Mostrando postagens com marcador Westvleteren 12. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Westvleteren 12. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Pegando pó: Westvleteren 12, dez anos depois

Conheci Luzia Pinta há 10 anos. Ela tem sido minha companhia fiel ao longo de toda a trajetória que venho trilhando desde então. Agora, com algum peso no coração, é chegada a hora de eu lhe dar adeus – ou, pelo menos, uma despedida digna e um até logo. Obviamente, sua despedida pede uma grande cerveja. Esta postagem é um brinde à força de caráter de Luzia e a tudo que ela me ensinou ao longo da última década.

Um brinde a Luzia

Não, Luzia Pinta não é minha esposa. Ela nasceu por volta do ano de 1695, na cidade de Luanda, que então era uma pequena colônia portuguesa em Angola. Nasceu como escrava e foi vendida muito jovem – provavelmente em torno dos 12 anos de idade – para um comerciante que a trouxe até o Brasil no porão de um navio negreiro. Trabalhou na Bahia e em Minas Gerais, onde conquistou sua liberdade. Muitos anos depois, acusada pela Inquisição de ser feiticeira (numa época em que isso era crime passível de punição judicial), foi presa e julgada em Lisboa entre 1742 e 1744. Cumpriu sua pena no sul de Portugal por 4 anos. A data de sua morte se perdeu no tempo. Terá voltado à África, sua terra natal, depois de cumprir os 4 anos de sua pena? Ou talvez a Minas Gerais, onde viveu a maior parte da vida e onde construiu suas relações sociais mais significativas? Ou terá passado seus últimos dias em Portugal mesmo, em terra de estranhos, hostilizada por tudo e todos? Provavelmente nunca saberemos.

Na década de 1630, o pintor holandês Zacharias Wagener 
representou uma dança que observara em Pernambuco, 
que provavelmente fazia parte de uma cerimônia de calundu.
Fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia/242693-11
Luzia Pinta era uma sacerdotisa. Ou uma curandeira e adivinha. Chame como quiser. Na verdade, a palavra usada no século XVIII para se referir a pessoas como ela era “calunduzeira”. “Calundus” eram comuns na época do Brasil colonial, mas hoje já não existem mais em terras tupiniquins. Em Angola ainda são praticados até hoje. Eram cerimônias religiosas com dança e música de atabaques, durante as quais o corpo de Luzia Pinta era possuído pelos espíritos de seus ancestrais angolanos para que ela adivinhasse coisas ocultas e curasse os enfermos que a procuravam. A maior parte dos frequentadores de seus calundus era composta por escravos ou ex-escravos alforriados, mas Luzia também tratava de brancos ricos que, desencantados com os remédios da Igreja e da medicina, buscavam a espiritualidade africana para aliviar suas aflições.

Os calundus eram comuns no Brasil na época colonial. Em uma cidade como Ouro Preto, cuja população contava cerca de 50 mil habitantes na metade do século XVIII, talvez houvesse em torno de sete casas de calundus, segundo minhas estimativas. Mas os registros sobre essas cerimônias são menos comuns. Luzia Pinta deu o azar de ser processada pela Inquisição, ao contrário de dezenas de outros calunduzeiros como ela, e por isso temos acesso a uma descrição pormenorizada de suas cerimônias. Seu processo inquisitorial talvez seja o documento que nos traga mais informações sobre essa religião afro-brasileira que foi praticamente esquecida, apesar de ter sido a mais importante do Brasil durante quase dois séculos. Por isso mesmo, Luzia Pinta tem sido a personagem central de minha pesquisa como historiador nos últimos dez anos.

Dez anos de pesquisa, dez anos de guarda

Deparei-me com o processo inquisitorial de Luzia Pinta em 2005, quando ainda fazia pesquisa de Iniciação Científica durante minha graduação em História. Dez anos depois, em abril de 2015, finalmente ficou pronta minha tese de doutorado, resultado dessa longa pesquisa e dessa longa convivência com os vestígios de Luzia Pinta. A ocasião pedia um brinde especial, em homenagem a essa mulher extraordinária. Se eu passara 10 anos na inspiradora companhia de Luzia Pinta (ou você acha que teses de doutorado ficam prontas assim, num instante?), era justo que o final desse caminho fosse celebrado com uma cerveja que descansara durante os mesmos 10 anos na garrafa. Alguma cerveja que houvesse sido envasada lá atrás, na época em que conheci Luzia. Plano ambicioso, claro.

Ainda me lembro do choque que tomei ao beber pela 
primeira vez a potente Baden Baden Red Ale, numa época 
em que ninguém falava em cervejas artesanais.
Fonte: bierplatz.wordpress.com
O problema é que, em 2005, quando fui apresentado a Luzia, eu não bebia cervejas especiais. Quem viveu aquela época há de se lembrar: não se falava em cerveja artesanal no Brasil. Na maior parte dos bares cervejeiros em que você ia, o máximo que podia encontrar era uma Guinness ou uma Bohemia Confraria, de vez em quando. E que você se desse por satisfeito com isso. No supermercado, aqui ou ali aparecia uma fugidia garrafa de Baden Baden. E era isso. Se eu mal sabia que havia todo um vasto mundo para além da “loira gelada”, você já deve imaginar que eu não podia nem conceber a ideia de envelhecer uma cerveja por 10 anos. Isso para dizer que não havia, na minha adega, nenhuma garrafinha pegando pó desde a época do meu fatídico encontro com Luzia, em 2005.

Porém, por um lance de sorte, há uns 3 anos mais ou menos, o amigo Fabiana Pereira estava louco atrás de uma garrafa remanescente da lendária Biertruppe Vintage nº 1, e calhava de eu ter algumas ainda guardadas na adega desde a época do lançamento (em 2010). Em troca de uma garrafa da Biertruppe, ele me ofereceu uma Westvleteren 12. Pareceria uma troca um tanto desvantajosa para mim: OK, a Westy 12 é uma lenda, mas, ao contrário da Biertruppe, ainda está em produção e pode ser adquirida sem tanto esforço. Seria desvantajoso escambo, não fosse por um detalhe: o Fabiano, sabendo do meu fraco por cervejas de guarda, me ofereceu uma Westvleteren 12 envasada em 2005. Arrematei!

Em 2015, quando entreguei minha tese de doutorado e pus o ponto final em minha relação de 10 anos com Luzia Pinta, a garrafinha da Westy 12 também fazia 10 aninhos. Era a ocasião perfeita para abrir a garrafa. Os 10 anos de guarda haviam formado uma camada de sedimentos de quase um dedo de espessura! Eu não via a hora de saber como tinha ficado a cerveja lá dentro depois de tanto tempo!

A degustação

Para entender o que 10 anos fizeram à minha Westy, convém primeiro falarmos sobre as características que essa cerveja tem ao sair da fábrica, fresquinha. A Trappist Westvleteren 12 é a mais famosa das cervejas produzidas pela abadia trapista de São Sisto, na Bélgica. Existe toda uma aura em torno dessa cerveja (devido ao fato de ela já ter sido eleita algumas vezes como a melhor cerveja do mundo), e às vezes é difícil obter uma descrição minimamente objetiva, que não tenha sido contaminada pelo fetiche.

Já falei sobre ela aqui no blog antes (em uma comparação direta com a St. Bernardus Abt 12, sobre a qual reza a lenda – equivocada – de que teria a mesma receita da Westvleteren 12), mas retomo resumidamente as notas de degustação para quem não se lembra. A Trappist Westvleteren 12 é uma Belgian dark strong ale de portentoso teor alcoólico de 10,2%, com coloração mogno avermelhada e belo creme formando rendas. O aroma é complexo e maduro: o caramelado dos maltes e adjuntos da receita é complementado por uma avalanche de frutas maduras (maçãs vermelhas, uvas passas, mamão papaya, vinho tinto), especiarias doces (pimenta-do-Reino, cravo, alcaçuz, sementes de coentro discretas) e toques de mel aromático. Ela entra adocicada na boca, mas logo surpreende com um amargor assertivo que se prolonga em um final longo, austero, picante, amargo e seco, com sabor herbal de lúpulo. Ela é consideravelmente mais amarga que a maior parte das cervejas belgas do estilo, embora não seja aquele amargor ostensivo a que nos acostumamos com as cervejas norte-americanas. O corpo é mediano, mais seco do que o habitual para o estilo, mas licoroso e com um aquecimento picante bem-vindo. Complexa, picante, rústica, cheia de especiarias e frutas maduras. Um clássico, merecidamente. (Clique aqui para ver a avaliação completa)

A Westvleteren 12 é uma cerveja especialmente apta para guarda, se a compararmos com as demais Belgian dark strong ales: o teor alcoólico é bastante alto e o amargor de lúpulo é assertivo para o estilo (38 IBUs, contra uma média de 20 a 35), dando-lhe maior durabilidade na garrafa. Vão lá minhas anotações de degustação do exemplar com 10 anos de guarda:

Garrafa da edição especial vendida em 
supermercados (a que eu tomei era bem 
mais antiga que esta!).
Fonte: toquegirls.com

Estilo: Belgian dark strong ale (envelhecida)
Teor alcoólico original: 10.2%
Aparência: a coloração é acastanhada-atijolada, mais para o laranja do que na versão fresca. Transparente, mas com uma borra volumosa no fundo da garrafa, que eu tomei cuidado para não servir junto com o primeiro copo. O creme foi pouco volumoso, mas surpreendentemente persistente para sua idade.
Aromas: ao servir, destacou-se aquele cheiro doce de oxidação, lembrando plástico, e eu me lembro de ter pensado: “lascou, perdi a cerveja!”. Depois de uns 10 minutos na taça, porém, ela arejou e se abriu em um torvelinho de complexidade aromática, perceptível sobretudo na boca. O malte se aprofundou, saiu da mesmice do caramelo e ganhou tons torrados e macios: toffee, avelã, queimado, pão torrado e até chocolate ao leite. Maçãs vermelhas, mamão e uvas passam continuavam lá, mas com uma pegada mais de frutas cristalizadas, como num panetone. Especiarias doces ficaram ainda mais evidentes com o tempo, trazendo apimentado e alcaçuz. E um monte de aromas de evolução começaram a se desenvolver na taça em camadas: vinho do Porto, xerez, amadeirado, mentolado, carne assada. Um espetáculo de aromas de guarda.
Paladar: o amargor original da receita se atenuou muito, até quase sumir. A doçura continua lá, sem excessos, agora equilibrada pela picância e por uma sensação salgada muito definida que se desenvolveu com a guarda.
Sensação na boca: o corpo preservou-se muito bem ao longo dos anos (talvez tenha até espessado!), mostrando-se ainda intenso, cremoso e licoroso. A boa sensação alcoólica é ressaltada pela picância. A carbonatação é bem suave, como é de se esperar depois de 10 anos. A borra, se servida no copo, contribui com um pouco de adstringência, não de todo agradável.

(Clique aqui para ver a avaliação completa)

Logo que servi, achei que a cerveja não evoluíra muito bem. No nariz, o aroma de oxidação predominava de uma forma um pouco incômoda. Mas ela, que já tinha esperado 10 anos para ser degustada, me pediu para esperar só um pouquinho mais. Depois de arejar por uns 10 minutos, tornou-se complexa, bela e harmoniosa. É como se ela tivesse precisado desses 10 minutinhos na taça para “acordar” do longo sono. Na boca, mostrou ainda muito vigor e força. A complexidade das frutas e especiarias ainda era perceptível, mas complementada pelos toques amadeirados, licorosos e salgados da evolução. Seu rústico amargor havia desaparecido, mas uma pegada picante e salgada lhe deu um equilíbrio maduro e sóbrio. Ótima experiência!

O gráfico abaixo resume as principais diferenças entre a versão fresca da Westvleteren 12 e a garrafa que degustei, envelhecida por 10 anos:


Alguns resultados eram esperados: o amargor diminuiu e a sensação salgada e a doçura aumentaram, o que é típico de longos períodos de guarda. Ésteres (frutas) e fenóis (especiarias) se suavizaram levemente, mas ainda estavam surpreendentemente preservados. Aromas terciários de evolução (madeira, carne assada, vinho do Porto, xerez, mentol), quase sempre as estrelas de uma cerveja envelhecida, se desenvolveram com o tempo. O que me surpreendeu foi o desempenho do corpo, ainda cremoso e intenso mesmo depois de 10 anos. Creio que a autólise das leveduras tenha potencializado sua sensação de cremosidade. Ela também me deu uma lição importante: algumas cervejas envelhecidas precisam arejar por um tempinho depois de serem abertas. Eu havia passado por algumas más experiência com garrafas envelhecidas que não evoluíram bem e, quando abri a Westy 12, achei que ela seria mais uma delas. Mas, depois de dar-lhe um pouco de tempo na taça, ela melhorou dramaticamente.

Qual é a melhor? A Westvleteren 12, fresca, é uma baita cerveja, de modo que é difícil comparar. São duas propostas, para dois gostos bem distintos. Apreciar a versão envelhecida exige uma certa queda por cerveja evoluídas, com todas as “esquisitices” que elas possam manifestar – a licorosidade acentuada, a sensação salgada, o baixo amargor, o aroma característico de oxidação. Olhando minha pontuação pessoal para as duas, percebo que dei um pontinho a mais para a versão envelhecida (96 contra 95, de um máximo de 100), mas isso diz muito pouco: é questão de gosto, de ocasião. O melhor é você fazer a prova você mesmo: hoje em dia, não é mais tão difícil comprar a Westvleteren 12 no Brasil. Que tal, numa ocasião especial, se presentear com uma garrafa e “esquecer” dela dentro da adega por 10 anos? O difícil, claro, vai ser resistir à tentação de abri-la antes da hora!

A Westvleteren 12 envelhecida foi meu brinde à força e à integridade de caráter de Luzia Pinta, que viveu uma vida de sofrimentos sob a escravidão e, apesar de perseguida, soube ouvir o chamado de seus antepassados e resgatar a conexão espiritual com suas origens. Luzia nos deixou o testemunho de pessoas que enfrentaram o sofrimento e a opressão unidas como uma grande família espiritual sob a sombra da ancestralidade africana. Sabendo-se que ela foi simultaneamente devota dos espíritos de seus antepassados e também do Deus e dos santos católicos, acho mais que apropriado que sua memória tenha sido honrada por uma grande cerveja produzida por monges. A Igreja católica certamente tem muito a se desculpar com ela na pós-vida – se houver alguma.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Trappist Westvleteren 12 x St. Bernardus Abt 12: Comparativo de um mito belga

Os oponentes nos cantos do ringue!
Fonte: acervo pessoal

A matéria desta quinzena será dedicada ao comparativo, que tive a honra de fazer recentemente, entre duas lendárias cervejas belgas de conotações monásticas: Trappist Westvleteren 12 e St. Bernardus Abt 12. O surpreendente resultado da degustação me levou a uma pesquisa sobre os dois rótulos, cujos resultados compartilho aqui com meus leitores.

Tudo o que se relaciona à Westvleteren 12, produzida pela abadia trapista de São Sisto de Westvleteren, está envolto em uma aura de mistério. Para quem não a conhece, trata-se da cerveja de distribuição comercial mais restrita entre aquelas produzidas em monastérios da ordem trapista, e foi eleita pelo site norte-americano RateBeer como a melhor cerveja do mundo (posto que também ocupa no ranking brasileiro do Brejas). Em teoria, ela é vendida apenas às portas do monastério, no interior da Bélgica, em quantidades limitadas, e o comprador recebe um aviso de que não deve revendê-la. Isso não significa, contudo, que não exista um verdadeiro mercado paralelo para esta que é talvez a mais cobiçada cerveja do mundo. Sua alta qualidade, aliada à dificuldade de obtê-la e à sua posição nos rankings internacionais, fez com que a Westvleteren 12 se tornasse um mito cervejeiro de proporções muito maiores do que os monges da abadia de São Sisto poderiam imaginar.

E há também a St. Bernardus Abt 12. Por questões administrativas e legais vinculadas aos produtos trapistas, essa cerveja tem uma íntima conexão histórica com a Westvleteren 12. Em 1946, a fim de impedir que a produção da cerveja interferisse no cotidiano monástico, a abadia de São Sisto fez um acordo com a cervejaria St. Bernard para que esta produzisse e comercializasse os rótulos da Westvleteren sob licença. Quando a Igreja católica decidiu impor um maior rigor às regras para a produção de produtos trapistas e exigiu que eles fossem produzidos no interior dos respectivos monastérios, a abadia de São Sisto modernizou suas instalações produtivas e retomou a produção em 1989. Desde então, a cervejaria St. Bernard deixou de poder usar a marca Westvleteren, mas manteve em seu portfolio parte das receitas originais da linha. A antiga Westvleteren 12 passou, então, a ser comercializada sob o nome de St. Bernardus Abt 12.

A comparação

Quer dizer que a St. Bernardus Abt 12, de ampla distribuição internacional, e que pode ser encontrada até em supermercados brasileiros por preços dentro da média das cervejas belgas, é exatamente igual à arquicobiçada Westvleteren 12, cujas garrafas, nas ocasiões em que aparecem no mercado paralelo brasileiro, são disputadas a tapa a preços que frequentemente ultrapassam os R$ 200? Foi justamente essa dúvida que me levou a este comparativo. Levando em conta o histórico das cervejarias, eu tinha a intuição de que as duas cervejas seriam, pelo menos, extremamente parecidas, de modo que apenas a aura de raridade da trapista explicaria a diferente percepção dos consumidores a respeito de ambas. Vejamos o que encontrei na degustação.


Fonte: bradfest.org
Estilo: Belgian dark strong ale
Teor alcoólico: 10.2%
Aparência: coloração mogno avermelhada, de boa transparência e ótima espuma, volumosa e bem persistente, formando “rendas” na lateral do copo
Aromas: uma excelente complexidade de frutas e especiarias advindas do fermento, com um interessante perfil de maturidade como complemento. A doçura do malte e do açúcar queimado se traduzem em uma sensação caramelada, ao lado de ésteres frutados que remetem a maçãs vermelhas, uvas passas, vinho tinto e mamão papaya. As especiarias trazem aromas claros de pimenta-do-reino e toques discretos de cravo, alcaçuz e sementes de coentro, além de uma sensação de acetona que não destoa do conjunto. Sentem-se ainda notas florais e um herbal lupulado característico ao final. Finalmente, toques licorosos lembrando mel lhe conferem um aroma maduro.
Paladar: na boca, se você espera a gentil doçura de alguns exemplares do estilo, vai se surpreender com um amargor rústico e assertivo, que rapidamente sobrepuja o doce inicial e se prolonga num final longo, seco e picante. Sóbrio e austero, como os monges de São Sisto.
Sensação na boca: a secura destacada para o estilo a deixa com um corpo apenas mediano, mas com sensação licorosa e um aquecimento alcoólico e picante bem-vindo ao final do gole. Afinal, você não esperava muita gentileza da cerveja mais robusta da abadia, não é mesmo?

Clique aqui para ver a avaliação completa.

A Trappist Westvleteren 12 é uma interpretação tipicamente trapista do estilo que as abadias católicas consagraram: você sente aquela doçura caramelada que é característica do estilo, mas logo se nota que quem predomina é o amargor seco e austero da lupulagem assertiva. Frutas e especiarias estão lá com uma excelente complexidade, ao lado de sensações licorosas e maduras. Tudo muito bem integrado. Ela não chega a ser totalmente surpreendente; antes, é precisamente tudo o que você espera de uma ótima dark strong ale belga. Mas é claro que o posto de “melhor cerveja do mundo” reflete muito mais a sua história, sua tradição e a dificuldade em obtê-la do que, efetivamente, o conteúdo da garrafa.


Fonte: www.tumblr.com
Estilo: Belgian dark strong ale
Teor alcoólico: 10%
Aparência: praticamente idêntica à Westvleteren, com cor mogno avermelhada, boa transparência e excelente creme volumoso e persistente que forma rendas no copo.
Aromas: aqui as diferenças em relação à trapista evidenciaram-se claramente. O malte ganha muito mais destaque e mostra um sabor mais macio e assertivo: além daquela doçura de caramelo característica do estilo, nota-se muito claramente algo de panificação (lembrando pão-de-ló) e uma indulgente sensação de bala toffee. O frutado mostra-se menos complexo e vigoroso, com o aroma de vinho tinto que encontramos na Westvleteren, mas também com notas de banana que não identifiquei na trapista. As especiarias (pimenta-do-reino e alcaçuz) também estão aqui, mas de forma menos intensa e menos complexa. A licorosidade de mel da trapista se repete, e o floral é complementado por um herbal lupulado menos rústico, lembrando mentol. Em resumo: mais malte e menos frutas e especiarias que na Westvleteren.
Paladar: aqui as diferenças são gritantes e se impõem claramente. Enquanto a trapista trazia aquela secura amarga e sóbria, a St. Bernardus Abt 12 apresentou indulgente e envolvente doçura inicial, que apenas depois de engolir deu lugar a um amargor mais discreto, revelando no entanto a mesma picância num final de extraordinária longevidade e vivacidade.
Sensação na boca: a doçura mais acentuada traduz-se claramente em um corpo mais intenso e uma textura mais cremosa, além de um aquecimento alcoólico mais suave e equilibrado. A carbonatação também é menos evidente na boca.

Clique aqui para ver a avaliação completa.

A St. Bernardus Abt 12 é uma ótima interpretação do estilo na linha das cervejarias comerciais “laicas”: macia, envolvente e indulgente, com um gostoso perfil de maltes e uma sensação de toffee. A cervejaria afirma usar maltes escuros na receita, o que explica essa característica (que não encontrei na Westvleteren). As sensações frutadas e de especiarias estão lá, como manda o estilo, mas assumem segundo plano, perdendo em vivacidade e em complexidade.

O gráfico abaixo sumariza as principais diferenças encontradas na degustação:


Afinal de contas, é ou não é a mesma cerveja?

Definitivamente, não é a mesma cerveja. Essa foi a estarrecedora conclusão a que a degustação horizontal me levou, o que me fez buscar mais informações sobre as cervejarias para solucionar o mistério. Durante essa pesquisa (na qual Stan Hieronymus, autor de Brew Like a Monk, foi uma fonte preciosa de informação), descobri alguns fatos interessantes e esclarecedores.

A abadia de São Sisto mantém um intercâmbio técnico muito próximo com outra abadia trapista belga, a de Westmalle. Durante o período em que a St. Bernard produziu a Westvleteren sob licença, São Sisto continuou produzindo cerveja para consumo dos monges e visitantes, e introduziu mudanças importantes no processo produtivo. Em primeiro lugar, mudou sua cepa de leveduras, adotando a mesma usada na abadia de Westmalle. Até hoje, a levedura da Westvleteren é fornecida pela Westmalle. Isso significa que a levedura empregada pela St. Bernard pode ser a levedura original da Westvleteren, mas não é a mesma que o mosteiro usa atualmente. Ademais, St. Bernard emprega uma segunda cepa, diferente da primeira, na refermentação na garrafa.

O irmão Jos operando a nova tina de 
brassagem da abadia de São Sisto.
Fonte: Brew Like a Monk (Stan Hieronymus)
Em segundo lugar, as receitas podem ter sofrido uma série de mudanças desde 1946, quando a St. Bernard começou a produzir as cervejas da Westvleteren. A St. Bernard afirma usar maltes escuros “para dar estabilidade”, enquanto os monges trapistas declaram usar apenas maltes pilsen e pale (o caramelo, presumivelmente, é responsável pela coloração escura). Ademais, a linha St. Bernardus é pasteurizada antes de ser exportada para muitos países (entre os quais, suponho, o Brasil), o que interfere na maturação na garrafa. Do lado dos trapistas, todo o equipamento produtivo da abadia de São Sisto foi renovado sob supervisão dos técnicos de Westmalle (antes, o monastério usava fermentadores de madeira, e hoje emprega tanques de inox), o que possivelmente acarretou mudanças no processo e na receita. Stan Hieronymus cita pelo menos mais uma diferença crucial aferida por medições técnicas: enquanto a St. Bernardus Abt 12 possui 22 unidades de amargor (IBU), a Trappist Westvlereten 12 ostenta potentes 38 IBUs, o que explica sua poderosa sensação de amargor. Sabendo-se que o estilo tradicionalmente admite entre 20 e 35 IBUs segundo o BJCP (e entre 20 e 50 IBUs segundo o mais modernizado guia da Brewers Association), isso atesta de forma eloquente as diferenças entre as duas.

O veredito inevitável a que fui impelido por meus sentidos e minhas leituras é o de que as duas não são, definitivamente, a mesma cerveja. É verdade que diferenças na safra, na refermentação na garrafa ou no tempo transcorrido entre o envase e o consumo poderiam produzir pequenas alterações no aroma, sabor e sensação. Mas acho que estamos diante de algo que vai além disso, envolvendo diferenças nas cepas de levedura (que são a alma das cervejas belgas), nos maltes e nos índices de amargor. Isso inclusive ajudaria a explicar as diferentes percepções da cerveja pelo público norte-americano, que entronizou a Trappist Westvleteren 12 como melhor cerveja do mundo. Entre todas as dark strong ales trapistas, a Westvleteren exibe o maior índice de amargor (seguida de perto pelos 35 IBUs da Chimay Azul), o que bate em cheio com o gosto pelas cervejas amargas do público norte-americano.

Duas perguntas não querem calar: a Westvleteren é mesmo a melhor cerveja do mundo? Entre a St. Bernardus e a Westleteren, qual é melhor? Quanto à primeira pergunta, acho que minha posição já deve ter ficado clara ao longo deste artigo. Quanto à segunda, digamos apenas que “melhor” ou “pior” não dependem inteiramente de uma avaliação objetiva, esbarrando sempre em critérios e preferências que são, pelo menos em parte, pessoais. Eu gosto mais da complexidade aromática da Westvleteren, mas não posso negar que o perfil maltado da St. Bernardus é mais sedutor, para quem prefere esse aspecto. Aí vai de cada um: quando tiver a oportunidade de por suas mãos em uma das cobiçadas garrafinhas sem rótulo da trapista, não deixe de bebê-la tendo ao lado um copo da sempre companheira St. Bernardus e tire suas próprias conclusões!