terça-feira, 22 de julho de 2014

Um ano prolífico para a Wäls - Parte I: Pesos-pena

Quem acompanha este blog provavelmente já sabe da minha profunda admiração pela microcervejaria mineira Wäls, sobre a qual já escrevi aqui e que, para mim, sempre figurou entre as 3 melhores cervejarias nacionais pelo conjunto da obra. A cervejaria iniciou suas atividades em um distante 1999, mas despontou no cenário nacional em 2007, com o lançamento de sua hoje premiadíssima Dubbel. O último ano trouxe uma série de novidades e eventos marcantes para a Wäls – no bom e também no mau sentido, infelizmente – e, acima de tudo, um montão de novas cervejas sobre as quais quero falar nesta postagem e na próxima.

Altos e baixos

Pelo menos este caneco é nosso...
Fonte: revistabeerart.com
Em abril de 2014, a Wäls realizou um feito inédito para as cervejarias brasileiras: conquistar o maior prêmio do concorridíssimo World Beer Cup, concurso realizado anualmente nos EUA e que talvez tenha peso maior do que qualquer outro certame realizado no mundo. Aliás, dois prêmios de uma só vez: uma medalha de ouro para a Wäls Dubbel na categoria “Belgian-style Dubbel” e uma medalha de prata para a Wäls Quadruppel, na categoria “Belgian-style Ale”. Difícil saber qual medalha é mais significativa. Claro que o ouro é a consagração máxima, mas a prata da Quadruppel foi obtida numa categoria mais difícil, concorrendo com uma ampla gama de cervejas de inspiração belga sem estilo definido. A honra de ser uma cervejaria brasileira premiada nesse concurso é dividida apenas com a Eisenbahn, que conquistara uma prata em 2008 com sua Dunkel. A premiação veio em ótima hora, já que a Wäls começou a exportar para os EUA e planeja produzir em território americano em breve.

No mesmo ano em que a Wäls atingiu seu máximo reconhecimento, porém, também teve aquele que talvez tenha sido o mais duro golpe em sua imagem no mercado nacional. Desde 2009, quando do lançamento da Quadruppel, a Wäls comercializa algumas cervejas de sua linha em garrafas de vidro verde com rolha. A princípio, as rolhas eram de cortiça natural – e, devo dizer, eram dificílimas de se remover. Depois, a cervejaria trocou a cortiça por rolhas de um material sintético. E a perda do charme da cortiça não foi a única consequência. Cerca de um ano atrás, o fornecedor das rolhas mudou a composição do material, e o pesadelo começou. As garrafas arrolhadas começaram a exibir repetidamente sintomas de oxidação, perda de carbonatação e contaminação bacteriana. Aparentemente, o novo material tinha problemas de vedação. As reclamações começaram a chover, e comprar cervejas arrolhadas da Wäls tornou-se quase uma loteria. Eu mesmo cheguei a tomar pelo menos uma garrafa totalmente comprometida. O blog O Mosto Crítico escreveu uma matéria sobre isso que conta todos os detalhes. A cervejaria veio a público explicando o problema e dizendo que o material das rolhas já havia sido trocado por um outro, que não exibe o mesmo problema. Todas as garrafas envasadas a partir de março de 2014 já saíram de fábrica com o material novo. Mas as garrafas “de loteria” ainda estão por aí, nos pontos de venda, esperando para surpreender consumidores incautos.

Os últimos 12 meses, porém, não foram só marcados por conquistas e polêmicas envolvendo a cervejaria. Desde agosto de 2013, a Wäls tem lançado uma enxurrada de novas cervejas, e é sobre elas que eu quero falar aqui. Desde o lançamento da Dubbel em 2007, a Wäls vinha se especializando em estilos belgas. Mas, como não é novidade para ninguém, 2013 foi o ano da escola americana e das IPAs no Brasil. E a Wäls entrou na tendência, lançando um monte de novas receitas, a maior parte das quais inspirada em estilos yankees. Tentei provar todas, mas, sinceramente, o ritmo de lançamentos foi tão intenso que tive de deixar de fora uma: a Wäls Have a Nice Saison, saison de natal feita com exclusividade para o clube de cervejas Have a Nice Beer. Mas não vai faltar cerveja para abordarmos!

Leves e refrescantes

Fonte: screamyell.com.br
Curiosamente, os novos lançamentos da Wäls podem ser divididos em cervejas leves e refrescantes, por um lado, e cervejas pesadas e intensas, por outro. 8 ou 80. Comecemos pelas primeiras. A Wäls Stadt Jever homenageia o bar homônimo, localizado em Belo Horizonte e de propriedade da família Carneiro, a mesma que comanda a Wäls. A receita é uma lager sutilmente tostada, à semelhança de uma Vienna lager, com dry hopping de uma variedade de lúpulo alemã chamada “Mandarina bavaria”. Traz coloração dourada bem escura, quase alaranjada, e bom creme. No aroma, predominam as sensações trazidas pelo lúpulo Mandarina, com sensação floral/herbal tipicamente alemã (lembrando gerânios, lavanda, mentol e alecrim) acompanhada de notas cítricas (laranja e limão) e um aroma marcante de petróleo. Pão integral e castanha de caju denunciam a leve tosta do malte, e um toque de fermento ressalta a impressão de panificação. Há um breve ataque de doçura na boca, mas predomina um amargor preciso e refrescante, que termina num final oleoso e levemente salgado, muito apetitoso. O corpo é leve para mediano, com alguma cremosidade. Ótima cerveja para se beber às talagadas, de preferência embalada por uma boa conversa em mesa de bar e uma carne grelhada sequinha. (Clique aqui para ver a avaliação completa)

Verdade seja dita: o blog Calmantes com 
Champagne 2.0 manda muito bem 
nas fotos de cervejas.
Fonte: screamyell.com.br
A Wäls Verano é uma American pale ale com um interessante toque maltado lembrando a escola alemã. No copo, apresenta cor âmbar escura, levemente acobreada, com levíssima turbidez. Há um dueto afinado entre o malte e o lúpulo, numa receita que prima pelo equilíbrio entre os ingredientes. O malte traz uma riqueza e profundidade de sabores atípicos para o estilo, lembrando até uma pilsner tcheca com seus tons de panificação, massa fresca e mel. O lúpulo traz uma primeira investida cítrica e herbal, bem americana, com mousse de maracujá, capim fresco e laranja, mas depois vai abrindo um aroma mais floral, com rosas, camomila e tons apimentados que reforça ainda mais a semelhança com uma Bohemia pilsner. A cervejaria divulga apenas o lúpulo Columbus, mas eu tive uma impressão muito forte da variedade tcheca Saaz. Doçura e amargor se alternam na boca e conduzem a um final em que ambos se dão as mãos em equilíbrio. O corpo é leve, aguado e refrescante, com aquela sensação de limpeza de paladar advinda da baixa mineralização da água, lembrando mais o final de uma lager do que de uma pale ale. Cerveja equilibrada e de bom drinkability, com curiosa mistura de elementos da escola americana e alemã mas sem grande destaque. (Clique aqui para ver a avaliação completa)


Devidamente harmonizada com um hambúrguer da casa.
Fonte: vejabh.abril.com.br
A Wäls Duke’n’Duke Jazzy Pale Ale foi feita para a hamburgueria Duke’n’Duke, em Belo Horizonte (que, aliás, vale muito a visita pelo ambiente, pela trilha sonora jazzística e pelas batatas fritas matadoras). Confesso que não entendi o estilo. A cerveja se autointitula “pale ale”, mas é uma lager. Refere-se ao estilo inglês, mas é mais clara que uma English pale ale tem lúpulos com forte acento “novo-mundista”. Que seja. No copo, mostra um dourado bem escura, já pendendo ao âmbar. No aroma, o predomínio é dos lúpulos, de perfil bem cítrico e herbal, lembrando um pouco a deliciosa variedade Sorachi Ace. Lichia, lima-da-pérsia, capim-limão, pinho e gerânios convivem com toques de pimenta e laranja, em ótima complexidade. O malte traz pão branco e mel. Ela entra amarga na boca, segue-se uma doçura maltada ao engolir e, ao final, persiste novamente um amargor oleoso que, no entanto, é um pouco inexpressivo. O corpo é leve para mediano, mais seco que uma English pale ale, com textura pouco marcante. Acredito que, se o intuito era harmonizar com os hambúrgueres da Duke’n’Duke, um perfil de malte levemente mais tostado, mais na linha inglesa, teria caído bem. (Clique aqui para ver a avaliação completa)

Uma session convincente

A mais recente das cervejas leves e refrescantes da Wäls segue a tendência atual das chamadas “session beers”, receitas de teor alcoólico mais baixo, pensadas para serem bebidas em grande quantidade. Você pode perfeitamente chamar estilos tradicionalmente mais leves de session beers, mas o termo tem sido usado recentemente para versões de baixo teor alcoólico de outros estilos normalmente mais intensos. Tenho minhas reservas em relação ao conceito, como ele tem sido posto em prática pelas micros nacionais. Para que uma session beer cumprisse adequadamente seu papel, que é o de ser bebida em quantidade, ela precisaria ter preço mais baixo, mas não é isso que tem ocorrido com as session artesanais brasileiras. Aí fica difícil.

Fonte: gastrolandia.uol.com.br
Mas, à parte essa minha reserva de degustador de renda restrita, do ponto de vista meramente sensorial, a Wäls, Session! Citra IPA é um espetáculo. A receita coroou com perfeição os intuitos da Wäls de lançar uma cerveja leve e de alta drinkability dentro da escola norte-americana. A impressão que dá é que as receitas anteriores haviam sido como “testes” para esta - que foi bem mais divulgada, diga-se de passagem. A cervejaria usa apenas o lúpulo Citra, visivelmente mais em dry-hopping do que na fervura, resultando em amargor gentil e aroma profuso e vívido. Muitas frutas cítricas, com notas de maracujá, limão e uma lichia perfumada com nuances petroquímicas (que lembra vinhos brancos feitos com a deliciosa uva Gewürtztraminer), e também muito herbal, com capim fresco, cidreira e pinheiro, além de um toque de lavanda. O malte, sugerindo pão branco, ainda se faz sentir.

Mas é na boca que vem a verdadeira surpresa: o corpo é muito leve, crocante, aguado num bom sentido, com um final de boca extremamente limpo e leve. Há uma refrescante acidez cítrica inicial, mas depois predomina um amargor gentil que persiste elegantemente na boca, e não na garganta, como é mais comum ocorrer com IPAs. O toque de mestre da receita (além da extração virtuosa de tanta complexidade do lúpulo Citra) foi a baixa mineralização da água, que deixou a Session! Citra IPA com uma sensação leve como pluma na boca, com final levíssima que convida a beber em talagadas. Acredito que a Wäls realmente conseguiu imprimir um diferencial “session” nesta receita, diferentemente do que acontece com outras session beers que simplesmente têm teor alcoólico mais baixo, mas não trazem nada que chame atenção na boca. Para mim, um dos melhores lançamentos nacionais de 2014 até agora – e olha que eu nem sou muito chegado nessas novas “session beers”! (Clique aqui para ver a avaliação completa)

Na próxima postagem, falaremos sobre os novos lançamentos pesos-pesados da Wäls, incluindo a receita de maior teor alcoólico da cervejaria até o momento! Também falaremos sobre as surpresas que tive em minha última visita à fábrica. Não perca!


terça-feira, 1 de julho de 2014

Yes, nós somos selvagens! - Way Beer Sour Me Not

Há algum tempo eu tinha escrito aqui uma postagem sobre o desolador cenário do mercado de cervejas brasileiras para quem, como eu, é fã de sour ales. Reclamei da virtual inexistência de cervejas selvagens produzidas pelas cervejarias nacionais, salvo raríssimas exceções de rótulos praticamente inacessíveis ao consumidor comum – seja por não serem distribuídos comercialmente, seja pelo preço abusivo. As sour ales são um grupo de estilos cervejeiros em franca ascensão no mercado mundial, mas o Brasil parecia estar dormindo no ponto – mesmo apesar da tradição de fermentados selvagens autóctones que temos em terras brasílicas.

A linha Sour Me Not, da cervejaria Way.
Fonte: www.beershow.com.br
Isso foi em janeiro deste ano. Seis meses atrás. Hoje posso me alegrar em dizer que já há sinais de que as cervejarias nacionais estão despertando para as fascinantes contribuições que micro-organismos como as Brettanomyces, os Lactobacillus ou os Pediococcus podem dar às cervejas ditas “selvagens” ou “azedas”. Neste ano, tenho visto cervejarias se movimentando para produzirem rótulos com fermentação lática, com adição de Brettanomyces e até sour ales tradicionais “completas”, com maturação em madeira, que provavelmente ainda demorarão alguns anos para atingir as prateleiras. Em março, no Festival Brasileiro de Cerveja, foi possível ver os primeiros sinais desse despertar selvagem. Os primeiros frutos a chegarem ao consumidor regular foram as cervejas da linha Sour Me Not, lançada pela microcervajaria Way, da região metropolitana de Curitiba, às quais quero dedicar o texto de hoje.

Sour Me Not

A microcervejaria Way Beer tem se destacado no mercado nacional por produzir estilos cervejeiros modernos, sintonizados com tendências globais, e também por colocar seus lançamentos no mercado com boa distribuição e preços interessantes. A linha Sour Me Not não foge da regra. Trata-se de três cervejas fermentadas com uma cultura mista de Saccharomyces (leveduras cervejeiras tradicionais), Pediococcus e Lactobacillus (bactérias produtoras da ácido lático). As três usam a mesma receita-base, que possui um baixo teor alcoólico de 3,5% e lupulagem muito discreta, e se diferenciam pela posterior adição de frutas – morango, graviola e acerola. A cervejaria chegou a testar 15 frutas diferentes e optou por essas 3 para o lançamento da linha, mas já prepara novos rótulos com outras frutas.

Para quem não está familiarizado com a enorme variedade de estilos de cervejas selvagens, vale a pena fazer alguns adendos, até para desmistificar informações equivocadas que vejo circularem por aí. Essas não são cervejas de fermentação espontânea – as bactérias são adicionadas no processo produtivo de forma controlada, lado a lado com as leveduras tradicionais de ales. Também não recebem adição de Brettanomyces e, portanto, não desenvolvem as duas características associadas a essas leveduras: superatenuação e compostos fenólicos de aromas animais. Sendo assim, as cervejas da linha Sour Me Not não têm praticamente nada a ver com fruit lambics, que fermentam espontaneamente e têm as Brettanomyces como protagonistas em seu perfil sensorial. Por favor, corrija quem quer que você escute falando essa bobagem.

Berliner Weisse, com adição de xaropes aromatizantes.
Fonte: www.lecker.de
Na verdade, se quisermos aproximar as cervejas da Way de algum estilo selvagem tradicional, o modelo mais próximo talvez sejam as Berliner Weisse, as cervejas de trigo da região de Berlim, que contam com fermentação lática. Em comum com o estilo alemão, as cervejas da Way possuem o baixo teor alcoólico, a refrescante acidez lática, a ausência de Brettanomyces (resultando em um aroma mais simples e direto) e o sabor perceptível de maltes claros. A diferença é que as Way levam adição de frutas (morango, acerola e graviola) após a fermentação. Na verdade, a cervejaria usa a polpa pasteurizada das frutas, imagino que para evitar contaminação com outros tipos de micro-organismos, incluindo eventuais Brettanomyces residentes nas cascas das frutas in natura.

As três azedas da Way

Comecemos pelas características comuns aos três rótulos da linha, que não são poucas, já que todos usam a mesma receita-base. Na verdade, é possível encarar as Way Sour Me Not não como cervejas totalmente diferentes, mas como variações de uma mesma cerveja – mais ou menos como se faz quando se adicionam diferentes aromatizantes a uma mesma Berliner Weisse.

Not for babies.
Fonte: my10online.com/
Aviso aos navegantes: essas não são sour ales suaves e amigáveis. Em todas elas, a acidez lática é assertiva e chega até a ser agressiva em alguns momentos, o que certamente vai incomodar quem não está acostumado com esse tipo de cerveja. Não acho que sejam boas portas de entrada para o mundo das cervejas selvagens, portanto. Contudo, a receita-base traz bastante doçura de malte com o intuito de equilibrar a acidez – as cervejas não são tão secas quanto sugere a descrição comercial do rótulo, e nem de longe tão secas quanto uma lambic. Todas trazem um ataque ácido muito intenso na língua e nas bochechas e depois fecham o gole trazendo doçura residual do malte, lembrando sabores de pão branco, biscoito doce e baunilha, em diferentes intensidades. A textura tem boa adstringência, com sensação de amarrar a boca que ajuda e equilibrar a doçura.

Quanto ao aroma, os traços das frutas são suaves, muito menos vívidos do que numa fruit lambic. Na verdade, predomina inicialmente um aroma residual de fermentação lática, que lembra muito o cheiro de probióticos láticos do tipo Yakult, e que me incomodou um pouco. Os sabores da fruta vêm em segundo plano e vão se abrindo com o tempo e o aumento da temperatura. Um ponto negativo é que esses aromas, em vez de remeterem às frutas frescas ou maduras, lembram mais o cheiro de fruta passada ou fermentada (isso é claro na versão com morango), o que traz novamente um certo incômodo. Já o corpo é mediano, não tão seco quanto a maioria das sour ales, com uma certa cremosidade que reflete a doçura residual do malte. No conjunto, são sour ales simples e diretas, sem grande complexidade, que põem em primeiro plano a interação entre acidez, fruta e malte.

A versão que menos me agradou foi a que recebe adição de morango. O caráter da fruta é apenas moderado e lembra a sensação de morangos cozidos e passados, e não da fruta fresca e madura. A doçura final é alta e vai ficando um pouco enjoativa com o tempo. A mistura de doce/abaunilhado, lático e da fruta lembra um pouco a sensação de um cheesecake. (Clique aqui para ver a avaliação completa) A versão com acerola, por sua vez, é a mais seca e firme na boca, e traz uma acidez mais elevada, que consegue cortar melhor a doçura do malte, resultando em uma cerveja mais refrescante. Os taninos da fruta dão uma forte e gostosa sensação de adstringência. O aroma da fruta é o mais discreto da linha, mas sente-se uma certa citricidade que remete a acerola e a suco de laranja. É a mais interessante na boca, embora possa ser um pouco chocante devido à intensidade da acidez. (Clique aqui para ver a avaliação completa)

Fonte: http://screamyell.com.br/
A versão com graviola, a meu ver, é a que tem conjunto mais equilibrado e bem-acabado, considerando tanto a sensação na boca quanto o aroma. O aroma da fruta vai se abrindo com o tempo e traz boa vivacidade e suculência, adicionando tons cítricos, tropicais e terrosos bem típicos da graviola (que eu adoro), em alguns momentos conseguindo encobrir a sensação de “passado” da fermentação lática. Na boca, sua doçura fica em um ponto intermediário entre a versão com morango e a com acerola: nem tão enjoativamente doce quanto a primeira, nem tão ácida e firme quanto a segunda. (Clique aqui para ver a avaliação completa)

Afiando a produção nacional da sour ales

As cervejas da linha Way Sour Me Not são excelentes sour ales? Sinceramente, eu adoraria dizer que sim, mas não seria verdade. Na real, elas têm diversas arestas e pontas soltas a aparar. Na minha visão subjetiva, como apreciador de cervejas selvagens, elas têm acidez um pouco agressiva demais e, para compensar, trazem doçura residual de malte em excesso. O resultado não é equilibrado, mas as torna apenas um pouco difíceis de beber e enjoativas. Eu tomei as três em três dias consecutivos e já fiquei um pouco empapuçado – imagino como seria se eu tentasse beber todas na sequência. Na minha visão, elas deveriam ser bem mais secas e, ao mesmo tempo, ter acidez mais gentil, o que resultaria em um conjunto mais delicado, refrescante e fácil de beber, como são as Berliner Weisse. Uma fermentação lática menos vigorosa poderia não só atenuar a acidez como também disfarçar melhor o aroma de probiótico, que ficou intenso demais (já que não há Brettanomyces para cobrir o aroma da fermentação lática).

Ao mesmo tempo, o aroma da fruta precisa se tornar mais afiado e fresco. Talvez o uso da fruta fresca (ou quem sabe da fruta congelada, mas inteira), em vez da polpa pasteurizada, possa ajudar nesse sentido. As cascas concentram boa parte do frescor aromático das frutas, e as sementes adicionam mais camadas de complexidade e aromas inusitados que contribuem com a complexidade geral (basta ver a diferença gritante entre as lambics comerciais, que empregam suco de frutas, e as tradicionais, que usam a fruta inteira). Um aroma mais vigoroso da fruta também ajudaria a encobrir o aroma lácteo da fermentação e potencializaria a refrescância da cerveja.

Isso significa que devemos esquecer as cervejas da linha Way Sour Me Not? Óbvio que não! É preciso considerá-las como experimentos, ou como degraus que ajudarão a construir uma tradição mais sólida de estilos selvagens no Brasil. Seu valor reflete mais a ousadia e a importância histórica do que a qualidade intrínseca das cervejas – pelo menos por enquanto, no primeiro lote. Fermentação lática é algo muito novo no Brasil e as cervejas não possuem o know-how para realizá-la, então eu tenho a expectativa de que, com o tempo e o acúmulo de experiência, as cervejas da linha sejam progressivamente aprimoradas. Os norte-americanos também erraram muito nas suas primeiras sour ales, mas hoje já estão fazendo produtos de qualidade comparável aos rótulos do Velho Mundo.

Outro mérito indiscutível da linha Way Sour Me Not é a tentativa de transformar as sour ales em produtos acessíveis ao consumidor. Cervejas selvagens são estilo difíceis de produzir, que podem alcançar preços muito altos em comparação com ales normais. Considerando o alto patamar de preços de boas cervejas no Brasil, isso poderia facilmente elevar o preço de uma sour ale a patamares que praticamente inviabilizariam seu consumo. A Way conseguiu pôr no mercado três sours mais simples a um preço bastante amigável, não muito superior à linha básica da cervejaria. Aqui em São Paulo, encontram-se as garrafinhas de 310ml da linha em torno dos R$ 15. E, acredite, você não precisa de mais que 310ml delas.


Espero que esta postagem tenha incentivado as pessoas a prestigiar essas cervejas que talvez sejam os primeiros movimentos de um despertar selvagem brasileiro a frutificar a médio prazo. Fica, ainda, a sugestão de degustar uma delas comparando-a a uma lambic com frutas de boa qualidade para entender, com humildade, o quanto ainda precisamos nos aprimorar. 

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Pegando pó: A curva de evolução de uma cerveja de guarda

Quem lê este blog há bastante tempo há de estar lembrado da época em que falamos longamente sobre a guarda de cervejas. Já tivemos a oportunidade de esclarecer que nem toda cerveja é apta para guarda: na verdade, a maior parte delas deve ser consumida o mais brevemente depois de sair da fábrica. Para algumas, porém, em especial as que possuem maior estrutura devido ao alto teor alcoólico, ao amargor firme em segundo plano e aos aromas tostados, o tempo pode ser um aliado.

Montar uma adega para envelhecer suas próprias garrafas em casa é uma das formas mais divertidas de curtir cervejas de guarda. Há algumas precauções importantes a tomar, porém. Eu frequentemente recebo questões a respeito das condições ideais de armazenagem (mais detalhes sobre isso aqui) ou do tempo de guarda para cada rótulo. O interessante é que as perguntas a respeito do período ideal de envelhecimento normalmente envolvem o limite máximo de guarda de uma determinada cerveja ou estilo.

A curva gaussiana clássica imaginada por alguns para 
o envelhecimento de cervejas. O eixo x representa 
o tempo de guarda, e o eixo f(x) representa 
a qualidade. µ é o auge da evolução.
Fonte: www.itl.nist.gov
As pessoas interessadas em envelhecer cervejas sabem que uma cerveja apta para guarda evolui até atingir um pico de qualidade, depois do qual ela vai decaindo até ficar sem graça e passada. Imagina-se normalmente que essa evolução descreva uma trajetória semelhante a uma curva gaussiana: a qualidade da cerveja começa baixa, vai subindo, subindo, atinge o ponto máximo e depois volta a cair. Ou seja: depois que a cerveja sai da fábrica, e antes de ela atingir seu auge, imagina-se que ela só vá melhorando com o tempo. Pensa-se que uma cerveja de guarda com 12 meses será necessariamente melhor que uma com 6 meses, a qual, por sua vez, estará melhor do que uma garrafa recém-saída da fábrica.

O que as pessoas não imaginam é que essa evolução não ocorre de forma tão linear. Veja, não tenho nenhuma base científica para alegar isso, mas minha experiência pessoal com minha adega cervejeira me ensinou que não é assim que funciona – pelo menos não nas condições em que eu guardo minhas cervejas, num país tropical sem controle artificial de temperatura. A verdade é que evolução da maior parte das cervejas de guarda descreve uma curva mais ou menos assim:


Ao contrário do que acontece com alguns poucos vinhos especialmente aptos para guarda (como um Bordeaux de alto nível, bem tânico e ácido), quase toda cerveja sai da fábrica em condições ótimas para ser bebida imediatamente. Isso significa que, fresca, ela está em um dos pontos altos de sua evolução. Não importa se é uma German pilsner delicada ou uma barley wine robusta. Depois de ser vendida, uma cerveja de guarda não começa a melhorar imediatamente: pelo contrário, ela vai perdendo frescor, ficando mais sem graça, começa a exibir aromas chapados de oxidação e perde um pouco do brilho na boca. Como toda cerveja. O que diferencia uma cerveja de guarda é que, em algum momento de sua trajetória decrescente, ela reverte a tendência a perder interesse, e começa a ganhar novos elementos.

Sim, a “fase sonsa” também acontece com as pessoas.
Fonte: www.tokeofthetown.com
Minha experiência com minha adega cervejeira tem me mostrado que praticamente toda cerveja de guarda passa por um período meio chatinho que eu gosto de chamar de “fase sonsa”: ela já perdeu o frescor e todo o encanto da juventude, mas ainda não desenvolveu o charme da evolução e da maturidade. É como uma adolescente boba: não é mais bonitinha como quando era criança, e não tem metade do interesse que acredita ter. Mas qual a duração dessa “fase sonsa”? Bom, algumas pessoas nunca chegam a sair dela, não é mesmo? Ah, sim, estamos falando sobre cervejas! Aí que entra o problema: depende da estrutura de cada cerveja. Paradoxalmente, as cervejas mais estruturadas e aptas para guarda, como Russian imperial stouts ou barley wines, são também as que mais demoram para desenvolver características de evolução. Sua “fase sonsa” dura mais tempo, por assim dizer. Cervejas um pouco com menos amargor ou álcool podem se desenvolver mais rapidamente, mas nunca vão chegar a ficar tão interessantes quanto uma verdadeira cerveja de guarda. Quanto mais longa a “fase sonsa”, em geral, mais interessante a cerveja fica se você souber esperar mais tempo.

Minhas experiências com cervejas de guarda têm sugerido um intervalo de pelo menos 18 a 24 meses desde o engarrafamento antes que as garrafas comecem a evoluir positivamente. É raro pegar uma cerveja de guarda que já tenha ficado interessante com menos tempo que isso. Portanto, se você está montando uma adega cervejeira e quer saber se suas escolhas de rótulos foram boas, será preciso ter um pouco de paciência. Muita gente descarta uma boa cerveja de guarda como se ela fosse inapta para envelhecer porque a degustou na sua “fase sonsa”. Se tivesse esperado mais 6 meses ou um ano, poderia talvez mudar de ideia. Já vi quem compre cervejas em promoção, perto do vencimento, e abre para ver se ela evolui bem com o tempo. Se a cerveja não tem um prazo de validade de pelo menos 3 anos, é muito comum que você se decepcione ao fazer isso. Paciência é uma virtude a praticar a todo momento na montagem de uma adega.

A evolução da Eisenbahn Weizenbock

Uma cerveja legal para se observar essa curva de evolução aqui no Brasil é a Eisenbahn Weizenbock. Em primeiro lugar, porque oferece um custo-benefício praticamente imbatível no nosso mercado. Em segundo lugar, pelo fato de as Weizenbocks serem escuras e relativamente alcoólicas, mas não inteiramente adequadas para uma longa guarda. Elas têm pouco amargor, e seu equilíbrio depende de um certo frescor advindo da acidez, que rapidamente se deteriora. Por serem apenas medianamente aptas para envelhecer, elas evoluem de forma mais rápida que uma barley wine, uma Russian imperial stout, uma gueuze ou uma Belgian dark strong ale, para citar alguns exemplos de estilos especialmente aptos para longos períodos de guarda. A Eisenbahn Weizenbock é uma cerveja com a qual é fácil fazer o experimento de comprar várias garrafas para acompanhar sua evolução ao longo do tempo, observando como ela progressivamente perde seu frescor inicial e ganha características de evolução.

A Eisenbahn Weizenbock fresca, não é segredo para ninguém, é uma das minhas escolhas preferidas no mercado nacional. Pena que esteja ficando cada vez mais difícil encontrá-la nos supermercados, onde ela perde espaço para outros rótulos da linha da cervejaria. Bem fresquinha, ela é um verdadeiro deleite. Aromas potentes de bananada e caramelo, com o cravo em segundo plano, são escoltados por uma graciosa complexidade sugerindo nozes, chocolate, tutti-frutti e até café. Há uma gostosa alternância entre a doçura dominante e uma acidez que se intercala para lhe dar mais leveza, conduzindo a um final levemente mais seco. O corpo é entre médio e alto, com alta carbonatação. Excelente representante do estilo: é como se deleitar com um doce caseiro de banana, do tipo que minha mãe sabia fazer como ninguém! Dá uma boa surra em muita cerveja que custa o dobro ou o triplo! (Clique aqui para ver a avaliação completa)

Fonte: www.eisenbahn.com.br
Com 12 meses de guarda (ou seja, no limite de seu prazo de validade), ela já perdeu boa parte do encanto. A doçura começa a predominar de uma forma um pouco excessiva, com caramelo, mel, alcaçuz e um toque doce lembrando plástico e ofuscando a banana e o cravo. Sente-se uma maçã vermelha. O frescor da acidez se foi, e ela se tornou mais licorosa, com maior sensação alcoólica. Decididamente, aqui ela está no ponto mais baixo de sua evolução, bem no meio da “fase sonsa”. (Clique aqui para ver a avaliação completa)

Meio ano depois, com 18 meses de guarda, ela já começou a mostrar um desenvolvimento interessante. A acidez se foi quase completamente e ela ganhou uma complexidade licorosa e frutada que lembra uma Belgian dark strong ale. Às cegas, eu nunca adivinharia o estilo. Banana, uvas passas e ameixas passas convivem com a doçura do caramelo. Em segundo plano, defumado e uma sensação salgada e carnuda, típicas de guarda, começam a aparecer sugerindo ligeiramente molho de tomate e carne assada. A doçura predomina, mas é quebrada de forma sutil pelo salgado. O corpo já afinou um pouco, mas ganhou uma textura licorosa que compensa. Neste ponto, percebe-se que a Eisenbahn Weizenbock já está deixando sua “fase sonsa”. (Clique aqui para ver a avaliação completa)

Com 24 meses, ela atinge um equilíbrio muito interessante. Frutas escuras aparecem em profusão, com sabores de figos secos, ameixas passas, cereja ao marrasquino e banana caramelada misturando-se deliciosamente a um malte que voltou a ganhar profundidade, somando nozes e doce de leite ao caramelo dominante. Sabores mentolados, minerais, terrosos e salgados (carne assada, couro curtido) compõem um discreto mas agradável perfil de maturidade. A doçura é bem equilibrada pelo salgado, e o corpo, embora tenha afinado, tornou-se cremoso como mousse. Aqui, aos 24 meses, observa-se a plenitude daquilo que apenas se insinuava com 18 meses. Este talvez esteja bem próximo do ponto mais alto de sua curva de evolução. (Clique aqui para ver a avaliação completa)

Por fim, com 30 meses, ela já mostra características de longa guarda (evidentemente não tão bem integradas quanto em uma cerveja apta a longa guarda) e talvez já comece a demonstrar também os primeiros sinais de cansaço. O malte se adensou em um perfil mais licoroso lembrando xarope de bordo, e o frutado (banana passa, ameixas secas, maçãs ao forno) começou a diminuir, dando mais espaço aos toques de evolução, que já se adiantam em tons mais definidos e claros de terra, cogumelos, couro curtido, mel aromático, molho inglês e até um certo acético. A doçura ainda predomina, mas a sensação de salgado é bem mais intensa e se faz acompanhar de um toque de acidez acética, lembrando vinagre balsâmico. O corpo já afinou demais, e tornou-se um pouco ralo. Talvez aqui ela já esteja nos primeiros momentos de sua decadência. Eu gostei bastante (até mais do que a versão com 24 meses, para ser sincero), mas admito que é preciso ter um gosto para cervejas evoluídas para apreciá-la. (Clique aqui para ver a avaliação completa)

Portanto, se formos representar a evolução da Eisenbahn Weizenbock numa linha do tempo, teríamos um resultado mais ou menos parecido com o seguinte:


O resultado para 36 meses é hipotético: eu nunca cheguei a bebê-la depois de tanto tempo na adega. Mas, considerando o que observei na passagem de 24 para 30 meses, suponho que ela comece e perder em harmonia e equilíbrio à medida que o tempo passa. Como ainda tenho garrafas sobrando na adega, terei a oportunidade de verificar isso daqui a 6 meses!


Montar uma adega cervejeira no Brasil é um grande desafio. Como se não bastasse o preço extorsivo das boas cervejas por aqui, que desincentiva dramaticamente a compra apenas para estocagem, ainda há as questões relativas às condições de armazenagem, nem sempre fáceis de se obter no nosso clima. Quando você abre as suas primeiras garrafas, ainda na “fase sonsa”, e percebe que elas não estão tão legais, o resultado pode te levar a desistir da coisa toda. Espere. Em posse das informações que você leu aqui, tenha paciência. Os frutos da sua adega amadurecem lentamente, mas sua doçura compensa a espera!

domingo, 1 de junho de 2014

Cervejas selvagens: Berliner Weisse

Ah, a cosmopolita Berlim. Quem associaria você com 
a selvageria? (não vale lembrar do Hitler!)
Fonte: luxus.welt.de
Sim, já falamos longamente sobre cervejas selvagens aqui no O Cru e o Maltado. Alguns de vocês devem ter até enjoado de tanto azedume! Todos os tipos imagináveis de lambics, as selvagens de Flandres, as sour ales da revolução norte-americana e até as improváveis Gose alemãs. Pareceria que não deixamos nada de lado. Mas a verdade é que havia pelo menos um estilo selvagem clássico que não tinha sido abordado aqui no blog – até agora. Estou falando das Berliner Weisse, as cervejas de trigo típicas da região de Berlim, no norte da Alemanha. “Ah, eu sei como é uma Weisse alemã! São aquelas cervejas de trigo, com aroma de cravo e banana!”. Não, essas são as Weisse do sul da Alemanha, da região da Baviera – que não têm nada de selvagem, diga-se de passagem. Apesar do nome semelhante (derivado de “weiss”, palavra alemã para “branca”) e do uso do malte de trigo, há imensas diferenças entre os estilos.

Uma história controversa

Há pouca informação precisa sobre a origem deste raro estilo cervejeiro. Sabe-se hoje que, no final da Idade Média, cervejas feitas com lúpulo e malte de trigo ganharam força no norte da Europa, numa faixa territorial que se estendia entre a Bélgica e a Boêmia. Como eram relativamente mais claras que as tradicionais cervejas avermelhadas produzidas com o gruit (mistura de ervas que era usada como tempero da cerveja antes do emprego do lúpulo), ficaram conhecidas como “brancas” – daí o termo alemão “weiss”, ou o flamengo “wit” para designá-las. É possível que as gueuze da região de Bruxelas derivem desse mesmo “cinturão de cervejas claras de trigo” do norte europeu.

Data do século XVI a primeira menção documentada ao uso do malte de trigo para fabricação de cervejas em Berlim. Contudo, é impossível dizer se o estilo guardava qualquer semelhança com as Berliner Weisse atuais. Uma teoria sugere que as raízes do estilo estejam numa tentativa de reproduzir, em Berlim, um estilo de cerveja de trigo típico de Hannover, as Broyhan, que eram possivelmente variações da Altbier produzidas com trigo. Há menção, em 1640, a uma cerveja berlinense chamada Halberstädter Broihan, indicando o vínculo com o estilo de Hannover. Uma outra teoria, a meu ver muito menos plausível, sugere que as Berliner Weisse tenham sido uma criação de exilados huguenotes que emigraram da França para Berlim no século XVIII, passando por Flandres, e levaram consigo as técnicas de fermentação lática (usadas nas cervejas selvagens de Flandres). Por que eu acho essa teoria menos plausível? Porque ela se atém à similaridade entre as Berliner Weisse e as atuais cervejas de Flandres, mas não considera que, à época, a fermentação lática era muito mais amplamente disseminada na Europa.

O massacre de São Bartolomeu, em 1858, que expulsou os 
huguenotes da França. Deixemos a memória deles em paz.
Fonte: www.meyerbeer.com
Tudo isso são conjecturas históricas que aguardam investigação de historiadores da alimentação na Alemanha. O que sabemos, com certeza, é que algo parecido com as Berliner Weisse já devia existir na passagem do século XVIII para o XIX. Quando Napoleão invadiu a Alemanha, em 1805, chamou as cervejas de Berlim de “o champagne do Norte”, no que certamente aludia ao caráter leve, ácido e sutilmente frutado das Berliner Weisse. O estilo alcançou seu auge de popularidade no século XIX, quando havia 700 cervejarias que o produziam na região de Berlim. A essa altura, os métodos produtivos já estavam relativamente estabelecidos e a cerveja certamente era bastante semelhante à que ainda existe hoje.

A Berliner Weisse era produzida e servida em diferentes graus alcoólicos, indo desde os 2% de uma cerveja “de mesa” até possivelmente o teor de uma bock, acima dos 6%. A versão clássica, que sobrevive até os dias de hoje, tem um baixo teor alcoólico, em torno dos 3%. Isso se explica devido ao regime de tributação especial que incide sobre cervejas de baixo teor alcoólico na Alemanha. É provável que o costume de produzir a Berliner Weisse com baixo teor alcoólico também tenha raiz num hábito tipicamente associado à história do estilo. Por muito tempo, a cerveja era vendida logo após ser brassada, cabendo aos bares guardá-la por tempo suficiente para que ela fermentasse e maturasse. Contudo, por razões econômicas, alguns bares costumavam diluir a cerveja em água, resultando em um produto de teor alcoólico mais baixo, ao qual se opunha a “Ganz-Weisse” ou “Voll-Weisse” (literalmente, “Weisse plena”), preferida dos mais abastados.

O estilo entrou em franco declínio após a II Guerra Mundial – como, de resto, ocorreu com todas as cervejas selvagens, em apuros em uma era de paladares pasteurizados, de imensa concentração de capitais na produção cervejeira e de predomínio de lagers claras de sabor padronizado. Hoje em dia, sobrevive residualmente em Berlim, sendo produzido por apenas duas cervejarias. Há cervejarias alemãs que o produzem fora de Berlim, mas não podem ostentar o nome “Berliner Weisse”, que, segundo a legislação alemã, só se pode aplicar a cervejas feitas na região de Berlim, seguindo os métodos tradicionais. O estilo tem ganhado popularidade nos EUA, onde se tornou uma espécie de “porta de entrada” para as sour ales, por ser um estilo mais leve e de mais fácil aceitação dentro desse universo.

Os métodos de produção

Berliner Weisse têm um método de produção muito peculiar, que não é usado em nenhum outro estilo. O que as caracteriza é o sabor ácido e refrescante, fruto da fermentação com bactérias láticas do gênero Lactobacillus (normalmente da espécie L. brevis). Portanto, assim como ocorre com as cervejas de Flandres, as Berliner Weisse sofrem uma fermentação mista, com leveduras cervejeiras comuns (do gênero Saccharomyces) e com bactérias láticas. Ao mesmo tempo, assim como se vê nas lambics e nas Weissbiere da Baviera, ela leva uma grande porcentagem de malte de trigo, variando entre 30% e 50%.

Para criar o ambiente ideal para a proliferação de bactérias láticas, as cervejarias berlinenses do século XIX usavam uma série de artifícios. Tradicionalmente, o mosto (solução de grãos e água) de uma Berliner Weisse não é fervido, mas apenas aquecido por um processo de tripla decocção, o que significa que uma parte do mosto é separada, fervida e devolvida à tina principal, causando um aumento na temperatura. O procedimento era realizado três vezes, e a temperatura da tina principal nunca superava os 80º C. O mosto era simplesmente mantido nessa temperatura durante 20 minutos e, depois de resfriado, era inoculado. Como não havia esterilização completa do mosto, as bactérias láticas sobreviviam ao processo e fermentavam a cerveja juntamente com as leveduras, gerando a acidez típica do estilo. Algumas cervejarias ainda usavam tonéis de madeira para fermentar e maturar a cerveja, o que aumentava a incidência de microorganismos selvagens.

O tradicional e trabalhoso processo de decocção do mosto, como 
figurado em um mural na escolha cervejeira de Weihenstephan. 
Hoje em dia, a Bamberg é uma das únicas 
do Brasil a usar o procedimento.
Fonte: braukaiser.com
Tradicionalmente, elas eram refermentadas na garrafa, aumentando a complexidade e também a acidez com o tempo. O método, contudo, era diferente daquele empregado pelos belgas. Na Alemanha da lei de pureza, que proibia o uso do açúcar na produção cervejeira, a cerveja engarrafada não recebia uma nova dose de açúcares, mas de mosto parcialmente fermentado, ainda com carboidratos do malte a serem fermentados (o chamado kräusen). Michael Jackson relatou o hábito tradicional de se enterrar as garrafas na terra durante meses para deixá-las desenvolver um caráter ácido ao longo do tempo.

O grau de acidez era um fator a se controlar, e cada cervejaria havia desenvolvido seus métodos para isso. Algumas inclusive “purificavam” seu fermento, voltando a usar uma cepa pura de Saccharomyces retirada de uma ale a cada duas ou três fermentações para evitar o predomínio das bactérias láticas. As Berliner Weisse industriais, hoje em dia, atingiram um grau ainda maior de padronização. É comum que a cerveja engarrafada seja o resultado de um blend entre uma cerveja fermentada apenas com Saccharomyces e uma outra cerveja ácida, que sofreu fermentação lática, em proporções padronizadas. A cervejaria Berliner Kindl não emprega mais a refermentação na garrafa, mas fermenta e matura a cerveja em tanques pressurizados. Já a cervejaria Schultheiss ainda refermenta na garrafa.

O gosto de Berlim

Do ponto de vista do consumidor, a Berliner Weisse é uma cerveja selvagem muito leve, refrescante e com uma acidez moderada, equilibrada por uma delicada doçura residual de malte. Ao contrário do que ocorre com outras cervejas selvagens, sente-se bem o sabor do malte claro, de forma muito agradável, remetendo às lagers claras da escola alemã. O amargor é muito baixo, tipicamente abaixo dos 10 IBUs. O guia do BJCP indica que a interpretação alemã tradicional do estilo tem presença suave a moderada de aromas frutados, enquanto o guia da Brewers Association, mais antenado às inovações do mercado americano, abre a possibilidade de o estilo ser fortemente frutado.

O traço distintivo da Berliner Weisse, sem dúvida, é a acidez lática. Como ela não recebe adição de leveduras selvagens (do gênero Brettanomyces) e nem fermenta em madeira, não exibe os aromas animais tradicionalmente associados às cervejas selvagens belgas. Sente-se apenas uma acidez limpa, “fria” e refrescante, com aroma e sabor suavemente lácteo, equilibrada por uma suave doçura de malte. O estilo é seco e bem atenuado (possuindo poucos açúcares residuais), mas nem de longe tão seco quanto uma gueuze, por exemplo. O malte está lá, agradável e discreto.

O “Ampel” (“semáforo”, em alemão), como é chamado o 
conjunto de três copos de Berliner Weisse, um puro, 
um aromatizado com framboesa, e um com aspérula.
Fonte: thebeersessions.com
Algumas pessoas preferem equilibrar a acidez lática da Berliner Weisse com xarope aromatizado. Em Berlim, é tradicional servir a garrafinha sobre uma dose de xarope de framboesa ou de uma erva aromática chamada “aspérula odorífera”, dando ao copo uma coloração rosada ou esverdeada. Antigamente, havia o costume de servi-la com uma dose de uma aguardente pura ou aromatizada com cominho – o que servia tanto para lhe dar mais aroma e sabor quanto para aumentar seu teor alcoólico. Os apreciadores, porém, preferem sempre bebê-la pura. De fato, seu sabor delicado e equilibrado é uma iguaria que merece ser apreciada sem distrações.

Minha primeira Berliner Weisse

E por que eu não havia escrito sobre as Berliner Weisse quando fiz uma longa série de postagens sobre as cervejas selvagens? Porque eu nunca havia bebido uma até este mês! O estilo é raro na sua terra natal, e apenas hoje começa a receber atenção das cervejarias norte-americanas, que têm produzido interpretações do estilo. No mercado brasileiro, não temos nem um único rótulo de Berliner Weisse. Só tive a oportunidade de provar uma cerveja do estilo quando a ganhei, fortuitamente, de presente do amigo Fabiano Pereira (que conhece muito bem meus gostos cervejeiros e a quem agradeço muitíssimo).

A Berliner Weisse que tive a oportunidade de provar não é produzida em Berlim, mas em Liepzig, pela cervejaria Bayerischer Bahnhof Gasthaus & Gosebrauerei – que, como indica o nome, é especializada na produção de outro estilo selvagem alemão, as Gose. Por não ser da cidade natal do estilo, não pode ostentar no rótulo o nome “Berliner Weisse”, motivo pelo qual se chama “Berliner Style Weisse” (ou “Weisse no estilo de Berlim”). Vejamos o que ela nos oferece:

Fonte: thebeersessions.com

Estilo: Berliner Weisse
Teor alcoólico: 3% ABV
Aparência: bem mais clara que uma Weissbier da Baviera, ostenta uma coloração amarela bem clara, palha, com alta turbidez e uma espuma volumosa que diminui rapidamente (como é comum no estilo devido à alta acidez).
Aromas: primeiro se sente no nariz a acidez limpa, com um toque lácteo que lembra iogurte ou coalhada. Com o tempo, revela-se o aroma seco e apetitoso de malte, que se confirma na boca, com notas de pão branco e massa crua, sem sensação doce. Com o tempo, nota-se mais claramente um perfil frutado tropical e delicado, com remissões a pêssego, cupuaçu e laranja, bem como um aroma floral de rosas. Complexo de uma forma sutil e interessante.
Paladar: prima pela delicadeza na boca, com um equilíbrio entre a acidez lática inicial e uma doçura final de malte que nunca chega a ser pesada demais, o que permite que a cerveja seja seca e refrescante sem extremismo. Quase não se sente amargor.
Sensação na boca: o corpo é levíssimo devido ao baixo teor alcoólico e à secura – às vezes até chega a lembrar a sensação meio “aguada” de uma cerveja sem álcool. A textura é aveludada e é possível sentir alguma adstringência de taninos, de forma interessante.

Clique aqui para ver a avaliação completa.

Veredito: uma sour ale leve, refrescante e descomplicada, mas ao mesmo tempo sutilmente complexa e agradável. Lembra às vezes uma Kölsch mais leve, com acidez no lugar do amargor e aquele frutadinho sutil e intrigante. Realmente é uma ótima porta de entrada para o mundo das sour ales, tanto pela sua leveza quanto pela familiaridade com outras cervejas da escola alemã, mais conhecidas do grande público.

É uma pena que não tenhamos nenhum exemplar no mercado nacional. Nenhuma das nossas cervejarias de tradição alemã se aventuraria? Eu adoraria ver algum cervejeiro do calibre da Bamberg ou da Abadessa oferecer sua interpretação do estilo para o nosso mercado!


quinta-feira, 15 de maio de 2014

Cerveja e cinema: The Bling Ring e as redes sociais cervejeiras

Sim, O Cru e o Maltado agora está no Facebook após anos de teimosa recusa. Bastou um perfil falso homenageando nosso querido bispo devorado pelos caetés (hilariamente, considerando seu sobrenome) e eu me esqueci do risco de ser pressionado por alunos impertinentes a respeito de meus hábitos cervejeiros. (Alunos, nunca se esqueçam de seus professores também têm vida privada e preferem que ela continue assim.) E, sim, eu finalmente troquei meu jurássico celular por um smartphone (obrigado pelo presente, minha linda!) e faço parte da legião de cervejeiros que faz check-in de tudo o que bebe no Untappd. Nunca estive tão internético. E também nunca estive tão enfadado a respeito desse fato.

Cartaz do filme.
Fonte: www.awardsdaily.com
Quero digredir um pouco. Historiador adora uma digressão, mas eu juro que volto ao assunto. É que o filme mais recente da diretora Sofia Coppola me parece o ponto de partida perfeito para voltar a falar sobre o zum-zum-zum cervejeiro nas redes sociais, embora não haja muita cerveja no filme (só vodka, energético e cocaína, pode ser?). Conheci Sofia Coppola quando da repercussão de seu primeiro grande sucesso comercial no Brasil: Encontros e Desencontros, de 2003. Odiei o tom pretensiosamente pseudofilosófico e a sucessão de chavões vazios do filme. Também odiei de morte o anacronismo insultoso de sua película subsequente, Maria Antonieta, de 2006. Assim sendo, estava preparado para continuar detestando-a quando aluguei The Bling Ring, de 2013 (que ganhou no Brasil o duvidoso título de “A gangue de Hollywood”). Só que eu amei perdidamente o filme.

Bling Ring inspira-se em uma história assustadoramente real, mostrando que a realidade é frequentemente mais incrível que a ficção. Spoilers adiante – o que não quer dizer muita coisa, já que os fatos aconteceram e todo mundo sabe como a história terminou. O enredo foi baseado em um artigo escrito pela jornalista americana Nancy Jo Sales para a revista Vanity Fair, intitulado The suspects wore Louboutins (“Os suspeitos calçavam Louboutins”), que conta a história de um grupo de adolescentes de Los Angeles que descobriu que podia facilmente invadir casas de celebridades enquanto elas estavam ausentes, fazer festinhas privadas e roubar pequenos “mimos” dos guarda-roupas de seus ídolos.

Luxo, ostentação e Facebook

O filme, obviamente, conta uma interpretação da história, sendo que altera ou dá menos importância a alguns detalhes do caso para imprimir à narrativa sua própria perspectiva. Isso não é um demérito: pelo contrário, é o que permite à diretora expressar com mais consistência e clareza sua visão dos eventos. Ou você acha que existe alguma narrativa que conta “fielmente” todos os fatos “como eles de fato aconteceram” (como dizia o caduco historiador Leopold Von Ranke no século XIX)?  Na vida real, os roubos somaram um impressionante montante de 3 milhões de dólares em produtos, dinheiro e joias. No filme, o valor monetário ganha pouca importância: as etiquetas com os emblemas “Dior”, “Chanel” ou “Louis Vuitton” eram o verdadeiro troféu contido nos objetos levados pelos adolescentes. E, convenhamos: ninguém vira uma celebridade mundial somente por roubar 3 milhões de dólares, concorda?

O filme revela uma ironia interessante que esses adolescentes revelaram. Na montanha-russa da especulação e da ciranda do consumo global, um vez que os caríssimos artigos de luxo são usados publicamente pelas celebridades, eles perdem completamente o valor para elas. Afinal, não se vai a duas cerimônias do Oscar com o mesmo vestido. O closet das celebridades se torna uma espécie de cemitério de fantasmáticas roupas proibidas, objetos caríssimos completamente esvaziados de seu valor-de-uso. Tanto é que, no filme de Coppola, quando malas cheias de roupas, sapatos e acessórias são discretamente surrupiados, seus donos sequer se dão conta de que foram roubados. Os objetos readquirem valor na mão dos ladrões, que correm para postar os novos modelitos no Facebook e no Instagram. Paradoxalmente, é o crime que restitui o valor a esses objetos e os coloca novamente no circuito da ostentação que é seu habitat natural.

O filme poderia tranquilamente aproveitar a história para contar uma enfadonha lição de moral sobre as consequências negativas e a imoralidade de uma vida vazia, consumista e irresponsável, sobre como essa nova geração de jovens está perdida, sobre como tudo era melhor quando as pessoas eram menos fúteis (e as mulheres não saíam na rua de minissaia) e todo esse bla-bla-bla saudosista. Numa dada altura do filme, eu até achei que Sofia Coppola estava indo por aí – afinal, está na moda ser conservador –, mas, felizmente, ela optou por não fazer isso. Em vez disso, ela radicalizou: mergulhou de cabeça na linguagem e na sedução do mundo em que esses jovens viviam e, de lá de dentro, mostrou que eles não estavam fazendo nada muito diferente de 95% de tudo o que circula nas redes sociais.

Que “xis” que nada! O negócio é fazer biquinho!
Fonte: http://www.insanos.com.br/
O ritmo do filme capta magistralmente o tempo simultaneamente fragmentado, rápido e enfadonhamente repetitivo das redes sociais, análogo ao da publicidade: tudo é um flash de luxo, uma pose rápida para a câmera, uma balada exclusiva e descolada, um produto novo. As situações se alternam com uma naturalidade desconcertante: celular a postos, os adolescentes se levantam e, em perfeita sincronia, começam a dançar como se estivessem curtindo a noite há horas. Um biquinho para a câmera, um flash, e voltam a conversar naturalmente sobre problemas de família. O importante é “sair bem na foto”, pois os registros visuais, que serão mostrados para os outros, são mais importantes do que a situação em si. Lembrei daquela moda que deu entre as adolescentes de, em vez de sair para a balada, irem umas às casas das outras apenas para se produzir e postar as fotos. No filme, as casas das celebridades se sucedem numa mesmice de luxo e ostentação. O filme parece um gigantesco e interminável comercial da Tom Ford, ou um clipe de hip-hop bling-bling de 2 horas de duração. Acho que esse era o filme que Sofia Coppola queria gravar quando fez Maria Antonieta, mas, aqui, ela não cometeu o erro de ambientar a história no século XVIII. Ela encarou o desafio da contemporaneidade e direcionou suas preocupações estéticas para o ambiente correto.

Coppola insere quebras estrategicamente, fazendo a mesquinhez da vida cotidiana se intrometer na ostentação para perturbá-la. O luxo dos produtos de grife roubados das celebridades contrasta de forma decepcionante com os quartos de classe média onde os adolescentes escondem de seus pais o butim de suas traquinagens: cômodos chocantemente precários se comparados às casas-vitrine das celebridades. A própria infantilidade dos membros da gangue, adolescentes comuns de um colégio norte-americano, rompe eventualmente o véu do glamour que eles criam em torno de si. O resultado é o mesmo misto de constrangimento e sedução que experimentamos ao ver as fotos da balada de um adolescente deslumbrado no Facebook, ou o último videoclip das paradas norte-americanas com aquelas ridículas dancinhas sincronizadas e poses sensuais que você abomina e não consegue parar de assistir de tão chamativo. O mérito do filme de Coppola é que ela mergulha na linguagem fragmentada do consumo contemporâneo e leva seus descompassos às últimas consequências – sem nunca cometer o erro de julgá-la a partir de fora.

Emma Watson encarna o “plastic sexy” 
de sua personagem.
Fonte: http://www.insanos.com.br/
Aquilo que, numa clássica história moral, seria o desfecho punitivo para o personagem vil, em Bling Ring é só mais um lance no jogo de autopromoção e sedução que os jovens jogam durante o filme todo. Por conta da própria publicidade que faziam de seus roubos, exibidos como troféus, a gangue acaba presa. E, das cortes de justiça, os adolescentes foram direto para as manchetes da Vanity Fair – finalmente lado a lado com as celebridades que tanto admiravam. Para a jovem Nicki, interpretada pela surpreendente Emma Watson, o julgamento, a polêmica em torno de seus crimes e até sua prisão não passam de mais uma postagem de grande repercussão na imensa timeline que era sua vida. Um meio de atingir uma audiência ainda maior. E nisso ela parece não se distinguir muito de seus ídolos mais famosos – afinal de contas, como relata em um programa televisivo, após ser detida pelos roubos e invasões, a adolescente teve a honra de ficar encarcerada em uma cela contígua à de Lindsay Lohan, cuja casa ela já invadira. As celebridades de Hollywood já aprenderam há muito tempo que, quando se faz um bom escândalo, a recompensa em termos de publicidade supera em muito a banalidade das prisões, fianças e multas administrativas. Nicki se revela aluna sagaz.

The suspects drank Westvleteren

Mas o que tudo isso tem a ver com cerveja? O leitor inteligente já terá percebido o rumo dessa conversa. Como disse lá no começo, recentemente entrei para o Untappd e criei uma página no Facebook. E fiquei assustado com a publicidade que as pessoas fazem em torno dos seus hábitos de consumo cervejeiro. Fotos de garrafas e copos cheios (e, principalmente, meio vazios) repetem-se monotonamente. Em geral são mal tiradas, mas não estão lá para serem bonitas, e sim como uma espécie de “prova visual” de que Fulano ou Cicrano realmente conseguiu pôr os lábios em um copo da tão cobiçada ____________ (insira aqui a mais nova importada de luxo do mercado ou alguma rara e exclusiva “whale” americana como a Dark Lord ou a Hunahpu’s). Como não bastasse ostentar os rótulos, caçam as medalhas do Untappd numa espécie de corrida maluca para ver quem bebeu a maior variedade de cervejas, o maior número de rótulos italianos, e por aí vamos.

Os “troféus” cervejeiros repetem-se com uma frequência assustadora pelo espaço virtual, muito raramente acompanhados de qualquer informação ou opinião útil sobre as cervejas. É difícil ler qualquer coisa além de “muito f*da pra c***lho”. E, bem, para ser sincero, considerando a quantidade de rótulos que o nosso não-tão-fictício degustador já postou antes na mesma noite, duvido que ele esteja em condições de avaliar seriamente o que está bebendo. Onde estou com a cabeça para querer qualquer coisa além de um “breja top!”? Beber menos e melhor? Sim, sei. E sabe o que é o pior? Em mim, essas coisas têm o exato mesmo efeito daquela mistura incômoda de constrangimento e sedução que Coppola conseguiu emular com seu Bling Ring. Repudio esse hábito, mas existe uma parte terrível de mim, lá no fundo, que também quer um golinho daquele copo de Hunahpu’s. Por mais idiota que saibamos ser essa lógica metafórica do troféu (tornada literal pelas medalhas do Untappd!), se ela ainda tem tanta força social, é porque exerce uma mórbida atração sobre nós, produtos da sociedade de consumo.

“Preciso de uma nova câmera fotográfica para 
conseguir pegar todas as garrafas da farrinha de ontem!”
Fonte: gemconevents.blogspot.com
Repete-se o mantra de que as redes sociais criam espaços para discussão e compartilhamento de informações, e que resultam em consumidores mais bem informados e supostamente mais qualificados. Às vezes eu fico me questionando se isso não é conversinha para boi dormir para justificar certos excessos de consumo. Afinal, se eu sou um consumidor bem informado e sei dar valor ao que compro, então eu sou merecedor de apreciar uma cerveja que me custou R$ 200 da mão de algum atravessador. E ainda chamamos isso de “cultura cervejeira”. O mercado de cerveja artesanal no Brasil se apoia no consumo de produtos muito caros que, por conterem álcool, são capazes de “flexibilizar” nossa capacidade de julgamento financeiro e nos tornam presas fáceis de seduções ridículas. Depois de quatro chopes, aquela garrafa de R$ 200 (que eu jamais compraria se estivesse sóbrio) não parece mais tão proibitiva. Lá vou eu abri-la, para depois me gabar de tê-la bebido. No fim do mês, esse dinheiro vai fazer falta para mim (ou, pior ainda, para as pessoas com quem divido meu orçamento). Mas eu tenho “cultura cervejeira”, “bom gosto” ou o-que-quer-que-seja que me diferencia dos meros mortais que continuam ignorantemente bebendo suas cervejas de milho transgênico – e é isso o que importa. É a autoindulgência do consumo justificando e encobrindo a lógica adolescente, competitiva e ostentatória do “meu pau é maior do que o seu” – subtexto de boa parte do que leio online nos meios cervejeiros. Leia-se: “minha carteira é mais recheada que a sua”. Sério que estamos reduzindo milênios de história cervejeira a isso?

Se meus leitores me dão licença, agora vou buscar um copo de cerveja. E, obviamente, tirar uma foto e fazer check-in no Untappd. Nos vemos por lá!