quarta-feira, 25 de novembro de 2015

De John Stedman ao Brazilian wax: gênero e raça no marketing cervejeiro

Faz algum tempo que eu não tinha condições de escrever aqui no blog. Culpa dos compromissos profissionais. Mas – vejam só! – foram esses mesmos compromissos que também me deram o mote e o assunto para esta matéria. É que uma das coisas que fiz nesses meses foi reler, para um seminário acadêmico, um livro chamado Os olhos do império, da crítica literária canadense Mary Louise Pratt. Trata-se de um magnífico estudo sobre relatos de viagens, e foi uma leitura que influenciou fortemente minha formação desde minha graduação em História, quando tive a oportunidade de lê-lo pela primeira vez.

A escrava Joana é a heroína desta matéria. 
E é a segunda mulher negra do século 
XVIII homenageada neste blog!
Fonte: en.wikipedia.org
O livro não fala sobre cerveja. Fala sobre viajantes, e fala inclusive sobre o lendário diplomata e agente secreto inglês Richard Francis Burton, que passou 7 anos na Índia britânica na década de 1840 e teve a rara oportunidade – para um ocidental – de se tornar um brâmane hindu. Por coincidência, o sobrenome de Burton era homônimo à pequena cidade inglesa de Burton-on-Trent, de onde, na mesma época, saíam as cervejas claras e lupuladas enviadas para os oficiais ingleses na Índia, as mesmas que viriam a ficar conhecidas como India pale ales. Richard Burton deve ter bebido sua cota de IPA na Índia, talvez até mesmo na época em que ele professou o islamismo. Isso não posso afirmar.

Mas esta postagem não é sobre a vida de Richard Burton ou sua devoção ao imperialismo inglês na Índia, no Oriente Médio e na África. Ocorre que o livro de Mary Louise Pratt também fala sobre um soldado escocês chamado John Stedman, que teve um relacionamento amoroso com uma escrava mulata chamada Joana no Suriname no final do século XVIII. Quero contar sua história e mostrar como suas visões negativas e imperialistas sobre as mulheres, os negros (e sobretudo as mulheres negras) e a América Latina estão mais vivas do que nunca neste início de século XXI, e ainda habitam o imaginário do cenário cervejeiro contemporâneo. Mas vamos com calma.

A escrava Joana

John Stedman nasceu em 1744 na Escócia e herdou de seu pai o posto de oficial da Brigada Escocesa do exército holandês (era uma época em que os exércitos não eram tão nacionalistas quanto são hoje). À época, a Holanda tinha algumas pequenas mas lucrativas colônias agroexportadoras no Caribe, entre as quais estava o Suriname. Nessa região coberta por florestas tropicais, os escravos africanos que trabalhavam nas fazendas holandesas fugiam em grandes quantidades para as matas, formando grandes quilombos que existem até os dias de hoje e travando uma guerra feroz contra as forças repressivas coloniais. A despeito de terem assinado tratados de paz com os quilombolas, os holandeses organizaram em 1773 uma expedição militar repressiva, da qual fazia parte Stedman. A guerra holandesa contra os quilombolas foi um fiasco, e comprovou, desde então, a proverbial incompetência dos exércitos europeus para guerrilhas na floresta. Cerca de 80% dos soldados europeus morreram (a maior parte devido a doenças), poucos escravos foram recapturados e a maior parte dos quilombolas atacados fugiu para a Guiana Francesa.

Gravura de John Stedman sobre o 
cadáver de um negro quilombola.
Fonte: en.wikipedia.org
John Stedman era um soldado europeu, a serviço de uma potência colonial, encarregado de esmagar uma rebelião de escravos. Diante disso, é um tanto irônico – mas esta é justamente a ironia da colonização europeia nas Américas – que ele tenha se envolvido sexualmente e tenha até se “casado” com uma escrava, chamada Joana. Há duas versões dessa história de amor transracial: a que John Stedman publicou em seu livro de memórias de viagem, chamado Narrativa de uma expedição de cinco anos contra os negros revoltosos do Suriname (de 1796), e a que consta do seu diário pessoal de campanha. Qual você quer saber primeiro?

Vamos lá: comecemos pela versão do diário. Gostamos de segredos. Na época de Stedman, havia o costume de que os oficiais militares europeus (ou oficiais diplomáticos, agentes comerciais, administradores etc.) recém-chegados à América adquirissem os serviços de uma escrava local, seja por aluguel, seja por compra da escrava. Esses serviços a serem desempenhados pela escrava comprada ou contratada incluíam atribuições fundamentais para a vida cotidiana desses europeus sozinhos em territórios coloniais: tarefas domésticas, preparação de alimentos, cuidados de saúde. E, como você já deve estar imaginando, incluíam também serviços sexuais. Em alguns casos, para evitar o escândalo público, esses relacionamentos de concubinato eram oficializados por cerimônias de pseudocasamento. John Stedman teve várias companheiras no Suriname nesses moldes. Joana foi uma delas, aparentemente sua preferida. Stedman, depois de se casar com ela no Suriname, propôs que ela o acompanhasse de volta à Inglaterra, mas ela recusou, preferindo continuar a viver como uma escrava “próspera” na América do que viver como pária (uma mulher negra e escrava) na Inglaterra do final do século XVIII. Pois bem: Stedman voltou sozinho e se casou novamente com uma esposa inglesa. Fim de uma edificante história de exploração sexual nos trópicos.

Mas a versão da história contada por John Stedman em seu livro é bastante diferente. Segundo esse relato, Joana teria sido uma espécie de escrava “hipotecada”, propriedade de uma viúva endividada. Seu destino estava selado, pois ela seria vendida para liquidar a dívida da senhora. Stedman teria se apaixonado perdidamente ao vê-la na casa da viúva, descrevendo-a como “a mais elegante forma que a natureza pode exibir, [...] com uma face na qual reluzia, a despeito do tom escuro da pele, um lindo tom carmim.” [É, era tipo “ela é preta, mas é limpinha”.] Diante da inevitabilidade de sua venda, ela teria apelado ao bondoso soldado europeu, que então tomou, segundo seu relato, a “estranha decisão” de comprá-la e se casar com ela para evitar a separação, decidido a “ser seu protetor contra qualquer insulto”. Não preciso explicar a ironia, preciso? Stedman narra sua cerimônia de casamento, sua lua-de-mel, a paixão entre os dois e o nascimento de seu filho Johnny. Ao final da narrativa, conta que a escrava Joana não quis segui-lo até a Inglaterra e que depois morreu envenenada no Suriname.

Uma das gravuras do livro de Stedman. 
O soldado denunciou os rigores da 
escravidão mas não deixou de explorar 
uma escrava negra no Suriname.
Fonte: en.wikipedia.org
Num certo sentido, não é difícil ver na narrativa de John Stedman uma tentativa de construir uma versão idealizada e romantizada de um relacionamento que era, por natureza, brutal e desigual. Joana era, afinal de contas, uma escrava sexual do soldado escocês. Literalmente. A ligação entre os dois é contada como sendo de amor recíproco, e sua união é representada como voluntária para ambas as partes – quando sabemos que ela não podia sê-lo para Joana, a não ser muito parcialmente. Não se trata de dizer que é impossível que tenham se amado. Eu não chegaria a tais extremos metafísicos. O que é inegável, contudo, é que o relato de Stedman ocultava a violência do regime de exploração sexual nas Américas, em que mulheres negras eram vistas como sexualmente disponíveis para homens brancos que iriam se valer de sua companhia e depois descartá-las.

Essas histórias de amor transracial envolviam sempre mulheres negras (ou pelo menos não brancas, ou de alguma forma em posição subalterna) e homens brancos, e quase nunca o contrário. Pocahontas, Iracema, Bartira, a escrava Isaura – you name it. Isso não é fortuito, já que o pensamento da época considerava o gênero como uma metáfora da raça, e vice-versa: a raça branca era representada na pseudociência racial da época como sendo “masculina” (ativa, dominadora, racional), enquanto as raças não brancas eram consideradas “femininas” (passivas, irracionais, emocionas). A relação sexual entre homens brancos e mulheres negras, portanto, era o lugar ideológico em que todas essas questões espinhudas eram tratadas na cultura da época. Stedman deu a essa questão um tratamento lisonjeiro aos olhos de seus leitores europeus, em que a violência sexual e racial aparecia sob a roupagem da reciprocidade do amor romântico correspondido. Não à toa, seu livro foi um sucesso editorial, sendo publicado em 6 diferentes línguas europeias. A história de Stedman e Joana foi adaptada para teatro, poesia, conto e romance. Era um conto de fadas agradável para aplacar a consciência pesada do imperialismo europeu.

Evil Twin Brazil Brazilian Wax

Infelizmente, como sabemos, esse regime de exploração sexual da mulher de cor (negra, indígena, asiática ou mestiça) do Terceiro Mundo por homens brancos do Primeiro Mundo não acabou. Claro que ele assumiu outras formas, que atualmente incluem o tráfico internacional de pessoas, o turismo sexual e várias formas, diretas e indiretas, de violência doméstica. Também sobrevive de formas mais sutis na nossa cultura contemporânea, traduzido em preconceitos a respeito da promiscuidade e/ou da sensualidade aflorada da mulher negra. É um estranho e abominável lugar ideológico onde se cruzam duas das mais perniciosas e duradouras pragas culturais do nosso mundo: o machismo e o racismo, que, como vimos, andaram de mãos dadas pelo menos desde o final do século XVIII.

Eu adoraria dizer que o meio cervejeiro, por ser composto de pessoas “cultas”, “bem-educadas”, “sensíveis” e “de mente aberta”, [ironia detectada] não tem nada disso. Mas isso não é verdade. Uma polêmica relativamente recente a respeito de uma cervejaria europeia no Brasil reeditou, quase ponto a ponto, a velha história de John Stedman no Suriname, mais de dois séculos depois. Alguns dos meus leitores terão acompanhado essa discussão, enquanto talvez outros nem se lembrem mais dela. De qualquer modo, acho que o acontecimento foi tão emblemático de todas essas questões que vale a pena fazermos questão de não esquecê-lo. Falo da polêmica criada em torno do rótulo da cerveja Evil Twin Imperial Brazilian Wax.

Bunda ou virilha: eis a questão.
Fonte: http://www.bebendobem.com.br/
 
 
Para quem não sabe, a Evil Twin é uma cervejaria cigana de origem dinamarquesa (hoje em dia sediada nos EUA) que exporta alguns de seus rótulos para o Brasil. Em decorrência de uma parceria com a cervejaria Tupiniquim, do RS, a Evil Twin passou a produzir alguns rótulos no Brasil, na planta da microcervejaria rio-grandense. A primeira cerveja dessa linha produzida em solo nacional, em 2014, foi uma imperial stout que foi inicialmente batizada de Imperial Brazilian Wax – em alusão à técnica de depilação íntima frequentemente associada às mulheres brasileiras no exterior. O rótulo inicialmente anunciado para a cerveja é este que você vê acima deste parágrafo.

O anúncio suscitou uma justificada e previsível reação de protesto de diversos consumidores brasileiros – e especialmente de consumidoras brasileiras –, que viram no rótulo um subtexto machista e depreciativo. Alguns admiradores da marca tentaram aplacar a situação, dizendo que não havia nenhum machismo no rótulo e que era tudo uma espécie de teoria da conspiração de grupos feministas. A emenda saiu pior do que o soneto, e gerou uma avalanche ainda maior de críticas – desta vez não apenas à Evil Twin, mas a uma parcela substancial dos blogueiros e “formadores de opinião” do meio cervejeiro, que haviam perdido uma excelente oportunidade de ficarem em silêncio. Isso porque, ao deslegitimarem o protesto contra o rótulo, não só deixavam de reconhecer seu subtexto machista como também condenavam a expressão pública de indignação por parte de coletivos femininos. Por conta da pressão dos consumidores e da má publicidade em torno do fato, a Evil Twin acabou trocando o nome e o rótulo da cerveja, que foi lançada como Evil Twin Metro Man.

Uma análise semiótica elementar do rótulo proposto para a Evil Twin Imperial Brazilian Wax é suficiente para expor seu subtexto ideológico problemático, que nem de longe se limita ao machismo, mesmo que este tenha ganhado maior visibilidade e tenha se tornado o alvo prioritário de protesto nas redes sociais. Façamos a análise em três etapas: comecemos pelo nome da cerveja, passemos à imagem do rótulo e finalizemos com o texto de descrição comercial contido no rótulo. Ao final, juntaremos tudo isso para tentar extrair algum tipo de impressão global do rótulo (já adianto: não vai ser bonita).

O nome

Comecemos pelo nome proposto para a cerveja: Imperial Brazilian Wax. A ironia é tão deliciosa quanto involuntária. “Imperial” refere-se a estilos cervejeiros de teor alcoólico elevado – no caso, trata-se de uma “stout imperial”, como esclarece o rótulo na parte inferior (em letras pretas). Contudo, o termo também remete às complexas formações sociais e ideológicas criada pelo imperialismo europeu nos trópicos – as mesmas que deram origem às Joanas do período escravista e que reaparecem no rótulo da Evil Twin. Desde a primeira palavra do título, a Imperial Brazilian Wax já se apresenta como súdita do euroimperialismo.

Já “Brazilian wax” refere-se à chamada “depilação brasileira”, uma técnica de depilação introduzida nos EUA por profissionais brasileiras, que consiste na retirada total dos pelos da virilha e das áreas genital e anal, deixando, opcionalmente, uma “faixa” de pelos no púbis. A técnica atende a dois propósitos principais: 1. o uso de biquínis cavados sem revelar os pelos pubianos; e 2. o prazer sexual do parceiro ou da parceira da mulher que se submete à técnica. O biquíni, como sabemos, é um traje de banho que visa revelar a maior parte do corpo da mulher para a observação de terceiros, frequentemente uma observação de caráter erótico por parte de homens, deixando cobertas apenas as partes consideradas obscenas e ofensivas ao pudor público (genitália e mamilos). Portanto, não seria exagero afirmar que essa técnica de depilação tem uma conotação eminentemente erótica, e tem como objetivo potencializar os atributos da mulher como objeto de desfrute erótico. O fato de esse tipo de depilação estar associado, nos EUA e na Europa, às mulheres brasileiras já é uma reiteração daqueles velhos preconceitos que veem a mulher do Terceiro Mundo ou de regiões tropicais como mais intensamente sexualizada. Ou seja: num certo sentido, o próprio nome escolhido pela Evil Twin já é um tributo à cultura do imperialismo que herdamos de John Stedman e de outros europeus nos trópicos. Ponto para o império!

A imagem

A imagem do rótulo reforça esse sentido. Há um triângulo invertido amarelo (com as duas arestas inferiores côncavas) sobre um fundo marrom. Não é difícil ver a representação estilizada de uma mulher de biquíni – ainda mais quando consideramos que a técnica do Brazilian wax está associada ao uso do biquíni. Mas não se trata de uma representação de corpo inteiro da mulher de biquíni: pelo contrário, o rótulo faz um recorte que enfatiza apenas a região da genitália da mulher. Se esta é a parte da frente ou de trás do biquíni é matéria controversa, embora eu acredite que as concavidades do triângulo sugiram mais a volumetria da parte de trás. Seria, nesse caso, a representação estilizada de uma bunda de biquíni fio-dental – o que é razoável, considerando que o fio-dental é outra coisa tipicamente associada ao Brasil na mentalidade estrangeira. De qualquer forma, é evidente que se trata de uma representação erotizada da mulher, que atua por meio de uma estratégia retórica de metonímia, representando o todo (a mulher) por uma de suas partes (a genitália), que é considerada a mais importante ou representativa. É como se a mulher “se resumisse” a um traço fundamental, ou pudesse ser reconhecida apenas por ele: a saber, a bunda exposta.

As cores escolhidas para a imagem trazem outras associações e significados. O triângulo (que, como vimos, representa o biquíni) é amarelo. Como sabemos, o amarelo é uma das principais cores da bandeira brasileira, junto com o verde. As letras usadas no rótulo são verdes, e o biquíni é amarelo, remetendo de forma muito imediata e inequívoca ao Brasil. Portanto, não se trata apenas de uma mulher de biquíni, mas (pelo menos simbolicamente) de uma brasileira de biquíni. O fundo, por sua vez, é marrom. Forçando um pouco a barra (para aliviar para a Evil Twin), poderíamos até dizer que a cor lembra uma pele intensamente bronzeada. Mas me parece mais convincente que o marrom remeta à pele negra, ou, mais precisamente, à pele mulata. Ora, sabemos que, no exterior, o Brasil é frequentemente associado à imagem da mulata sensual, de modo que me parece bastante razoável supor que essa é a associação sugerida pelo rótulo. Sendo isso verdade, estamos diante de um rótulo que representa a bunda (ou a virilha) de uma mulata brasileira de biquíni, uma imagem que está, digamos, “disfarçada” por um trabalho de estilização formal. Portanto, é uma imagem da mulher brasileira representada como objeto de deleite erótico para o olhar masculino. Mais que isso, é uma mulher negra. E o olhar masculino em questão é o de um europeu (uma vez que a marca Evil Twin é dinamarquesa). Ora, se é assim, então a mulher do rótulo é uma Joana, pronta e disponível para o consumo e o deleite de um Stedman! A imagem, portanto, reforça e ecoa o imaginário euroimperial, machista e racista da disponibilidade sexual das mulheres de cor tropicais para o deleite dos homens brancos europeus.

O texto

A descrição comercial apresentada no rótulo também confirma esses significados. Arrisco uma tradução do texto: “Há muitas coisas sobre as mulheres que os homens não entendem. Por exemplo, por que elas suportam tanta dor para corresponder aos ideais da sociedade moderna? Elas estão indo longe demais? Ou talvez os homens possam aprender uma ou outra coisa a respeito do comprometimento extremo das mulheres com a perfeição – seja beleza extrema, seja cerveja extrema – é tudo questão de gosto. Lembre-se de que, quando você beber esta stout extrema, ela pode doer um pouco, mas às vezes é preciso aguentar até o fim para ficar perfeito [to get it right].”

Para ser bem sincero, o texto já começa mal, sugerindo que as ações das mulheres são pouco compreensíveis para os homens. Como se elas fossem seres alienígenas, irracionais ou alguma coisa assim. Na sequência, o texto afirma que as mulheres “suportam dor” (e muita dor), ou seja, que sofrem, com o objetivo de “corresponder aos ideais da sociedade moderna”. A alusão aqui é ao doloroso processo da depilação brasileira: segundo o texto, as mulheres se submetem a esse sofrimento com o intuito não de atender a um desejo próprio, mas sim de corresponder aos padrões de beleza e aos ideais de perfeição feminina da sociedade. Ou seja, segundo o rótulo (e não sou eu quem estou falando isso, é a Evil Twin!), essa depilação não é feita pela mulher exatamente por vontade própria, mas para atender a padrões externos. Padrões estéticos masculinos, subentende-se, já que são eles, prioritariamente, que irão observar e se deleitar com as mulheres de biquíni após elas terem se submetido a esse sofrimento. O texto sugere que essa prática seria um tipo de excesso (“ir longe demais”), um “comprometimento extremo” para se atingir uma “beleza extrema”.

A última frase do texto coroa esses sentidos: “é preciso aguentar até o fim para ficar perfeito” (na frase original, de difícil tradução: “you just have to go all the way to get it right”). Ou seja, o sofrimento causado pela depilação é visto como um requisito necessário para que a mulher fique “perfeita” (ou “correta”, “right”). E o que seria essa perfeição a ser almejada pela mulher do século XXI? Talvez uma carreira profissional brilhante, talvez um comportamento ético irreprochável, quem sabe um alto nível de sofisticação intelectual? Não, não é nada disso. Para uma mulher ser “perfeita”, ela deve atingir a “beleza extrema”. Esse seria o ideal mais importante a ser almejado pelas mulheres: a beleza. E, quando falamos em depilação íntima, isso significa que ela deve fazer o necessário para ser um objeto agradável de contemplação e deleite erótico para os homens: deve suportar a dor da depilação para poder usar um biquíni cavado na praia e ser avaliada de forma positiva pelo olhar masculino. Em resumo: mulher tem que sofrer para atender ao deleite sexual dos homens. Estamos em pleno século XXI, mas a verdade é que poderíamos dizer exatamente o mesmo para descrever as demandas dos europeus do século XVIII nas Américas a respeito de mulheres como Joana. Será que evoluímos tanto assim?

Imperial no ** dos outros é refresco

Vamos juntar todas as peças. O rótulo que estamos analisando foi criado por uma cervejaria europeia (dinamarquesa, para ser mais exato) especialmente para sua primeira cerveja produzida no Brasil. É uma espécie de “cartão de visitas” representativo da colaboração entre o Brasil e uma empresa europeia. Há um intuito deliberado de condensar uma imagem ou representação sobre o país, o que se traduz no nome (“Brazilian”) e no verde-e-amarelo da paleta de cores do rótulo. Essa imagem parte de uma associação entre o Brasil e a sexualidade do seu povo (e especialmente das mulheres). Um europeu visitando o Brasil poderia elogiar positivamente muitos aspectos da cultura brasileira: nosso multiculturalismo, talvez nosso cosmopolitismo, quem sabe nossa tão propalada alegria, ou nossa hospitalidade. Mas a Evil Twin decidiu mencionar a sensualidade da mulher brasileira. Portanto, em primeiro lugar, o rótulo é ofensivo à cultura brasileira como um todo, sugerindo que sua disponibilidade erótica seria seu mais proeminente ou interessante atributo ao olhar de um estrangeiro. Exagerando um pouco a nota, é como se o Brasil fosse um grande bordel.

E a Evil Twin não é a única empresa estrangeira 
a enxergar o Brasil dessa forma...
Fonte: www.morganpr.co.uk
Em segundo lugar, o rótulo é ofensivo à dignidade feminina, pois reduz a mulher a um mero objeto sexual: seu corpo é seccionado para ser metonimicamente representado por uma bunda, e o ideal de perfeição a que ela deve almejar acima de todos é o tipo de beleza erótica que a transforma em objeto de satisfação sexual para os homens. Ainda por cima, ela precisa sofrer para atingir esse ideal pouco lisonjeiro. Por fim, o rótulo é ofensivo à dignidade racial negra, ao trabalhar em cima do velho estereótipo que associa as mulheres de cor à sensualidade exacerbada e as representa como sexualmente disponíveis ao deleite dos europeus nos trópicos. A mulher brasileira a ser eroticamente desfrutada pelo europeu não é branca, mas negra. Full house: a Evil Twin conseguiu ser ofensiva simultaneamente ao sentimento nacional brasileiro, às mulheres e aos negros. Com isso, ela reproduziu perfeitamente todas as coordenadas da velha ideologia imperialista europeia sobre os trópicos: a mesma mistura indigesta de uma representação negativa sobre as culturas tropicais com elementos de machismo e de racismo que encontramos em textos como o de John Stedman.

O infeliz rótulo da Evil Twin me lembrou muito uma polêmica criada em torno de duas camisetas comercializadas pela Adidas durante a Copa do Mundo da FIFA de 2014 (mesmo ano de lançamento da Imperial Brazilian Wax, por sinal). Uma das camisetas trazia os dizerem “I love Brazil”, sendo que o “love” era substituído por um coração estilizado para lembrar uma bunda de biquíni (a imagem você vê acima). A outra, ainda mais nojenta (era o modelo masculino), trazia a imagem de uma mulher de biquíni (sempre ele...) com o Pão de Açúcar ao fundo, e os dizeres “Looking to score”, expressão que tem duplo sentido, podendo ser traduzida como “tentando marcar gols” ou como “tentando obter sexo”. A Embratur e a presidente Dilma Roussef, corretamente, repudiaram as camisetas e exigiram produtos menos ofensivos à dignidade nacional e que não incentivassem o turismo sexual durante a Copa do Mundo. A venda das camisetas foi suspensa e o episódio foi uma tremenda bola fora diplomática da Adidas.

Boa, Evil Twin, agora ficou joia! #sqn
Fonte: http://www.bebendobem.com.br/
O rótulo da Evil Twin Imperial Brazilian Wax também foi suspenso. Em seu lugar, a cervejaria lançou a mesma cerveja com o nome de Evil Twin Metro Man. Muitas das consumidoras ofendidas celebraram a mudança, mas a verdade é que o novo rótulo não traz uma mensagem de gênero muito melhor. Não pretendo cacetear meus leitores (que já me acompanharam até aqui!) com mais uma análise extensa, mas a verdade é que a Metro Man reforça padrões de gênero heteronormativos, ao sugerir que a vaidade masculina estaria ligada aos “problemas de gênero” que a cervejaria havia enfrentado. Isso antes de dizer que esse problema todo seria “nonsense”. A Evil Twin realmente parece incapaz de deixar de ser ofensiva com seus consumidores: mesmo ao atender a uma reclamação e mudar o rótulo, não deixou de reiterar que a polêmica era vazia e sem sentido. Mas pelo menos a cervejaria aprendeu, da pior forma possível, que as Joanas do século XXI não pretendem ficar quietas diante dos abusos dos John Stedmans que continuam por aí.


Mas você deve estar pensando: “ah, mas isso tudo é tão sutil, tão subentendido, tão subliminar que ninguém percebeu!” Em primeiro lugar, muita gente não só percebeu como se ofendeu. Isso já é motivo suficiente para polêmica. Mas, ainda mais importante, como pretendi mostrar, todos esses significados estão perfeitamente acessíveis para uma interpretação semiótica básica. E o fato de eles serem sutis e de frequentemente passarem despercebidos não os torna inofensivos: como os estudos de psicologia do consumidor evidenciam, não precisamos nos dar conta, conscientemente, de todas as mensagens de uma peça publicitária para que ela exerça influência sobre nossa mente, nossos desejos e nossos sentimentos. A ideologia também funciona assim: é até desejável que nós não saibamos ou não possamos exprimir conscientemente todos os conteúdos das ideologias que nos influenciam. Elas moldam nossa sensibilidade, nossas opiniões e nossas ações de forma muito mais eficientes se continuarem “encobertas”, como estão no rótulo da Imperial Brazilian Wax. Não há absolutamente nada de inocente nisso tudo.

sábado, 1 de agosto de 2015

Pássaros do Cone Sul, ou "A arte de beber bem e barato"

Tenho aproveitado minha atual situação de desemprego para exercer e aprimorar a arte de beber bem gastando pouco. Nem sempre é fácil, é verdade. Mas quase sempre é muito gratificante, em parte porque faz você se dar conta de quanto dinheiro estava gastando antes de forma relativamente “supérflua” – ou mesmo completamente em vão, nos piores casos. O consumo mexe com a sua cabeça: quanto mais você consome, mais acredita que precisa consumir, e mais sua dignidade e seu bem-estar começam a depender do quanto você gasta. O velho barbado Marx chamava isso de fetiche, mas isso é assunto para outra conversa. Diminuir seu padrão de consumo, às vezes, é um salutar revés nesse ciclo quase vicioso do consumo.

E tenho a impressão de que não é só para mim...
A diminuição do meu poder de compra me fez rever muitos dos meus hábitos de consumo etílico (junto com um monte de outros hábitos, é verdade). Nem penso mais em provar regularmente cervejas de R$ 20 a long neck, optando, sempre que possível, por garrafas grandes na faixa dos R$ 15-20 e complementando o consumo das artesanais pelas acessíveis standard lagers “de sempre” do mercado. Elas têm seu valor, sobretudo quando a grana está curta. E a verdade é uma só, doa a quem doer: uma Brahma fresca e bem acondicionada, como às vezes tenho a felicidade de encontrar em alguns bares, pode ser até mais saborosa do que uma artesanal xexelenta e oxidada que custa o quíntuplo. Mas isso, também, é assunto para outra ocasião. E é claro que abandonei o passageiro hábito que tentei cultivar, em meados do ano passado, de beber diariamente a quantidade recomendada pela Organização Mundial de Saúde.

Além disso, tenho trocado com frequência a cerveja pelo vinho, depois que descobri, para meu espanto, que é mais barato beber vinho do que cerveja no Brasil – como já argumentei aqui no blog. E substituí as antes frequentes garrafas de R$ 40-60 por vinhos mais baratos, na faixa dos R$ 20-30. E é aí que tenho encontrado o grande desafio: beber vinhos agradáveis, limpos e bem-feitos apesar de simples, nessa faixa de preços. Muito bebedor de cerveja, quando descobre que tenho uma queda pelo fermentado de Baco, me pede indicações de bons vinhos abaixo dos R$ 40. Nem sempre é fácil, admito. A maior parte dos vinhos nessa faixa, sobretudo os de supermercados (onde vamos à procura de vinho barato), tem defeitos mais ou menos sérios, ou então é enjoativa. Para piorar, no nosso mercado, vinho barato é sinônimo de vinho chileno e argentino, e nem sempre o perfil deles – às vezes amadeirados e adocicados em excesso, com pouca acidez – bate muito com o meu santo. O que fazer, então?

O Chile não tem palmeiras, mas lá canta o sabiá

Para encontrar vinhos bons e baratos, é preciso dar a cara a tapa. E beber algumas porcarias, antes de achar coisas mais interessantes. Um desses achados recentes que fiz foi a linha de vinhos Aves del Sur, produzida pela vinícola chilena Carta Vieja e importada no Brasil pelo Pão de Açúcar. O Pão de Açúcar investiu muito em vinhos e, hoje, é o maior vendedor varejista de vinhos do país. O supermercado conta até com uma linha própria, a “Club des Sommeliers”, composta por vinhos produzidos sob encomenda por vinícolas nacionais e estrangeiras e engarrafados com o rótulo da rede. É a estratégia da rede para distribuir o que, na prática, são vinhos importados diretamente pelo Pão de Açúcar. Ocorre que, a despeito do preço bastante competitivo e da seleção do fera Carlos Cabral, os rótulos do Club des Sommeliers nunca me atraíram. Tive más experiências com algumas opções da linha, e acho que os vinhos tendem a ser comerciais em excesso, um pouco “padronizados” para atingir um mercado mais amplo. Muitas vezes, isso resulta em vinhos amenos, sem muita personalidade, doces em excesso, pouco tânicos e pouco ácidos.

A linha básica, com seus simpáticos passarinhos.
Fonte: ru-vino.livejournal.com
Qual não foi minha surpresa quando encontrei a linha “Aves del Sur”, com importação exclusiva do Pão de Açúcar mas sem o rótulo do Club des Sommeliers. Resolvi arriscar o Merlot da linha mais barata. E tive uma ótima surpresa. A partir daí, provei a linha básica inteira (só não consegui ainda provar o rosé, mas está na minha lista) e até me aventurei em uma garrafa da linha Reserva que estava em promoção. Não me decepcionei seriamente com nenhum dos seis vinhos que bebi – a consistência do padrão de qualidade da linha é bastante alta. Virei fã dos passarinhos. Além de os vinhos serem bons, os rótulos são muito bonitos. Cada vinho é batizado com o nome de um pássaro chileno, e o rótulo traz uma bela ilustração da ave.

Comecei pela linha básica (“Varietal”), que, segundo a enigmática expressão do produtor, passa por estágio em madeira “sólo cuando es necesario”. São vinhos leves, fáceis de beber, amigáveis e com ótima tipicidade considerando sua faixa de preços, ali em torno do R$ 23. O primeiro que provei, e o que mais gostei da linha básica, foi o Aves del Sur Golondrina Merlot 2014. A “golondrina” é nossa conhecida andorinha, pássaro migratório cujo reaparecimento está associado ao fim do inverno e à chegada da primavera. Daí a escolha da uva Merlot, que resulta em vinhos um pouco mais macios e menos austeros e assertivos do que outras tintas chilenas mais cultivadas. Comecei pelo Merlot porque acho, no caso de vinhos baratos, que a uva geralmente resulta em bebidas com menos defeitos e arestas do que outras variedades mais “parrudas”. O Golondrina Merlot 2014 apresenta complexidade acima do esperado nessa faixa de preços: há um frutado puxando para as frutas passas, como ameixas secas, complementado por expressivos toques de chocolate ao leite, alguma baunilha, mogno, leve defumação, traindo a passagem por carvalho. Na boca é correto, com pouca acidez (o que ressalta os tons tostados e achocolatados de forma agradável), macio sem ser enjoativo, com corpo medianamente intenso e taninos pouco expressivos. Uma ótima compra pelo conjunto.

Como sabemos, uma andorinha só não faz verão; então, fui procurar os outros vinhos da marca. Os dois outros tintos da linha básica me agradaram um pouco menos. O Aves del Sur Carpintero Cabernet Sauvignon 2014 traz no rótulo o simpático pica-pau como a indicar a força e a expressividade da variedade. O vinho de fato é mais assertivo que o Merlot, com acidez mais expressiva e taninos mais presentes, dando aquela sensação de adstringência na boca. Contudo, a complexidade aromática é um pouco menor: cassis, um tiquinho achocolatado, uma doçura de baunilha bem evidente, um toque mais herbal e fresco lembrando pimentões (mas não tanto quanto em outros Cabernet Sauvignon chilenos). No conjunto, achei-o menos interessante, mas ainda bem competente e acima de média para os Cabernets dessa faixa. Já o Aves del Sur Perdiz Carmenère 2014 tem como “mascote” a perdiz, uma ave terrestre, como a indicar o caráter mais terroso e herbal da Carmenère. De fato, o aroma predominante é o típico pimentão-verde dos Carmenères chilenos – alguns gostam pela “pegada” aromática mais intensa, mas eu já não sou muito fã. Há nuances frutadas (frutas vermelhas) e defumadas, mas nada muito expressivo. Na boca é menos ácido que o Cabernet, mas ainda com taninos bem perceptíveis. Foi o que menos me agradou de toda a linha, dentro todos os que provei –, mas há que se considerar que nunca fui muito fã dos Carmenères chilenos.

Se liga na rola, Malafaia!
Fonte: www.escrivinhos.com
Entre os brancos, algumas ótimas surpresas, com vinhos muito frescos, aromáticos e com ótima tipicidade, bons para quem quer conhecer as variedades de uvas sem gastar muito dinheiro. O Aves del Sur Tórtola Chardonnay 2014 traz a imagem da singela “tórtola”, nossa conhecida “rolinha” – aquela que o Silas Malafaia deveria ir procurar. O vinho é fresco e traz a tipicidade da Chardonnay: acidez mediana, suave para um branco, alguma doçura residual para alegrar o paladar, mas sem exageros, e uma paleta aromática convidativa de frutas amarelas maduras, lembrando mousse de maracujá (com aquela leve untuosidade amanteigada de muitos Chardonnays), muitos pêssegos maduros e até um toque de tangerina, com sólido acento floral. O álcool aparece mais do que deveria e há um amargor final um pouco incômodo, mas o conjunto é acima da média para o preço. Acompanhou perfeitamente um fondue de queijo. Por fim, o Aves del Sur Frutero Sauvignon Blanc 2014 é muito expressivo e aromático. A Sauvignon Blanc é conhecida pelos aromas frutados lembrando maracujá, mas, nessa faixa de preços, é difícil encontrar um vinho com tanto maracujá. Ao servir, parece que você abriu a fruta. Há ainda flores brancas e certo frescor de grama cortada. Muito bom no nariz. Na boca, é bem seco, com corpo leve, acidez relevante e um final novamente um pouco amargo e alcoólico, de um jeito incômodo, que diminui um pouco sua drinkability. Refrescante e muito encantador pelo aroma frutado. Ótima pedida para conhecer a uva.

Por fim, provei também o Aves del Sur Reserva Gavilán Syrah 2012. O rótulo traz estampado o gavião, ave nobre que indica o maior grau de elaboração da linha Reserva, que matura por 10 meses em barris de carvalho francês e mais 8 meses na garrafa. O vinho é cheio de personalidade. Notam-se imediatamente os aromas de especiarias da Syrah, sobretudo pimenta-do-Reino em forte intensidade. Outros aromas secundários escoltam o apimentado: ameixas passas, uma defumação bem evidente, certo toque de aceto balsâmico, alguma baunilha e chocolate ao leite. A mistura de acético, defumação e pimenta faz lembrar pimenta chipotle. Na boca é macio, com doçura levemente presente, uma certa acidez, um toque salgado e poucos taninos. Corpo levemente licoroso. É complexo, cheio de nuances aromáticas e de paladar, mas não perde a tipicidade da Syrah. Pelo preço promocional de R$ 29 em que o encontrei, foi uma excelente compra, mas vale bem os cerca de R$ 35 do preço normal.


Taí: uma linha de vinhos de distribuição ampla, preço bem acessível e boa qualidade. Como bônus, muitos rótulos de ótima tipicidade, ideais para quem quer conhecer as respectivas variedades de uvas. Eles têm alguns dos vícios de muitos vinhos chilenos: acidez relativamente baixa, uma certa doçura em alguns exemplares. Mas o toque da madeira é bem colocado, sem o excesso de outros sul-americanos. Virei consumidor habitual e estou exercendo, com prazer, a arte de beber barato. 

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Pegando pó: Westvleteren 12, dez anos depois

Conheci Luzia Pinta há 10 anos. Ela tem sido minha companhia fiel ao longo de toda a trajetória que venho trilhando desde então. Agora, com algum peso no coração, é chegada a hora de eu lhe dar adeus – ou, pelo menos, uma despedida digna e um até logo. Obviamente, sua despedida pede uma grande cerveja. Esta postagem é um brinde à força de caráter de Luzia e a tudo que ela me ensinou ao longo da última década.

Um brinde a Luzia

Não, Luzia Pinta não é minha esposa. Ela nasceu por volta do ano de 1695, na cidade de Luanda, que então era uma pequena colônia portuguesa em Angola. Nasceu como escrava e foi vendida muito jovem – provavelmente em torno dos 12 anos de idade – para um comerciante que a trouxe até o Brasil no porão de um navio negreiro. Trabalhou na Bahia e em Minas Gerais, onde conquistou sua liberdade. Muitos anos depois, acusada pela Inquisição de ser feiticeira (numa época em que isso era crime passível de punição judicial), foi presa e julgada em Lisboa entre 1742 e 1744. Cumpriu sua pena no sul de Portugal por 4 anos. A data de sua morte se perdeu no tempo. Terá voltado à África, sua terra natal, depois de cumprir os 4 anos de sua pena? Ou talvez a Minas Gerais, onde viveu a maior parte da vida e onde construiu suas relações sociais mais significativas? Ou terá passado seus últimos dias em Portugal mesmo, em terra de estranhos, hostilizada por tudo e todos? Provavelmente nunca saberemos.

Na década de 1630, o pintor holandês Zacharias Wagener 
representou uma dança que observara em Pernambuco, 
que provavelmente fazia parte de uma cerimônia de calundu.
Fonte: http://www.vermelho.org.br/noticia/242693-11
Luzia Pinta era uma sacerdotisa. Ou uma curandeira e adivinha. Chame como quiser. Na verdade, a palavra usada no século XVIII para se referir a pessoas como ela era “calunduzeira”. “Calundus” eram comuns na época do Brasil colonial, mas hoje já não existem mais em terras tupiniquins. Em Angola ainda são praticados até hoje. Eram cerimônias religiosas com dança e música de atabaques, durante as quais o corpo de Luzia Pinta era possuído pelos espíritos de seus ancestrais angolanos para que ela adivinhasse coisas ocultas e curasse os enfermos que a procuravam. A maior parte dos frequentadores de seus calundus era composta por escravos ou ex-escravos alforriados, mas Luzia também tratava de brancos ricos que, desencantados com os remédios da Igreja e da medicina, buscavam a espiritualidade africana para aliviar suas aflições.

Os calundus eram comuns no Brasil na época colonial. Em uma cidade como Ouro Preto, cuja população contava cerca de 50 mil habitantes na metade do século XVIII, talvez houvesse em torno de sete casas de calundus, segundo minhas estimativas. Mas os registros sobre essas cerimônias são menos comuns. Luzia Pinta deu o azar de ser processada pela Inquisição, ao contrário de dezenas de outros calunduzeiros como ela, e por isso temos acesso a uma descrição pormenorizada de suas cerimônias. Seu processo inquisitorial talvez seja o documento que nos traga mais informações sobre essa religião afro-brasileira que foi praticamente esquecida, apesar de ter sido a mais importante do Brasil durante quase dois séculos. Por isso mesmo, Luzia Pinta tem sido a personagem central de minha pesquisa como historiador nos últimos dez anos.

Dez anos de pesquisa, dez anos de guarda

Deparei-me com o processo inquisitorial de Luzia Pinta em 2005, quando ainda fazia pesquisa de Iniciação Científica durante minha graduação em História. Dez anos depois, em abril de 2015, finalmente ficou pronta minha tese de doutorado, resultado dessa longa pesquisa e dessa longa convivência com os vestígios de Luzia Pinta. A ocasião pedia um brinde especial, em homenagem a essa mulher extraordinária. Se eu passara 10 anos na inspiradora companhia de Luzia Pinta (ou você acha que teses de doutorado ficam prontas assim, num instante?), era justo que o final desse caminho fosse celebrado com uma cerveja que descansara durante os mesmos 10 anos na garrafa. Alguma cerveja que houvesse sido envasada lá atrás, na época em que conheci Luzia. Plano ambicioso, claro.

Ainda me lembro do choque que tomei ao beber pela 
primeira vez a potente Baden Baden Red Ale, numa época 
em que ninguém falava em cervejas artesanais.
Fonte: bierplatz.wordpress.com
O problema é que, em 2005, quando fui apresentado a Luzia, eu não bebia cervejas especiais. Quem viveu aquela época há de se lembrar: não se falava em cerveja artesanal no Brasil. Na maior parte dos bares cervejeiros em que você ia, o máximo que podia encontrar era uma Guinness ou uma Bohemia Confraria, de vez em quando. E que você se desse por satisfeito com isso. No supermercado, aqui ou ali aparecia uma fugidia garrafa de Baden Baden. E era isso. Se eu mal sabia que havia todo um vasto mundo para além da “loira gelada”, você já deve imaginar que eu não podia nem conceber a ideia de envelhecer uma cerveja por 10 anos. Isso para dizer que não havia, na minha adega, nenhuma garrafinha pegando pó desde a época do meu fatídico encontro com Luzia, em 2005.

Porém, por um lance de sorte, há uns 3 anos mais ou menos, o amigo Fabiana Pereira estava louco atrás de uma garrafa remanescente da lendária Biertruppe Vintage nº 1, e calhava de eu ter algumas ainda guardadas na adega desde a época do lançamento (em 2010). Em troca de uma garrafa da Biertruppe, ele me ofereceu uma Westvleteren 12. Pareceria uma troca um tanto desvantajosa para mim: OK, a Westy 12 é uma lenda, mas, ao contrário da Biertruppe, ainda está em produção e pode ser adquirida sem tanto esforço. Seria desvantajoso escambo, não fosse por um detalhe: o Fabiano, sabendo do meu fraco por cervejas de guarda, me ofereceu uma Westvleteren 12 envasada em 2005. Arrematei!

Em 2015, quando entreguei minha tese de doutorado e pus o ponto final em minha relação de 10 anos com Luzia Pinta, a garrafinha da Westy 12 também fazia 10 aninhos. Era a ocasião perfeita para abrir a garrafa. Os 10 anos de guarda haviam formado uma camada de sedimentos de quase um dedo de espessura! Eu não via a hora de saber como tinha ficado a cerveja lá dentro depois de tanto tempo!

A degustação

Para entender o que 10 anos fizeram à minha Westy, convém primeiro falarmos sobre as características que essa cerveja tem ao sair da fábrica, fresquinha. A Trappist Westvleteren 12 é a mais famosa das cervejas produzidas pela abadia trapista de São Sisto, na Bélgica. Existe toda uma aura em torno dessa cerveja (devido ao fato de ela já ter sido eleita algumas vezes como a melhor cerveja do mundo), e às vezes é difícil obter uma descrição minimamente objetiva, que não tenha sido contaminada pelo fetiche.

Já falei sobre ela aqui no blog antes (em uma comparação direta com a St. Bernardus Abt 12, sobre a qual reza a lenda – equivocada – de que teria a mesma receita da Westvleteren 12), mas retomo resumidamente as notas de degustação para quem não se lembra. A Trappist Westvleteren 12 é uma Belgian dark strong ale de portentoso teor alcoólico de 10,2%, com coloração mogno avermelhada e belo creme formando rendas. O aroma é complexo e maduro: o caramelado dos maltes e adjuntos da receita é complementado por uma avalanche de frutas maduras (maçãs vermelhas, uvas passas, mamão papaya, vinho tinto), especiarias doces (pimenta-do-Reino, cravo, alcaçuz, sementes de coentro discretas) e toques de mel aromático. Ela entra adocicada na boca, mas logo surpreende com um amargor assertivo que se prolonga em um final longo, austero, picante, amargo e seco, com sabor herbal de lúpulo. Ela é consideravelmente mais amarga que a maior parte das cervejas belgas do estilo, embora não seja aquele amargor ostensivo a que nos acostumamos com as cervejas norte-americanas. O corpo é mediano, mais seco do que o habitual para o estilo, mas licoroso e com um aquecimento picante bem-vindo. Complexa, picante, rústica, cheia de especiarias e frutas maduras. Um clássico, merecidamente. (Clique aqui para ver a avaliação completa)

A Westvleteren 12 é uma cerveja especialmente apta para guarda, se a compararmos com as demais Belgian dark strong ales: o teor alcoólico é bastante alto e o amargor de lúpulo é assertivo para o estilo (38 IBUs, contra uma média de 20 a 35), dando-lhe maior durabilidade na garrafa. Vão lá minhas anotações de degustação do exemplar com 10 anos de guarda:

Garrafa da edição especial vendida em 
supermercados (a que eu tomei era bem 
mais antiga que esta!).
Fonte: toquegirls.com

Estilo: Belgian dark strong ale (envelhecida)
Teor alcoólico original: 10.2%
Aparência: a coloração é acastanhada-atijolada, mais para o laranja do que na versão fresca. Transparente, mas com uma borra volumosa no fundo da garrafa, que eu tomei cuidado para não servir junto com o primeiro copo. O creme foi pouco volumoso, mas surpreendentemente persistente para sua idade.
Aromas: ao servir, destacou-se aquele cheiro doce de oxidação, lembrando plástico, e eu me lembro de ter pensado: “lascou, perdi a cerveja!”. Depois de uns 10 minutos na taça, porém, ela arejou e se abriu em um torvelinho de complexidade aromática, perceptível sobretudo na boca. O malte se aprofundou, saiu da mesmice do caramelo e ganhou tons torrados e macios: toffee, avelã, queimado, pão torrado e até chocolate ao leite. Maçãs vermelhas, mamão e uvas passam continuavam lá, mas com uma pegada mais de frutas cristalizadas, como num panetone. Especiarias doces ficaram ainda mais evidentes com o tempo, trazendo apimentado e alcaçuz. E um monte de aromas de evolução começaram a se desenvolver na taça em camadas: vinho do Porto, xerez, amadeirado, mentolado, carne assada. Um espetáculo de aromas de guarda.
Paladar: o amargor original da receita se atenuou muito, até quase sumir. A doçura continua lá, sem excessos, agora equilibrada pela picância e por uma sensação salgada muito definida que se desenvolveu com a guarda.
Sensação na boca: o corpo preservou-se muito bem ao longo dos anos (talvez tenha até espessado!), mostrando-se ainda intenso, cremoso e licoroso. A boa sensação alcoólica é ressaltada pela picância. A carbonatação é bem suave, como é de se esperar depois de 10 anos. A borra, se servida no copo, contribui com um pouco de adstringência, não de todo agradável.

(Clique aqui para ver a avaliação completa)

Logo que servi, achei que a cerveja não evoluíra muito bem. No nariz, o aroma de oxidação predominava de uma forma um pouco incômoda. Mas ela, que já tinha esperado 10 anos para ser degustada, me pediu para esperar só um pouquinho mais. Depois de arejar por uns 10 minutos, tornou-se complexa, bela e harmoniosa. É como se ela tivesse precisado desses 10 minutinhos na taça para “acordar” do longo sono. Na boca, mostrou ainda muito vigor e força. A complexidade das frutas e especiarias ainda era perceptível, mas complementada pelos toques amadeirados, licorosos e salgados da evolução. Seu rústico amargor havia desaparecido, mas uma pegada picante e salgada lhe deu um equilíbrio maduro e sóbrio. Ótima experiência!

O gráfico abaixo resume as principais diferenças entre a versão fresca da Westvleteren 12 e a garrafa que degustei, envelhecida por 10 anos:


Alguns resultados eram esperados: o amargor diminuiu e a sensação salgada e a doçura aumentaram, o que é típico de longos períodos de guarda. Ésteres (frutas) e fenóis (especiarias) se suavizaram levemente, mas ainda estavam surpreendentemente preservados. Aromas terciários de evolução (madeira, carne assada, vinho do Porto, xerez, mentol), quase sempre as estrelas de uma cerveja envelhecida, se desenvolveram com o tempo. O que me surpreendeu foi o desempenho do corpo, ainda cremoso e intenso mesmo depois de 10 anos. Creio que a autólise das leveduras tenha potencializado sua sensação de cremosidade. Ela também me deu uma lição importante: algumas cervejas envelhecidas precisam arejar por um tempinho depois de serem abertas. Eu havia passado por algumas más experiência com garrafas envelhecidas que não evoluíram bem e, quando abri a Westy 12, achei que ela seria mais uma delas. Mas, depois de dar-lhe um pouco de tempo na taça, ela melhorou dramaticamente.

Qual é a melhor? A Westvleteren 12, fresca, é uma baita cerveja, de modo que é difícil comparar. São duas propostas, para dois gostos bem distintos. Apreciar a versão envelhecida exige uma certa queda por cerveja evoluídas, com todas as “esquisitices” que elas possam manifestar – a licorosidade acentuada, a sensação salgada, o baixo amargor, o aroma característico de oxidação. Olhando minha pontuação pessoal para as duas, percebo que dei um pontinho a mais para a versão envelhecida (96 contra 95, de um máximo de 100), mas isso diz muito pouco: é questão de gosto, de ocasião. O melhor é você fazer a prova você mesmo: hoje em dia, não é mais tão difícil comprar a Westvleteren 12 no Brasil. Que tal, numa ocasião especial, se presentear com uma garrafa e “esquecer” dela dentro da adega por 10 anos? O difícil, claro, vai ser resistir à tentação de abri-la antes da hora!

A Westvleteren 12 envelhecida foi meu brinde à força e à integridade de caráter de Luzia Pinta, que viveu uma vida de sofrimentos sob a escravidão e, apesar de perseguida, soube ouvir o chamado de seus antepassados e resgatar a conexão espiritual com suas origens. Luzia nos deixou o testemunho de pessoas que enfrentaram o sofrimento e a opressão unidas como uma grande família espiritual sob a sombra da ancestralidade africana. Sabendo-se que ela foi simultaneamente devota dos espíritos de seus antepassados e também do Deus e dos santos católicos, acho mais que apropriado que sua memória tenha sido honrada por uma grande cerveja produzida por monges. A Igreja católica certamente tem muito a se desculpar com ela na pós-vida – se houver alguma.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Três barris de petróleo

É, o preço do barril de petróleo teve uma queda vertiginosa no mercado mundial de um ano para cá, disso nós sabemos. Mas não é desse barril que falaremos hoje. Refiro-me, pelo contrário, a um tipo de barril que parece estar cada vez mais em voga no nosso mercado cervejeiro nacional (e com tendência de alta nos preços): a barrica de madeira usada na maturação e envelhecimento de cervejas. Depois de a Bodebrown despontar no ano passado com o excelente nível dos rótulos de sua Wood-Aged Series, em 2015 foi a vez de outra microcervejaria curitibana, a DUM, roubar os holofotes. Durante o Festival Brasileiro de Cerveja de 2015, a micro lançou um conjunto de três versões de sua prestigiada Russian imperial stout Petroleum, cada uma das quais envelhecida em um barril de um tipo diferente de madeira.

Duas cachaças da Porto Morretes. A “Ouro” (amarelinha) 
é envelhecida em barris de madeira.
Fonte: www.flickr.com/photos/organicsnet
O projeto é o fruto de uma parceria da DUM com a cachaçaria Porto Morretes, do PR, e contou com consultoria do professor da UFPR Agenor Maccari Júnior, que é especialista no uso de madeiras brasileiras na produção de bebidas alcoólicas. A princípio, foram selecionados três barris de diferentes madeiras e diferentes intensidades de tosta, todos usados anteriormente para a maturação das cachaças da Porto Morretes. O resultado foi lançado comercialmente em um kit contendo 4 garrafas: uma versão convencional da Petroleum e mais uma garrafa de cada uma das três versões envelhecidas em diferentes barris. O kit chegou ao consumidor na faixa dos R$ 120. Levando-se em conta que a Petroleum convencional chegava então ao consumidor (paulista) custando pouco acima de R$ 20, isso significa que cada uma das versões com maturação em barris custou um pouco mais de R$ 30. Na minha opinião, um preço dentro dos padrões do nosso mercado.

Já falei aqui no blog que um dos maiores diferenciais da indústria de bebidas alcoólicas no Brasil é o uso corrente e corriqueiro de diversos tipos de madeira para maturação e envelhecimento, diferentemente de outros países, que tendem a se concentrar no carvalho. Acho natural, e bastante interessante, que a nossa indústria cervejeira se valha desse expediente. Lá fora, quando se quer obter variações de wood-aged beers, costuma-se usar barris previamente utilizados para o envelhecimento de diferentes bebidas (barril de vinho tinto, barril de uísque, barril de Bourbon, barril de vinho do Porto, e por aí vamos), mas quase sempre de carvalho. A secular indústria brasileira da cachaça traz todo um horizonte de novas madeiras nativas a explorar: amburana, amendoim, jequitibá, araruva, cabreúva ou bálsamo, ipê, castanheira, entre outras. E o melhor é que cada madeira tem um impacto sensorial diferente sobre a bebida. Acredito que nossas micros podem se destacar internacionalmente pelo uso consciente de toda essa biodiversidade.

O que a madeira faz pela minha cerveja?

O experimento da DUM consistiu em maturar sua Petroleum em barris de três madeiras diferentes, todos oriundos da Porto Morretes: o primeiro de umburana, com tosta intensa, o segundo de castanheira do Pará (com tosta mediana, pelo que entendi), e o terceiro de carvalho francês, com tosta leve. O resultado são três cervejas muito diferentes entre si, que servem para quebrar aquele velho mito de que a cerveja maturada em barris usados previamente para alguma outra bebida vai necessariamente “pegar o gosto da bebida”. Fala-se que cervejas maturadas em barris de uísque têm gosto de uísque, cervejas maturadas em barris de vinho tinto têm gosto de vinho tinto, e assim por diante. Se isso explicasse toda a história, todas as três Petroleum teriam o mesmo “gosto de cachaça” – o que está muito longe da verdade.

Há mil fatores que influenciam o impacto da madeira sobre uma bebida – o tipo e origem da madeira, o processo de limpeza usado para reutilizar o barril, o tipo de tosta empregada no interior do barril, o tamanho do barril, o número de vezes que o barril já foi usado, o tempo durante o qual a cerveja ficou no barril, entre vários outros fatores mais ou menos imponderáveis, como a porosidade de cada barril específico e a microflora local instalada na madeira. Há um universo de variáveis que podem ser manipuladas para alterar consideravelmente o resultado final. Precisamos parar de dar tanta atenção à questão da procedência do barril (o “barril da bebida X” ou o “barril da destilaria Y”) e começar a considerar de forma mais sistemática todas essas outras variáveis fundamentais, como já se faz com outras bebidas há muito mais tempo. Só assim os produtores de cerveja poderão amadurecer as técnicas de emprego de madeira e gerar produtos cada vez mais consistentes e interessantes.

Os enormes tonéis de madeira usados na produção da 
Greene King Strong Suffolk Ale. Obviamente, um tonel 
desse tamanho (e dessa idade) tem um impacto sobre 
a cerveja muito diferente de uma barrica nova 
de carvalho de 200 litros.
Fonte: http://www.beer-pages.com/stories/strong-suffolk.htm
Mas, antes de entender as diferenças entre as três versões da DUM Petroleum, convém tentarmos mapear um pouco melhor os efeitos da madeira sobre as cervejas. O que o envelhecimento em madeira pode oferecer a uma cerveja? Historicamente, o envelhecimento de cervejas em madeira era usado no Velho Mundo por dois motivos: para conferir uma acidez agradável e traços selvagens à cerveja (já que a madeira abrigava micro-organismos responsáveis pela acidificação da bebida), e para induzir o envelhecimento da cerveja (já que o barril de madeira propicia uma micro-oxigenação do líquido, acelerando os processos de oxidação e evolução). Era basicamente para isso que a madeira servia na produção das sour ales belgas e das stock e old ales inglesas.

Ocorre que, além desses dois efeitos, a madeira também transmite à cerveja uma série de novos compostos aromáticos, dentre os quais se destacam os aromas de baunilha (tipicamente associados ao carvalho), as notas de especiarias e os toques de defumação e torrefação que podem advir da tosta da madeira. Cada madeira e cada tipo de tosta oferecerá uma combinação única de sabores e aromas. Foram provavelmente os cervejeiros norte-americanos, a partir dos anos 1990, que colocaram em primeiro plano esses aromas “amadeirados”, buscando enfatizá-los em suas primeiras barrel-aged beers e dando-lhes até mais importância do que a acidez e a micro-oxigenação. Em certa medida, essa tendência mimetizou o que ocorreu também com os vinhos estadunidenses e americanos, em geral, que buscaram reafirmar sua identidade perante os vinhos europeus por meio da pegada intensamente amadeirada do carvalho – ainda mais levando-se em conta a suculência e a doçura abaunilhada que são típicas das variedades nativas americanas de carvalho.

Como resultado dessa “madeirização” das wood-aged beers por parte das microcervejarias americanas, passou a haver o entendimento de que a principal característica da cerveja maturada em barris era o aroma de madeira (e não o perfil selvagem ou de envelhecimento). O tempo durante o qual a cerveja ficava dentro do barril também diminuiu consideravelmente, já que o sabor amadeirado se desenvolve mais rapidamente do que os perfis selvagem e de evolução. Wood-aged beer virou praticamente sinônimo de cerveja abaunilhada. E havia um estilo de cerveja que combinou especialmente bem com a intensidade dos aromas doces e abaunilhados do carvalho americano: a Russian imperial stout. A combinação entre baunilha, café e chocolate mostrou-se tão irresistível quanto aquele pudim de chocolate que insiste em nos tentar ao final da refeição, mesmo que saibamos que já estamos saciados. Em pouco tempo, as Russian imperial stouts se tornaram as escolhas prioritárias das cervejarias norte-americanas para o envelhecimento em madeira. Estava praticamente criado um novo, indulgente e delicioso estilo: a barrel-aged Russian imperial stout.

DUM Petroleum em três versões

Foi essa tradição de imperial stouts americanas envelhecidas em barris que serviu de inspiração para o kit da DUM. A graça do experimento foi ver o impacto da madeira em si na cerveja. Mas o “twist” brasileiro foi o uso de duas madeiras nativas (a amburana e a castanheira do Pará) em adição ao carvalho francês. A cervejaria não informa quanto tempo a cerveja passou no interior dos barris – mas, a julgar pela ausência de traços de evolução e envelhecimento, eu diria que não deve ter ultrapassado muito os 6 meses. Vejamos o que cada um dos barris agregou à cerveja – mas, antes, vale a pena falar um pouquinho sobre a versão original (que também vem no kit).

O kit contendo a versão original (à esquerda) e as 
três versões maturadas em madeira.
Fonte: www.dumcervejaria.com.br
A versão original da DUM Petroleum é uma das queridinhas do público brasileiro, e já se tornou um clássico apesar de seu lançamento relativamente recente. Na taça, apresenta uma coloração preta intensa, totalmente opaca, com espuma marrom escura de baixa formação e uma viscosidade aparente só de se olhar. O aroma explode em tons torrados e queimados, que se desenvolvem sobre um fundo frutado e lupulado. Café, chocolate amargo e madeira queimada predominam, com um certo acento mineral, mas é possível notar com clareza o frescor do lúpulo lembrando capim-cidreira, além de notas de bananas passas. Não tem a doçura dos maltes torrados que encontramos em outras imperial stouts: este é um exemplar rústico, em que a secura do torrado fala mais alto do que a riqueza do chocolate ou do caramelo. Predomina claramente o amargor, inicialmente convivendo com uma breve doçura mas terminando em um final muito seco, com amargor intenso e um pouco rascante a agressivo na minha opinião. O aquecimento alcoólico é expressivo e o corpo é incrivelmente espesso e viscoso, devido ao uso da aveia na receita. (clique aqui para ver a avaliação completa) A DUM Petroleum não deve ser confundida com a Wäls Petroleum, que é a versão da mesma cerveja produzida pela mineira Wäls, pois a paranaense tem maior índice de IBUs (amargor) e se mostra mais seca e lupulada do que a mineira. Para mim, a versão da DUM é a típica cerveja que demanda um certo envelhecimento: recém-saída da fábrica, ela tem um amargor um pouco agressivo e um perfil de maltes que poderia ser mais rico. Tenho uma garrafinha pegando pó na minha adega e tenho a impressão de que ela ficará mais interessante depois de descansar por uns dois aninhos na garrafa.

A DUM Petroleum Castanheira foi maturada em barris de castanheira do Pará, aparentemente com tosta média. A aparência é semelhante, mas com espuma menos volumosa, o que é comum em cervejas envelhecidas em barris. O perfil de maltes continua lá, em primeiro plano, com muito queimado, café e chocolate amargo, mas a madeira interagiu pouco com esses sabores. Desenvolveu-se, paralelamente, um aroma mineral interessante ainda que um pouco “cru”, que lembra amêndoas cruas, além de leve apimentado e algo que lembra móveis coloniais, tudo vindo da castanheira. O barril trouxe um aroma bem perceptível de cachaça à cerveja, junto com um ardor químico e solvente um pouco desagradável. As frutas passas ainda estão lá, lembrando uvas passas, mas o herbal de lúpulo praticamente sumiu. Na boca, talvez um tiquinho a mais de doçura do que na versão comum, mas o mesmo final bem seco e amargo. O corpo é intenso, mas talvez tenha afinado levemente. No conjunto, esta foi a versão em que a madeira se imprimiu de forma menos evidente na cerveja, que continuou com um perfil bem seco e amargo, um tanto rústico demais para o meu paladar. O efeito é interessante, mas eu achei a menos bem resolvida das três versões. (clique aqui para ver a avaliação completa)

A versão maturada em amburana.
Fonte: http://www.instagramal.com/photo/wdsonb
A DUM Petroleum Amburana apresentou uma interessante variação: as outras cervejas maturadas em amburana que temos no nosso mercado costumam ser mais doces e ricas, e a DUM ofereceu uma interpretação em que a amburana se mesclou a uma receita mais rústica, amarga e seca. A aparência segue a linha dos demais rótulos do kit, com espuma menos volumosa. No nariz, ainda predomina inicialmente o malte torrado (café, chocolate amargo, cinzas, madeira queimada), mas a madeira vai ficando mais e mais pronunciada à medida que a cerveja esquenta e areja, oferecendo aromas de coco queimado, mobiliário colonial, cachaça, canela e um toque de defumação (refletindo a tosta intensa do barril). Nada muito intenso, mas com boa complexidade. Também apareceu um forte floral, não sei se da madeira. A madeira parece ter substituído os aromas menos intensos da cerveja: o frutado e o herbal quase desapareceram. Na boca, a amburana trouxe um toque bem breve de doçura na entrada e um final um pouco menos seco, que na minha opinião equilibraram melhor a Petroleum, apesar de ainda se sentir o amargor um pouco rascante. Corpo intenso, com sensação alcoólica um pouco exagerada que diminuiu a drinkability. Na minha opinião, aqui a madeira exerceu um impacto intermediário sobre a cerveja-base: nem tão sutil quanto na Castanheira, nem tão intenso quanto no Carvalho Francês. Boa complexidade, mas talvez a secura da cerveja e a tosta intensa do barril tenham impedido a amburana de demonstrar toda a sua exuberância. (clique aqui para ver a avaliação completa)

Na minha opinião, a DUM Petroleum Carvalho Francês foi a versão que apresentou o melhor resultado final dentre as três do kit. A madeira mostrou-se rica e envolvente, ressaltando as frutas e amaciando a torrefação, dando à Petroleum exatamente aquilo que eu acho que a complementou de forma mais harmônica, para o meu paladar. No aroma, a forte baunilha interagiu com o perfil de maltes, puxando-o mais para o chocolate, ainda que o café e o queimado estivessem bem evidentes. A madeira ressaltou deliciosamente as frutas, fazendo aparecerem notas de banana passas, uvas passas e até um quê de cerejas ao marrasquino, e dando aos maltes ares de bolo inglês. Leve floral, apimentado e um toque de defumação complementaram a complexidade da madeira. O herbal do lúpulo quase desapareceu. Na boca, a baunilha e as frutas lhe deram doçura mais intensa, conduzindo a um final em que o amargor ainda predomina, mas bem escoltado pela doçura, de forma muito bem equilibrada. O corpo é intenso e a sensação alcoólica é inclemente, mas o melhor equilíbrio entre doçura e amargor lhe deu maior drinkability. Aqui, a cerveja e a madeira fizeram um casamento perfeito: a potência torrada e frutada da cerveja se mesclou de forma admirável ao forte abaunilhado, e ao mesmo tempo a doçura da madeira equilibrou a secura agressiva da Petroleum. Excelente conjunto: para mim, a melhor do kit. (clique aqui para ver a avaliação completa)

O gráfico abaixo permite visualizar as principais diferenças entre as três versões da Petroleum envelhecida em madeiras:


Como se vê, as três madeiras apresentaram perfis bastante diferentes. O carvalho mostrou-se mais doce, envolvente, frutado e abaunilhado, atenuando um pouco a força da torrado. A castanheira, por sua vez, preservou e até acentuou a torrefação, o amargor e a secura da receita, mostrando-se mais mineral, com um toque de cachaça mais perceptível. Já a amburana ficou numa espécie de ponto intermediário: nem tão doce quanto o carvalho, nem tão rústica e mineral quanto a castanheira. Para o meu paladar, o carvalho forneceu o complemente perfeito para a intensidade seca e torrada da Petroleum. Acompanhando a repercussão do kit pelo Untappd, é possível verificar que uma parcela expressiva dos consumidores também parece ter gostado mais do carvalho. Por outro lado, também ouvi muitos comentários elogiosos a respeito da castanheira em outras redes sociais. Talvez não à toa, os elogios tenderam a se concentrar nas madeiras com perfis mais opostos, de modo que a amburana acabou sendo percebida como menos marcante.


O kit da Petroleum põe ao alcance do consumidor um experimento muito instigante, e nos dá a certeza de que ainda há muito a se explorar, do ponto de vista técnico e sensorial, quando se fala na maturação de cervejas em barris de madeira. A degustação do kit reforça a convicção que há uma madeira perfeita, uma tosta perfeita, um barril perfeito, esperando para fazer o casamento ideal com cada receita de cerveja, como duas almas gêmeas que irão se complementar na lua-de-mel – digo, na maturação! Como eu já disse aqui antes, o horizonte está aberto e a experimentação está apenas começando.