos. Para mim, é a mais interessante e complexa das três cervejas avaliadas, ainda que tenha apresentado algumas arestas a aparar no aroma. A cerveja foi vendida apenas no site da cervejaria, em sistema de pré-venda – portanto, quando sair a safra 2015, não bobeie e garanta as suas garrafas!

Se compararmos as três cervejas pelas suas principais características, chegaremos ao seguinte resultado:


A 3 Lobos Bravo se destaca pela torrefação doce e pela intensidade. A Way Amburana Lager, por sua vez, mostra um perfil mais suave e elegante, fácil de beber. A Bodebrown Wee Heavy Wood Aged Series 2014 se localiza numa espécie de intermediário entre as duas anteriores, mas ganha proeminência especialmente pela complexidade aromática. Três excelentes cervejas maturadas em madeira, cada uma com suas características. Mais importantes que as diferenças, porém, é a marcante semelhança entre três cervejas de propostas e estilos-base tão distintos entre si. Essa unidade prontamente perceptível entre as três, que as diferencia de quaisquer outras wood-aged beers que eu já provei, vem evidentemente do perfume doce e inebriante da amburana. Prova de que o uso criativo da nossa biodiversidade na produção cervejeira não precisa se restringir à profusão, já um tanto banal, de frutos tropicais em cervejas brasileiras. Se buscarmos nossa inspiração na secular indústria colonial da cachaça e na sua diversidade de madeiras, encontraremos um sólido manancial para experimentação de técnicas produtivas que pode conferir às microcervejarias brasileiras um diferencial decisivo na produção de cervejas maturadas em madeira.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Destaques de 2014

Leitores queridos, estamos de volta! O Cru e o Maltado passou por um interregno de 4 meses durante os quais não postei nada por aqui. Peço desculpas aos meus (dois ou três) leitores fiéis, mas precisei ficar um pouco longe das telas para conseguir redigir minha tese de doutorado. Mas agora que voltamos à ativa, pensei em fechar 2014 com os destaques do ano, do ponto de vista deste bêbado humilde apreciador de cervejas.

Não vou mentir: 2014 foi um ano em que me distanciei um pouco do universo cervejeiro. E não estou sozinho: tenho notado que vários dos meus colegas de hobby da mesma geração – ou seja, que começaram a beber e estudar cerveja antes de 2010, quando o mercado era radicalmente diferente do que é hoje – estão passando por algo semelhante. Ou eles se profissionalizaram e entraram para valer no mercado (enquanto a bolha não estoura), ou então estão tendendo a viver um certo refluxo. Veja só: quando comecei, havia um discurso de que a demanda por cervejas especiais ainda era pequena no Brasil, e que isso explicava por que tudo era tão caro e difícil de encontrar. Com os anos – dizia-se –, os brasileiros iriam “entender” o que era uma boa cerveja, o mercado cresceria, haveria oportunidades para os empresários e nós finalmente teríamos um montão de marcas de cervejas excelentes no supermercado para beber com a família, os amigos, no churras, tudo a preço de Eisenbahn ou mais barato.

Preciso dizer que nada disso aconteceu? Claro que ainda tem gente tonta por aí falando que, em poucos anos, nosso mercado será como o dos EUA ou o belga. E tem outros que ficam culpando Deus e o mundo (leia-se: o PT) por isso ainda não estar acontecendo no Brasil. Mas uma hora precisa cair a ficha de que o mercado de cervejas especiais no Brasil se configurou e cresceu como um mercado de produtos de luxo, não muito diferente de outros mercados parecidos: o de cosméticos, o da moda, o de vinhos, o gastronômico etc. Produtos supérfluos pelos quais as classes A e B se dispõem a pagar muito caro para se diferenciarem da classe C. Não daria para esperar nada muito diferente do que acabou acontecendo. O melhor que pode acontecer ao mercado de cerveja no Brasil, nos próximos anos, é que ele fique igual ao de vinhos (igualmente elitista, mas pelo menos um pouquinho mais profissional e adulto). O resto é balela.

Isso para dizer que, de todas as novidades que vimos no mercado em 2014, muito poucas realmente me animaram. 95% do que circulou pela blogosfera, pelas redes sociais e pelo Untappd parece requentado do que vi e bebi em outros anos. E convenhamos que cerveja requentada é especialmente decepcionante. Mas ainda dá para destacar um ou outro lançamento interessante que valeu a pena, seja pela qualidade intrínseca, seja pela novidade, seja pelo custo-benefício.

Acho difícil negar que as cervejas selvagens foram um dos destaques do ano de 2014 no Brasil. Começando com a volta das Cantillon ao mercado nacional no final de 2013, tivemos uma chegada de bons rótulos importados ao longo de 2014 e uma sinalização das cervejarias nacionais de que começarão a produzir cervejas ácidas e/ou fermentadas com leveduras “selvagens”. Infelizmente, os preços estão lá no alto. Cervejas selvagens são estilos de produção complexa e demorada, o que aumenta o preço final naturalmente. Isso, somado à sua exclusividade e à sua raridade no Brasil, elevou a etiqueta de preços às alturas. Como resultado, os rótulos que ainda mais valem a pena no nosso mercado são velhas conhecidas do apreciador: as Flanders red ales belgas e as lambics importadas pela Bier&Wein (como a Boon Oude Geuze Mariage Parfait ou a Lindemans Kriek Cuvée René), que não devem nada às marcas mais conceituadas e caras e que custam às vezes menos da metade. Mas pelo menos temos algumas novidades para quem, como eu, é fã do “lado negro da Força”.

Fonte: blog.seniorennet.be
Uma dessas novidades anunciadas em 2014 (mas que, sinceramente, eu ainda nem vi nas prateleiras) é a chegada de um extraordinário rótulo da belga Rodenbach. A cervejaria é conhecida por fazer as mais famosas Flanders red ales do mundo, feitas a partir de um blend entre uma cerveja ácida e madura, envelhecida longamente em tonéis de carvalho, e uma cerveja jovem e fresca. Quanto maior a proporção da cerveja madura, mais sofisticado (e caro) é o produto final. Até este ano, tínhamos no Brasil a versão comum (com um quarto de cerveja madura) e a Grand Cru (com dois terços de cerveja madura). A Rodenbach Vintage, cuja safra 2012 aportou aqui este ano, é composta apenas pela cerveja madura e envelhecida, sem blendar com a cerveja fresca. Para os apreciadores do estilo, é o santo graal. Os toques animais, os traços de evolução e guarda, o perfil do malte, as especiarias, as frutas passas, tudo está lá um torvelinho de complexidade aromática. Estábulo, madeira, terra úmida, pimenta-do-Reino, bloody Mary, caramelo, ameixas e figos são apenas algumas das muitas sensações que você vai encontrar no nariz. Na boca, uma leve doçura inicial, uma acidez firme mas bem domada pelo envelhecimento e um final equilibrado, impecável, com taninos perceptíveis mas gentis acariciando as bochechas. O corpo é leve sem ser ralo, com textura levemente terrosa. Um espetáculo de cerveja, uma das melhores que este degustador já teve a honra de provar. Infelizmente, ainda não vi em nenhuma loja e não sei dizer quanto está custando, mas não há de ser barata, visto que a meia-garrafa fica em torno de 5 euros na fonte. Vale ressaltar que eu provei a safra 2011, sendo que a que chegou ao Brasil foi a 2012.

Fonte: www.flickr.com
Para os amantes dos estilos sevagens, outra notícia de 2014 a se comemorar foi a chegada da linha de lambics da Oud Beersel. Trata-se de um blender autônomo, o que significa que a cervejaria não produz seu próprio mosto, mas sim compra o mosto feito por outros produtores (no caso, a Boon) e faz o trabalho de maturação, blendagem e engarrafamento dos produtos, dando-lhes a sua identidade sensorial. A Oud Beersel Oude Geuze Vieille é um dos rótulos trazidos ao Brasil este ano. Ainda não sei quanto ele está custando no nosso mercado, mas já adianto que, se chegar ao consumidor a menos de R$ 40-45 (já que custa menos de 4 euros lá fora), é uma boa opção de compra. Seu diferencial é que ela é brassada com lúpulos que foram envelhecidos por apenas 1 ou 2 anos, em vez dos 3 anos habituais. Como resultado, a lambic resultante guarda um pouco do frescor aromático e do amargor afiado dos lúpulos. No aroma, flores (gerânios), limão, ervas finas e apimentado acusam a presença do lúpulo e convivem com um perfil frutado que se desenvolve em camadas (melão, tutti-frutti, maracujá). O aroma animal é menos intenso do que eu outras lambics, e há toques caprílicos e abaunilhados para fechar sua complexidade. Na boca, a acidez inicial é gentil e dá lugar a um amargor limpo e refrescante, sem taninos, o que a torna uma ótima opção de entrada para quem não está acostumado com a estrutura das lambics mais ácidas e tânicas. O corpo é leve, seco, sem muita adstringência. Prova de que o lúpulo é gracioso e encantador quando usado com sabedoria. Deverá agradar quem está começando no mundo das lambics. A cervejaria ainda tem uma linha limitadíssima de lambics refermentadas pelo método tradicional de produção de espumantes (o famigerado “champenoise”), denominadas Bzart Lambiek. São lambics encantadoras e muito elegantes, mas seu preço é um pouco proibitivo para quem não mora na União Europeia, já que, por lá, seu valor ultrapassa os 25 euros. Nem cogito o quanto estarão custando no Brasil.

Fonte: www.ocontadordecervejas.com.br
No Brasil, o destaque selvagem do ano, para mim, foi o primeiro rótulo comercial produzido por estas bandas usando leveduras do gênero Brettanomyces: a Tupiniquim/Evil Twin Lost in Translation IPA Brett. A receita se beneficiou do know-how da cervejaria cigana dinamarquesa Evil Twin, conhecida por sua aclamada linha de IPAs inteiramente fermentadas com Brettanomyces, denominadas Femme Fatale. E, o que é ainda mais importante: pelo menos no primeiro lote, mostrou-se uma IPA nacional bem feita, o que é raro no nosso mercado. A fermentação com Brettanomyces ainda é assunto envolto em mistério, então vale a pena fazer alguns esclarecimentos. O primeiro deles é que as Brettanomyces não produzem a acidez que se encontra nas lambics. OK, elas produzem só um tiquinho de nada de ácido acético, mas nada que vá realmente dar uma pegada “sour” para a cerveja. Além disso, os aromas tipicamente associados às Bretta (os aromas ditos “animais”, lembrando estábulo) só são produzidos em grandes quantidades durante a fase de superatenuação de açúcares, que demora vários meses para começar. Quando as Brettanomyces são usadas para a fermentação primária, elas se comportam de forma semelhante às leveduras comuns, do gênero Saccharomyces. O que isso quer dizer? Que uma cerveja fermentada com Brettanomyces e não envelhecida, como esta Lost in Translation, não vai ter aquele perfil super intenso de lambic que é tipicamente associado a Bretta. O que ela vai ter é um toquezinho levemente rústico e “exótico”, um frescor diferente, talvez algo animal ao fundo. Coisa sutil, mas perceptível para quem sabe o que está procurando. No caso desta Lost in Translation, o perfume floral, herbal e frutado dos lúpulos predomina, remetendo a verbena, rosas, limão, mamão e manga assada ao forno. As Bretta agregam um frescor frutado lembrando uvas verdes, um toque animal de couro de sapateiro e, acima de tudo, um exótico perfume defumado que lembra borracha queimada. Rusticidade e frescor andando de mãos dadas. Há uma acidez inicial muito sutil, mas o predomínio evidente é do amargor limpo e refrescante, que perdura com sensação de secura na garganta. Corpo leve, mas aveludado. Ótimo conjunto: uma cerveja para apreciar com calma. Pena que toda a linha da Tupiniquim tenha chegado ao mercado paulistano a preços tão inflacionados. Até agora, dentre todas as que tomei, esta foi a única que me fez achar que valeu o tanto que eu paguei.

Seguindo a tendência do ano passado, 2014 também foi um bom ano para os amantes de IPAs americanas. Eu tenho de ser sincero e dizer que já estou de saco cheio das IPAs que se produzem no Brasil. As cervejarias brasileiras fazem IPAs com pouco frescor aromático e com amargor rascante e agressivo. Já cansei de explicar que o amargor de uma boa IPA pode ser intenso o quanto for, mas precisa ser limpo e refrescante (como acontece nos melhores rótulos estadunidenses). Amargor intenso não significa que a cerveja precisa descer como se fosse um gato agarrando as unhas na sua garganta. Mas parece que só eu me incomodo com isso (afinal de contas, quem é “macho” não tem medo de cerveja amarga e nem de lutar sem camisa com ursos selvagens), então tomei a resolução de simplesmente dizer que não gosto de IPAs. Pronto, assim não preciso ficar explicando.

Fonte: gastrolandia.uol.com.br
Três IPAs brasileiras (além da já citada Lost in Translation) me chamaram a atenção neste ano. Vamos por ordem crescente de teor alcoólico. A primeira delas, sobre a qual já falei aqui neste blog, é a Wäls, Session! Citra IPA, que, ao meu ver, condensou e fechou com chave de ouro os esforços da Wäls em produzir estilos americanos com a competência que eles exibem nos estilos belgas. Trata-se de uma IPA leve, de proposta “session” (para ser bebida em grande quantidade) e virtuosamente bem executada. O perfume do lúpulo Citra é vívido e marcante, com muito herbal fresco (cidreira, capim recém-cortado e pinheiro), algo floral de lavanda e um frutado-cítrico trazendo lichia, limão, maracujá e um toque petroláceo muito interessante. Lembra bastante o perfil de alguns vinhos brancos aromáticos, especialmente aqueles feitos com as castas Gewürtztraminer e Riesling. Na boca foi onde a Wäls conseguiu imprimir um diferencial “session” a esta IPA: ela abre com uma acidez atrevida e refrescante, mostra o amargor típico do estilo e termina num final muito limpo, neutro, de baixa mineralização, em que o amargor persiste mais na boca do que na garganta, implorando goles largos e profusos. Corpo muito leve e aguado, num bom sentido. Alia o frescor de uma IPA com a sensação de refrescância de uma Bohemian pilsner. Bela receita dos irmãos Carneiro!

Fonte: www.krugerbier.com.br
A segunda IPA que chamou a minha atenção em 2014 foi a Therezópolis Jade. Quem mais, no mercado brasileiro, oferece uma IPA americana de boa explosão aromática, amargor intenso e que custa na faixa dos R$ 10 pela garrafa de 600ml? No RJ é ainda mais barata, diga-se de passagem. Seu aroma lupulado é bem frutado e convidativamente tropical, com muita mousse de maracujá, goiabada e doce de abóbora, além de capim cidreira, lavanda e mel. Tudo com um envolvente toque amanteigado. Com o tempo, vai aparecendo uma nota de capim seco desagradável, mas ela nunca chega a perder completamente o frescor lupulado (ao contrário de várias das suas concorrentes). Na boca, entra com boa doçura, traz um final bem amargo e deixa na boca um residual em que amargor e doçura se equilibram. Ela é mais uma daquelas IPAs tipicamente brasileiras, em que a doçura do malte é usada para tornar a cerveja mais festiva e indulgente – o que não tem nada de errado, diga-se de passagem. O amargor não é inteiramente limpo, mas a doçura dá conta de equilibrar e disfarçar suficientemente bem o caráter rascante do lúpulo. O corpo é mediano e a textura é acetinada, dando sensação de saciedade e gulodice. A verdade é que ela dá uma surra em muita IPA artesanal brasileira e custa menos da metade. Virou habitué na minha geladeira.

Fonte: brejada.com
Mas às vezes a gente está disposto a gastar mais por uma cerveja incrível e redondinha. E 2014 trouxe uma IPA assim: a lendária Serra de Três Pontas Cafuza Imperial India Black Ale, que finalmente saiu das panelas e ganhou versão comercial produzida nas instalações da cervejaria Invicta. Confesso que não entendi direito a história da associação entre a Serra de Três Pontas, a Prima Satt e a Noturna: as três mantêm os nomes separados como três “brands”, mas se associaram para lançar os produtos como uma espécie de “holding” cigano. Aparentemente, esta é da Serra de Três Pontas. Uma black IPA robusta, em escala imperial com seus respeitáveis 8.5% ABV, de execução impecável. O perfil lupulado é fresco, vívido e muito complexo, trazendo uma tonelada de erva cidreira, manga madura, casca de goiaba, uva verde, grapefruit, hortelã e lavanda doce. Dá tanta vontade de ficar cheirando que você quase se esquece de levá-la à boca. Quase. Na boca, são os sabores do malte torrado que ganham a frente: café expresso, cinzas e chocolate amargo lhe dão um perfil torrado bem definido. Ótimo equilíbrio entre lúpulo e torrefação, sem que um ofusque o outro (o que eu acho que é o ideal para uma black IPA). O corpo é robusto, pesadão, cremoso e aveludado, muito mais encorpada do que o padrão para o estilo, quase na fronteira com uma imperial stout mais lupulada. O longo retrogosto traz um amargor limpo, mineral e oleoso, com doçura na medida precisa para equilibrar sem enjoar. A R$ 20 pela garrafinha caçulinha, o preço não é o mais convidativo, mas, levando em conta que tem um monte de artesanal xexelenta custando R$ 15 pela caçulinha, a Cafuza é um negócio muito mais vantajoso.

Fonte: www.ocontadordecervejas.com.br
Deixei para o final a cereja do bolo (e não é daquelas feitas de chuchu!). Em 2014, uma cervejaria realmente se destacou por apresentar um produto de proposta séria e ousada, com um padrão de qualidade até então inexistente no mercado nacional, e que realmente estabeleceu um novo patamar para seus concorrentes. Falo da paranaense Bodebrown e da sua fantástica linha Wood-Aged Series. A ideia da linha é apresentar cervejas com perfil de guarda, envelhecidas em barris de madeira, e com potencial para pelo menos 10 anos de envelhecimento em adega. O primeiro rótulo da linha chegou ao mercado este ano com o prolixo título de Bodebrown Double Perigosa Wood-Aged Series2014 Cabernet Sauvignon. Trata-se de uma cerveja de teor alcoólico extremo (15.1% ABV), para o qual foi necessária uma longa fermentação de 4 meses (a maioria das cervejas fermenta em menos de uma semana). Seguiu-se a isso uma maturação de mais 9 meses em barris anteriormente usados para a produção de vinhos gaúchos com a uva Cabernet Sauvignon. Cerveja feita com seriedade, sem subestimar o consumidor. Esta não é uma wood-aged ordinária que maturou durante 30 dias em chips de carvalho e é vendida como se fosse a última bolacha do pacote. É maturação em madeira encarada com seriedade. O resultado é evidente. A madeira é suculenta e bem-integrada ao perfil de maltes, resultando em uma explosão de marrom-glacê, castanhas portuguesas, baunilha, cedro e coco. Muitas frutas doces, com destaque para frutas vermelhas (framboesa), provavelmente acentuada pelos resíduos do vinho no barril, tâmaras e ameixas. Pimenta-do-Reino para quebrar tanta doçura. E um encantador perfil de evolução que ainda vai se aprofundar: couro curtido, molho de tomate e vinho do Porto. É isso o que acontece quando se leva a maturação em madeira a sério. Na boca, é uma explosão indulgente e envolvente de doçura, com um amargor mediano ao fundo e um agradável aquecimento alcoólico que lhe dá ares de licor ou digestivo. Corpo intenso, cremoso, como de licor mesmo. Vai melhorar muito com a guarda, mas já está pronta para beber. Uma cerveja de outro patamar. Definitivamente, a Bodebrown saiu na frente na corrida para produzir cervejas envelhecidas em madeira de altíssima qualidade no Brasil. A partir de agora, as cervejarias brasileiras vão ter trabalho para se destacar com seus rótulos envelhecidos em madeira. E o preço (R$ 30 pela caçulinha) é menor do que o de outras concorrentes produzidas com muito menos competência e empenho. A venda foi feita apenas pelo site, em sistema en primeur (pré-venda) e esgotou antes mesmo de a cerveja ficar pronta. Quer uma dica? Quando a safra 2015 for anunciada, não perca a oportunidade de reservar três garrafinhas, beber uma e deixar as outras duas envelhecendo na adega.

Enfim, é isso! Sete dicas para todos os gostos e bolsos resumindo o que há de melhor dos lançamentos do ano que passaram pelo meu copo. Felizmente, o mercado cresceu o suficiente para atingir um determinado tamanho em que é impossível para quem não é um profissional do setor conseguir provar todos os lançamentos. Isso significa que tem um montão de coisas que foram lançadas em 2014 e que eu não provei, então esta lista reflete as escolhas que fiz como consumidor. Mas acho que já oferecem um itinerário para conhecer um pouco do que chegou ao consumidor brasileiro de cervejas neste ano que se encerra!


Boas festas e um feliz 2015!