quinta-feira, 1 de maio de 2014

Vamos beber vinho?

Como assim, vinho? Este não é um blog sobre cervejas? Um blog virilmente másculo (ui!), autenticamente popular, descontraído, alegremente jovem, cheio de brasilidade? Vinho não é aquela bebida cara que se bebe em restaurantes esnobes de toalha branca quando se quer impressionar alguma mulher metida a besta no primeiro encontro?

Fonte: http://www.yelp.com/
Preciso dizer que a resposta a todas as perguntas acima é negativa? A secular guerra dos vinhos contra cervejas não começou ontem e parece bem longe de terminar. Também, pudera: com o teor alcoólico somado dos dois combatentes, qualquer guerra vira playground, e não me espanta que ninguém mais queira ir para casa! Sommeliers e enófilos frequentemente fazem uma discreta careta de desdém para as cervejas e voltam a seus saca-rolhas e seus decanters, imbuídos de uma suposta superioridade cultural e gastronômica do vinho. Já os apreciadores de cerveja costumam repudiar os próprios vinhos junto com o habitual esnobismo da cultura da enofilia – enquanto reproduzem seus mesmos hábitos, diga-se de passagem. Conhecemos os lugares comuns. Cerveja é para homem, vinho é para mulher. Cerveja é alegre, vinho é chique. Cerveja é popular, vinho é elitizado. Cerveja é barata, vinho é caro. Cerveja se bebe no bar, vinho se bebe no restaurante. Cerveja celebra a amizade, vinho celebra o amor. Nunca se deve misturar vinho e cerveja, senão você vai passar mal para sempre! E bla-bla-bla-bla.

Chegamos até mesmo a dividir o globo terrestre em supostas zonas de influência histórica do vinho e da cerveja, completamente alheios ao fato de que pouquíssimas sociedades na história da humanidade consumiram uma das bebidas à exclusão da outra. Os antigos romanos, tidos como grandes representantes históricos do vinho (eles tinham até deus para o fermentado de uva!), também plantavam cevada e faziam muita cerveja, em geral consumida entre as classes mais populares. Os ultracervejeiros alemães da Reinheitsgebot e da pureza cervejeira (“apenas malte, água e lúpulo hão de passar por nossos lábios!”) importavam vinho da França nas cortes – onde, nunca é demais lembrar, falava-se francês. Nem a Grã-Bretanha, insular terra das ales, manteve qualquer tipo de exclusivismo: além de fazer cerveja de primeira, a Inglaterra bebia tanto vinho que chegou a incentivar a criação de um tipo de vinho especialmente para eles: o vinho do Porto. Além, é claro, de importar hectolitros da França, ali do outro lado do canal da Mancha. Exclusivismo cultural e patriotismo cego são aberrações da nossa época – nossos antepassados praticavam a incorporação e mistura.

Kultur gegen Zivilization

E de onde vem a secular querela dos fermentados? Eu não sei ao certo, mas está aí um excelente tema de estudo para os historiadores da cultura se ocuparem. (ops, parece que eu sou um deles!) Sabe aquele momento em que o seu amiguinho da pré-escola roubou o seu apontador em formato de moto, dando início a uma amarga inimizade que se estenderia até o final do Ensino Médio? Qual teria sido essa agressão fatal na guerrinha de Kindergarten que opõe gerações de enófilos e bebedores de cerveja? Minha intuição histórica (uma palavra mais chique para “palpite”) me sugere que a Alemanha da passagem do século XVIII para o XIX, se não foi o campo inicial de batalha, pelo menos foi palco de uma importantíssima escaramuça dessa história.

Ao final do século XVIII – convém lembrá-lo ao leitor que faltou a algumas aulas de História do colégio – a Alemanha não era um país. Antes, era um conjunto de pequenos reinos e coroas independentes e politicamente desunidas. Nas cortes desses pequenos reinos, era comum que a nobreza reivindicasse ascendência francesa, ou pelo menos falasse francês nas reuniões sociais e adotasse o estilo de vida da nobreza francesa setecentista – que, afinal de contas, era o must do século XVIII em termos de luxo e opulência. Hoje em dia, se você realmente quer esbanjar, vai viver como se fosse um rapper norte-americano, rodeado de garotas de microssaia e estacionando sua coleção de carros esportivos na garagem da sua mansão em Los Angeles. Naquela época, vivia-se como o rei Luís XIV. Eram outros tempos.

Foi nesse contexto que a burguesia intelectual alemã – a “classe média” da época – se contrapôs à nobreza. Essa oposição tinha a particularidade de se concentrar nos aspectos culturais do modo de vida da corte. Na França, a burguesia ascendente, detentora de poder econômico, havia elaborado uma crítica à nobreza em termos eminentemente econômicos e políticos, levando às reformas da ilustração e eventualmente à revolução francesa. Mas na Alemanha, uma classe média de limitado poder econômico escolheu a cultura como ponto de honra de sua luta contra a nobreza. Assim, criticaram os valores afrancesados, estrangeiros, superficiais e afetados da Zivilization francesa (o modo de vida da nobreza) e enalteceram as virtudes da Kultur popular alemã, supostamente mais íntegra, verdadeira, autêntica e profunda em seus hábitos e valores. Em poucas décadas, o que era uma querela entre classes sociais nos territórios alemães converteu-se em uma briga entre países e zonas de influência no continente europeu. A França napoleônica com sua esnobe e afetada civilização; enquanto a Alemanha estaria firmemente apegada a sua autêntica e íntegra cultura. França contra Alemanha. Elegância contra eficiência. Discrição contra algazarra. Sofisticação contra autenticidade. E bla-bla-bla-bla.

Nos territórios vermelhos, vinho e línguas latinas 
(pelo menos na porção ocidental). Para os amarelinhos, 
cerveja e línguas com raízes germânicas. Para os azuizinhos, 
o inverno é tão cruel que os fermentados não são páreo.
A fronteira entre vinhos e cervejas é geralmente vista como coincidente com os limites geográficos entre as sociedades de cultura germânica (ao norte/leste europeu) e as de cultura latina (ao sul/oeste europeu). Imaginamos romanos bebendo vinho em finas taças de estanho, e bárbaros germânicos bebendo cerveja em pesados canecos de pedra, não é mesmo? Na zona de fronteira entre os dois mundos culturais, França e Alemanha se entrechocam e trocam insultos há pelo menos 150 anos. Conheço alemães que, até hoje, consideram que a Alsácia ainda é um território alemão usurpado pela França. A batalha dos fermentados – vinho de um lado, cerveja do outro – é a expressão cultural e gastronômica dessa querela à qual a burguesia intelectual alemã deu um vigoroso pontapé nos tempos de Goethe e Schiller.

Sim, existem fatores climáticos objetivos. Existe uma determinada latitude ao norte da qual o cultivo da uva é muito difícil. Essa fronteira se situa mais ou menos na região francesa de Champagne, já quase na fronteira nordeste com a Bélgica e a Alemanha. Alguns passos para o sul, e as uvas atingem perfeita maturação. Alguns passos para o norte, e são os pés de lúpulo que dão majestosas flores amargas, enquanto as colheitas de grãos são abundantes. Mas isso não basta, por si só, para justificar toda essa briga. Não associamos o vinho e a cerveja apenas e tão-somente a territórios: associamo-los a culturas e valores. O clima não basta para explicar isso, embora possa dar um empurrãozinho. O resto fica por conta do trabalho da mente humana de investir o mundo de significado. Mas claro que tudo isso não precisa ser assim. Convencionou-se pensar dessa forma, associar a vinho a isso ou a aquilo, e a cerveja a tal e qual. Que tal repensar e formar a sua própria opinião?

Vamos beber vinho?

Esta postagem é um apelo a todos os meus colegas cervejeiros: deixemos os preconceitos de lado e aprendamos a nos deliciar com nossos primos próximos, os fermentados de uvas. A degustação de vinhos não só é recompensadora por si mesma, como é um interessante exercício sensorial para o apreciador de cervejas: as sensações são próximas o bastante daquelas do mundo cervejeiro para nos sentirmos mais ou menos em casa, como hóspedes bem-vindos, mas também são diferentes o bastante para que tenhamos de pisar fora da nossa zona de conforto. Conheço bebedores de cerveja que chegaram a um ponto em seu aprendizado que praticamente fossilizaram seus sentidos. Se vão beber uma stout, não precisam nem levar a taça ao nariz antes de começar a enaltecer os aromas de café. A degustação se torna um automatismo monótono. Confrontar-nos com vinhos e tentar decifrar seus segredos, ainda que de forma tateante, nos faz voltar a olhar com frescor para o hábito de degustar, nos coloca de volta em um terreno desafiador. Quando voltamos ao copo de cerveja, depois, parece que nossos sentidos foram renovados. Tenho certeza de que o mesmo acontece com enófilos calejados quando se dedicam a cervejas.

É engraçado que muitos apreciadores de cerveja “exigem” dos enófilos que deixem de lado o preconceito contra a “loira gelada” e experimentem a diversidade cervejeira. Reivindicam a seu favor o argumento, verdadeiro, de que a complexidade sensorial das cervejas é tão ampla quanto a dos vinhos. Muito justo. Mas são poucos os cervejeiros que estão realmente dispostos a fazer o contrário e manter uma postura aberta em relação ao vinho. Tem gente que brada conhecimento profundo sobre todos os subestilos de ales mas ainda acha que vinho tinto tem sempre o mesmo gosto de uva e frutas vermelhas. Abaixo os exclusivismos: os fermentados são uma grande família com a qual vale a pena manter sempre uma postura fraterna.

Cervejas e vinhos têm algumas características diferentes. Assim como muitos apreciadores de vinhos se assustam com o intenso amargor de alguns estilos cervejeiros, é comum que alguns apreciadores de cerveja também se sintam repudiados pela intensidade da acidez e pelos mordazes taninos de alguns vinhos especialmente inclementes. O equilíbrio gustativo da maioria das cervejas está no balanço entre doçura do malte e amargor do lúpulo. No caso dos vinhos, esse equilíbrio se observa entre a doçura residual e a acidez das uvas. Entender isso é um importante primeiro passo para não fazer careta. Assim como estilos muito amargos são uma barreira para quem está começando a beber cerveja, vinhos mais secos, tânicos e ácidos (sobretudo os do Velho Mundo) costumam desafiar quem está começando a beber vinho.

Não se prenda ao preconceito bobo de que vinho é caro e esnobe. Desfaçamos esses dois mitos. Quanto ao primeiro, cervejas artesanais custam tanto quanto bons vinhos, pelo menos aqui no Brasil. Aliás, eu tenho bebido bastante vinho depois que descobri que, para quem não tem tanta litragem nos territórios de Baco, fica mais barato beber novos vinhos do que acompanhar as novidades do mercado cervejeiro brasileiro (que está ficando assombrosamente caro). Você pode achar que uma garrafa de um bom vinho, ali na faixa dos R$ 50, é bem mais cara do que uma cerveja média. Mas não se esqueça de que vinhos vêm (usualmente) em garrafas de 750ml e que têm teor alcoólico entre 11% e 15%. Isso significa que uma garrafa de vinho provavelmente vai te saciar tanto quanto umas quatro ou cinco long necks de uma cerveja de médio teor alcoólico, ali na faixa dos 6-7% ABV. É perfeitamente possível dividir uma garrafa de vinho em duas pessoas sem miséria. Por isso, o preço unitário menor da cerveja acaba sendo ilusório no contexto geral de consumo.

Se aquele seu tio bebedor de vinho é um chato 
de galochas, parabéns, a culpa é só dele.
Fonte: barrelroomsf.blogspot.com
Quanto à ideia de que vinho é esnobe, livre-se dela. Esnobes são as pessoas, e não as bebidas. Seu vinho só vai ser esnobe se você for esnobe com ele. Outra ideia boba da qual vale a pena se libertar é o dogma de que não se deve misturar vinho e cerveja, porque você supostamente passaria mal. O que faz passar mal é a quantidade de álcool e, quando você acumula bebidas, tende a ingerir mais álcool. Fora isso, não tem interferência nenhuma. É perfeitamente possível começar sua noite numa cervejinha e depois partir para um vinho sem enfrentar dor de cabeça no dia seguinte. Jantares harmonizados com cervejas e vinhos oferecem ótimas oportunidades de degustar ambos e vão te dar uma enorme flexibilidade e uma gama maior de opções para harmonizar. Seu bife de chorizo implora pelos taninos de um vinho tinto bem estruturado, e a mousse de chocolate vai ficar matadora com uma imperial stout ou uma kriek lambic.

Uma sugestão de compra

Para incentivar quem acompanha este blog a mergulhar no maravilhoso mundo dos vinhos, escolhi um rótulo a título de sugestão. Sou apreciador de vinhos, mas infelizmente meus conhecimentos sobre fermentados de uva são bem mais limitados do que sobre os de cevada. Mas isso não me impede de e compartilhar o pouco que sei. Estou ciente de que meus leitores, em sua maioria, não são entusiastas de vinho e não estariam dispostos a gastar muito dinheiro ou procurar lojas especializadas só pela curiosidade de beber um vinho. Por isso optei por um rótulo clássico, de ótimo custo-benefício, que se encontra com muita facilidade em supermercados e que não assusta o paladar. Aos iniciantes no mundo dos vinhos, recomenda-se quase sempre que comecem pelos vinhos do Mercosul (Chile e Argentina), mais baratos, de boa qualidade e normalmente feitos em um estilo que agrada com facilidade.

É de uma das vinícolas mais emblemáticas e famosas do Chile que vem minha sugestão de hoje. Trata-se de um vinho que você vai encontrar ali na faixa dos R$ 30-35 em qualquer supermercado: o Casillero del Diablo Cabernet Sauvignon 2011, da gigante Concha y Toro, famosa pela consistência e pelo custo-benefício de seus rótulos. A linha Casillero del Diablo é uma linha intermediária da vinícola, com vinhos varietais (feitos com apenas uma variedade de uva) limpos e de boa tipicidade, ligeiramente mais elaborados, mas ainda não tão caros quanto seus vinhos de mais alto pedigree. Estou indicando algo como a Eisenbahn dos vinhos sul-americanos. A uva Cabernet Sauvignon é um clássico imperdível, que qualquer iniciante precisa conhecer. Tão amada quanto odiada, ela proporciona vinhos de boa intensidade e estrutura, com aromas de frutas vermelhas e cassis, às vezes um toque vegetal/verde (pode lembrar pimentão verde), com coloração intensa e uma presença vigorosa de taninos (aquela sensação de amarrar a boca). Junto com a merlot e a cabernet franc, ela entra no corte de um dos mais famosos tipos de vinho do mundo, o corte bordalês, produzido na França, na região de Bordeaux.

Fonte: www.enoleigos.com.br
Este Casillero del Diablo Cabernet Sauvignon é produzido no Chile na região do Valle Central, e é fruto de um blend em que 70% do vinho maturam durante 8 meses em barricas de carvalho americano, ganhando uma textura mais amigável e aromas ligeiramente tostados, mas sem encobrir as frutas. É um vinho feito ao estilo do Novo Mundo, com frutado franco e aberto. É um dos rótulos que eu gosto de ter na adega, um curinga. Na safra 2011 (a última que eu bebi), apresentou uma coloração vermelha bem escura, quase arroxeada. O aroma mostrou-se assertivo e limpo, sem presença alcoólica ou química excessiva. Potentemente frutado, com bastante cassis, amoras maduras e alguma framboesa, ao lado de resina amadeirada, um docinho de caramelo, alguma canela sutil e um gostoso toque tostado e achocolatado. Minha memória das safras anteriores era de este rótulo ser ainda mais tostado e abaunilhado, mas, na safra 2011, sobressaíram-se as frutas maduras. A moda dos vinhos pesadamente amadeirados está passando. Antes que me perguntem, sim, a safra importa muito no caso dos vinhos, por causa das diferenças na maturação das uvas a cada ano. Na boca, ele é razoavelmente seco, com taninos presentes (sensação de amarrar a boca) mas acidez contida, o que o torna mais fácil de beber e amigável, pronto para agradar aos mais diversos paladares. Corpo intenso, adstringente, levemente cremoso. Vinho que consegue ser agradável e marcante ao mesmo tempo, sem assustar e sem custar caro.

É possível que muitos dos meus leitores já tenham encarado, alguma vez na vida, uma taça deste Casillero. Se não o fizeram, fica a indicação: na próxima compra no supermercado, qual tal passar na seção de vinhos (fica ali do ladinho das cervejas!) e levar uma das garrafas com o simpático diabinho no rótulo? Abra-o em um jantar sem compromisso, sem esnobismo (até porque é um vinho muito mainstream para você se gabar) e aprecie-o em boa companhia. Para garantir que ele vá desprender bem os aromas, vale a pena arejá-lo: despejá-lo em um decanter ou jarra de suco com meia hora de antecedência seria o ideal, mas se você desarrolhar a garrafa antes e deixá-la respirando (ou deixar o vinho descansar na taça antes de beber), já vai sentir uma agradável diferença. Ele vai bem com carnes grelhadas, e eu gosto bastante dele com massas com molho vermelho um pouco mais “encorpado” (por exemplo, com bacon ou linguiça). Muitas vezes, harmonizar um vinho de paladar mais desafiador vai torná-lo mais amigável. Se você já experimentou o Casillero mas nunca deu bola para essa história de vinho, então fica o convite para comprar mais uma garrafinha e beber com a mente aberta.


Ein prosit, salut!

terça-feira, 15 de abril de 2014

Pegando pó: Orval, a divina alquimia

A fórmula VITRIOL resume, em latim, o princípio da 
alquimia: “visite a terra interior e encontre a pedra 
oculta pela retificação”. Do manual de 
Stolzius de Stolzenburg (1614).
Fonte: http://commons.wikimedia.org/
Alquimia. Do árabe al-khimiya, cuja origem é controversa, mas provavelmente derivada do grego khumeia, que significava o ato de fundir ou misturar líquidos. A alquimia chegou à Europa ocidental em torno do século XII por meio dos árabes (responsáveis por preservar boa parte do conhecimento científico da Antiguidade), e juntava-se à astrologia para formar o que os homens medievais tinham de mais próximo daquilo que hoje nós chamamos de “ciência”. A alquimia lidava com a transformação da matéria, e seu objetivo último era a obtenção da “pedra filosofal” (“khimiya”), que permitiria transformar o chumbo em ouro. Curiosamente, o lugar onde se praticava a alquimia medieval eram os mosteiros católicos – isso porque o clero era a única camada social letrada e com estudo formal na época. Na concepção dos alquimistas medievais, tratava-se de entender os princípios e leis com as quais Deus ordenou a matéria, para poder refinar as substâncias das mais rudes às mais preciosas, numa analogia com a purificação espiritual do homem por meio da religião. Portanto, para os padres medievais, nada estava mais próximo da alquimia do que o poder de Deus.

Nós, fãs de cervejas, sabemos que os monges medievais não se limitaram a tentar converter chumbo em ouro quando se trata de transformações da matéria. Pode ser que tenham falhado na busca da pedra filosofal, mas certamente tiveram muito mais sucesso em uma outra sorte de conversão química: aquela que transformava água, cevada e lúpulo em cervejas – de divino paladar e tão sofisticadas quanto o ouro.

Orval: o poder do tempo

A Orval faz parte do (cada vez menos) seleto grupo de cervejas que podem ostentar a denominação de “autêntico produto trapista”, devido ao fato de serem feitas dentro de monastérios trapistas (uma ramificação da ordem cistercience, pertencente à Igreja católica romana), sob supervisão dos monges. E é, sem sombra de dúvida, a mais idiossincrática de todas as cervejas trapistas. A começar pelo fato de ser o único rótulo distribuído comercialmente pela Abadia de Nossa Senhora de Orval, e ainda mais porque é muito distinta das ales belgas “de abadia” como as demais trapistas (com a exceção de alguns rótulos secundários da La Trappe). Boa sorte na tentativa de identificar seu estilo. A maior parte dos sistemas de classificação opta pela solução segura de incluí-la na categoria guarda-chuva de “Belgian specialty ale”. Já o especialista norte-americano Randy Mosher a descreve como “pertencente ao estilo saison, em sentido amplo”, postura discretamente endossada por Stan Hieronymus e por este que aqui escreve.

As ruínas do antigo monastério do século XII foram 
preservadas quando a abadia foi reconstruída 
na década de 1920.
Fonte: http://en.wikipedia.org/
A Orval é feita de acordo com uma receita da década de 1930, que provavelmente guardava semelhanças importantes com as saisons da época – muito populares na região do monastério –, como a água, rica em bicarbonato (o que acentua o amargor), a lupulagem expressiva e uma certa rusticidade rural. Mas o que realmente coloca a Orval numa categoria especial é a forma toda peculiar como ela evolui na garrafa depois de pronta. A Orval recém-saída da fábrica, depois de 6 meses e depois de 1 ano nem parecem a mesma cerveja.

Isso acontece devido às duas técnicas (raramente empregadas juntas) por meio das quais a Orval é produzida. Em primeiro lugar, além de ser expressivamente lupulada na fervura, ela ainda recebe uma dose extra de lúpulos durante a maturação, em dry-hopping, o que lhe garante um intenso aroma herbal e apimentado, típico de variedades europeias nobres de lúpulo. As variedades foram alteradas ao longo do tempo, e hoje incluem a alemã Hallertauer, a eslovena Styrian Goldings e a francesa Strisselspalt. Além disso, a Orval é refermentada em tanques horizontais por três semanas com uma cultura de leveduras locais que inclui uma cepa de Brettanomyces – as mesmas leveduras “selvagens” que ocorrem na fermentação das lambics. Apesar de ela ser centrifugada e engarrafada apenas com uma nova dose do fermento primário, as Brettanomyces continuam presentes na cerveja e irão estender sua atividade fermentativa por mais nove meses, pelo menos, imprimindo à cerveja uma acidez suave e aromas frutados e animais lembrando uvas verdes e couro cru.

Especula-se que essa dupla técnica de produção seja um reflexo não só das saisons locais (que eram intensamente lupuladas para os padrões belgas e que frequentemente continham Brettanomyces), mas também da composição do time de cervejeiros responsáveis pela produção quando a cervejaria foi inaugurada, nos anos 1930: um alemão (possivelmente mais inclinado ao uso dos lúpulos nobres) e seu assistente de Flandres (região famosa pelas cervejas com Brettanomyces).

Ocorre, porém, que as características de dry-hopping e de Brettanomyces desenvolvem-se de forma inversamente proporcional com o tempo: enquanto o aroma herbal e apimentado dos lúpulos tende a arrefecer, o aroma animal e frutado das Bretta vai se intensificando e a cerveja vai secando à medida em que prossegue a fermentação dos açúcares remanescentes. Assim que ela sai da fábrica, predomina claramente o caráter de lúpulos, sem aromas animais. Aos seis meses, os traços de couro cru e uvas verdes começam a se insinuar e, com 12 meses, alcançam uma espécie de equilíbrio com o lúpulo. A partir daí, a cerveja vai ficando cada vez menos herbal e vai desenvolvendo uma profundidade cada vez maior de aromas animais e de frutas ácidas.

Dentro de suas pequenas e charmosas garrafinhas abauladas, a Orval cumpre a promessa dos monges alquimistas: a transformação e o refinamento da matéria, a conversão do chumbo em ouro. Como um fiel monge católico, a cerveja aperfeiçoa-se e empreende um refinamento espiritual que a torna algo realmente único, digno do divino selo que ostenta. Ela é um testemunho não só do poder do tempo, mas da engenhosidade do homem em domesticar e usar o tempo a seu favor para transformar o mundo.

O monastério já abrigou mais de 100 monges, mas hoje 
menos de 20 vivem lá. A igreja está com dificuldade de 
encontrar novas vocações, e nós cervejeiros 
estamos em perigo!
Fonte: europevideoproductions.com
No Brasil, a Orval tem distribuição lamentavelmente irregular. Há épocas em que se encontra em falta no mercado. Antigamente, era difícil encontrar uma garrafa jovem, com menos de um ano de idade. Hoje em dia, com o mercado mais aquecido e os preços mais competitivos, os novos carregamentos trazem garrafas bastante frescas, com menos de 6 meses desde o engarrafamento, que rapidamente se esgotam, tornando mais difícil a tarefa de comprar a Orval já envelhecida. A solução é envelhecer você mesmo as suas garrafinhas da Orval para ter a oportunidade de testemunhar sua gloriosa alquimia.

Foi exatamente o que eu fiz. Eu já havia bebido a Orval com cerca de um ano de guarda – foi como a conheci e como me encantei por ela. Ainda acredito que seja um dos pontos altos de sua evolução. Depois de comprar mais algumas garrafinhas no início de 2010, deixei-as quietinhas na minha adega. A Orval nos faz o favor de imprimir no rótulo a data de envase, fazendo com que seja mais fácil e preciso controlar o tempo de guarda. Abri uma das garrafas com quase 2 anos de guarda, depois mais uma com 3 anos e meio, e finalmente uma última com 5 anos, agora em 2014. Vejamos o que ela traz em cada momento de sua vida.

A divina alquimia

Jovem, com apenas 7 meses de idade, a Orval mostrou seu lado fresco, rústico e campestre, com lúpulos em destaque. Sua coloração é âmbar escura, levemente acobreada, com baixa turbidez e um creme impecavelmente alto e fofo que é sua marca registrada – e que continua lá mesmo depois de 5 anos de guarda! No aroma, o dry-hopping é acentuado, predominando os tons terrosos, apimentados, herbais (capim-limão) e cítricos (casca de limão). O malte ainda é bem evidente, mostrando bastante castanhas e mel, e também se sente um leve frutado lembrando maçãs vermelhas. Os traços de Brettanomyces começam a se insinuar, tímidos, com algum caprílico e couro cru subjazendo a toda essa rusticidade herbal. Na boca, a versão jovem é a mais firme e assertiva de todas: mostra um amargor poderoso e encerra o gole com uma doçura breve que dá lugar a um final seco e amargo. A acidez é presente, mas suave. O corpo é mediano, mais intenso que nas versões envelhecidas, levemente acetinado, denunciando os açúcares residuais.

A Orval em sua glória, com sua poderosa espuma. 
O charmoso design da taça e da garrafinha foi 
feito pelo mesmo arquiteto que projetou 
a abadia reconstruída.
Fonte: edurecomenda.com
Nos próximos 6 meses, sua evolução é bastante acentuada. Que diferença em relação à Orval de 7 meses! Com 1 ano de guarda, a Orval apresenta equilíbrio entre características de lúpulo, frutado e traços animais, embora comece a pender mais para estes últimos. Couro cru predomina, e a complexidade do lúpulo se apagou em um aroma herbal mais genérico, lembrando ervas finas, com uma pontada de citricidade sugerindo laranja. As maçãs vermelhas ganharam terreno e dividem o palco com as uvas verdes das Brettanomyces. Amêndoas cruas denunciam uma elegante oxidação, e o malta se amaciou e converteu-se em um discreto, mas vívido pão branco. Na boca, a acidez é levemente mais perceptível, mas ela ainda guarda bem o amargor firme e perene e algo daquela doçura de malte no final do gole. O corpo continua mediano, ainda não secou completamente. Seu teor alcoólico seguramente já ultrapassou os 6.2% inicialmente indicados no rótulo, mas ela não o denuncia na boca. Este é seguramente um dos pontos altos de sua evolução, talvez aquele que tenha se fixado na minha memória como sendo o gosto da Orval.

A partir daí, ela começa a evoluir mais devagar, o que não significa que pare de se transformar. É só que as coisas chegam a uma espécie de ponto de equilíbrio e depois ela só vai “refinando”. Com quase 2 anos de idade, a Orval torna-se um pouco menos expressiva: perde seu frescor inicial e passa por uma fase em que a oxidação predomina de forma marcante com sensações terrosas e minerais de amêndoas cruas e marzipã, ao lado dos aromas animais e de uvas verdes das Brettanomyces. Estas também trazem violetas, pimenta-do-Reino, alguma canela e caprílico. O lúpulo já quase se apagou, tendo restado um toque de ervas finas e pimenta. O malte, maduro, mostra nuances de caramelo. Apesar da grande complexidade de aromas, parece que nem tudo está perfeitamente integrado, e o amendoado mineral rouba um pouco a cena na boca. A acidez é mais evidente no começo, sendo que depois o amargor seco predomina. A doçura final tornou-se suave. Seu calcanhar-de-Aquiles é o final breve, um pouco inexpressivo. Eu diria que a Orval atinge talvez seu ponto mais baixo nesse momento, para depois ressurgir mais resplendorosa.

Com 3 anos e meio, sua complexidade de aromas se reduziu, mas ela se tornou mais consistente, elegante e harmônica. Animal, couro cru e uvas verdes predominam claramente, lembrando vividamente o aroma de lambics, com o amendoado mais bem integrado. Há um afago oriental, que lembra intrigantes resinas aromáticas, e o malte se refinou e deu lugar a um elegante mel aromático. Dos lúpulos, sobrou um toquezinho apimentado. O paladar é mais neutro e mais seco, com breve acidez inicial que dá lugar a um amargor suave e estável na boca, atenuado em comparação com as outras versões. Quase não há doçura. O corpo afinou, tornou-se seco e gentil. Neste ponto, parece que a Orval se livrou de suas “sobras”, aparou suas arestas e manteve apenas a essência do que as Brettanomyces lhe trouxeram. Purificada, ela está pronta para seu próximo salto espiritual – a conversão em ouro. VITRIOL.

Resplandecente, de fato, é a Orval plenamente madura, com 5 anos de idade. Sua coloração clareou levemente e ela se mostrou cristalina, mas a espuma continua sólida como rocha. O bouquet tornou-se extraordinariamente limpo e complexo, ganhando uma intrigante tensão, antes inexistente. Couro cru e uvas verdes dividem o palco com feno, um refrescante mentolado, apimentado fenólico e um agudo aroma de grafite e aço. Raspas de limão e amêndoas cruas aparecem sem roubar a cena, perfeitamente integradas. Traços de mel perfumado, cachaça, acetona aromática e pão doce a tornam discretamente inebriante. Na boca, ela voltou a ganhar um pouco da sensação vibrante que perdera: acidez e doçura já quase não aparecem mais, e o amargor volta a brilhar limpo e preciso, conduzindo a um final mediano com sensação mineral e de aço. O corpo é muito leve, mas com sensação decididamente mineral, quase metálica. Elegante e sóbria, a Orval emergiu de sua peregrinação de 5 anos com a precisão cortante de uma lâmina de aço, com uma sensação metálica e agradável difícil de explicar, e com a humildade de um fiel cristão: firme em sua convicção, mas suave e nada violenta em seu proselitismo. Foi uma honra tê-la no copo.

O gráfico abaixo sumariza a evolução de suas principais características ao longo do tempo.



A Orval percorre um longo caminho de purificação espiritual desde sua saída da fábrica. Seu perfil inicial de lúpulo vai lentamente se dissipando enquanto ela desenvolve os traços animais e frutados associados às Brettanomyces. Sua transformação é rápida ao longo do primeiro ano, e depois se torna mais lenta. Há um momento em que ela parece tornar-se menos expressiva, por volta dos 2-3 anos, para depois ressurgir com uma intrigante complexidade. Inspirados pela metáfora cristã, diríamos que ela vai lentamente abandonando as vestes mortais e naturais com as quais foi criada, deixando para trás sua natureza herbal e seu amargor irritadiço, e vai gestando o embrião de uma complexidade belíssima e etérea. Ela se desprende do que é supérfluo e, quando parece destituída de tudo o que tinha, está no ponto de pureza adequado para um surpreendentemente refinamento alquímico, finalmente vestindo o “manto de glória” prometido aos fiéis católicos capazes de suportar todas as provações deste vale de lágrimas que é a vida terrena. Belo exemplo para que nós aprendamos, no silêncio reverente que sua degustação demanda.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Cerveja e cinema: Possuídos


Cartaz do filme com a chamada: “O 
detetive John Hobbes está à procura de 
um criminoso que ele já encontrou... 
já prendeu... e já matou.”
Depois disso, vi descer do céu outro anjo que tinha grande poder, e a terra foi iluminada por sua glória. Clamou em alta voz, dizendo: Caiu, caiu Babilônia, a Grande. Tornou-se morada dos demônios, prisão dos espíritos imundos e das aves impuras e abomináveis, porque todas as nações beberam do vinho da ira de sua luxúria, pecaram com ela os reis da terra e os mercadores da terra se enriqueceram com o excesso do seu luxo. [...] os negociantes da terra choram e lamentam a seu respeito, porque já não há ninguém que lhes compre os carregamentos: carregamento de ouro e prata, pedras preciosas e pérolas, linho e púrpura, seda e escarlate, bem como de toda espécie de madeira odorífera, objetos de marfim e madeira preciosa; de bronze, ferro e mármore; de cinamomo e essência; de aromas, mirra e incenso; de vinho e óleo, de farinha e trigo, de animais de carga, ovelhas, cavalos e carros, escravos e outros homens. (Apocalipse, 18: 1-13)

Não, não estou aqui para fazer pregação bíblica no blog. Na verdade, quero falar a respeito de um filme que vi recentemente. Lançado em 1998 e dirigido pelo pouco célebre Gregory Hoblit, o filme chama-se Fallen, título ineptamente traduzido no Brasil como “Possuídos”. Trata-se de uma película de pouca expressão, que teve recepção morna tanto de crítica quanto de público, mas que muito me agradou – o que só mostra que, assim como ocorre com cervejas, devemos primeiro fazer o nosso juízo sobre um filme que vimos e só depois levar em conta o que se fala sobre ele. O filme é um suspense policial com elementos sobrenaturais e conta a história de John Hobbes (interpretado pelo sempre competente Denzel Washington), um policial às voltas com um assassino serial – spoilers adiante! – que, na verdade, é um espírito maligno capaz de se apossar de diferentes corpos para perpetrar seus crimes.

Nas pistas deixadas pelo demônio em suas vítimas, o policial recolhe indicações que conduzem a um trecho do Apocalipse bíblico, cujo conteúdo se encontra reproduzido no início desta matéria. Embora seja irrelevante para o desenlace do enredo, o texto bíblico (que é apenas mencionado no filme, sem que seu conteúdo seja explicitamente revelado) fornece uma das chaves interpretativas do filme, ao comparar a decadente metrópole na qual a história se ambienta à Babilônia do Apocalipse: uma cidade corrompida, marcada pelo pecado, pela ganância e pelo luxo desmedido dos mercadores que negociam em produtos de luxo e em almas humanas. A sugestão do filme é clara: se o demônio Azazel desfila impávido e desimpedido pela metrópole, apossando-se de seus habitantes sem dificuldade nenhuma, é porque encontrou na cidade moderna um lar de decadência espiritual semelhante à Babilônia bíblica.

A representação da metrópole decadente era frequente na 
produção cinematográfica dos anos 1980 (acima, uma 
cena de Blade Runner, 1982). No cinema recente, tendeu 
ser substituída por imagens assépticas 
da prosperidade urbana.
Fonte: wah-magazine.tumblr.com
O interessante é que o demônio, apesar de disposto a transformar a vida do policial John Hobbes em um inferno, parece incapaz de possuir seu corpo. O espírito maligno circula livremente pelos habitantes de uma moralmente decadente metrópole norte-americana, mas o policial mostra-se imune a seu toque corruptor. Estaria ele num patamar moral superior ao dos demais habitantes? O filme não nos explica por que isso ocorre, mas nos dá indícios. Numa das primeiras cenas do filme, Hobbes senta-se à mesa de um bar para uma conversa com seus colegas policiais, que falam sobre o hábito que tinham de aceitar subornos. Hobbes mostra-se refratário e afirma não participar de esquemas de corrupção – mas também não julga nem condena seus companheiros que participam.

O filme poderia simplesmente se esvaziar numa espécie de lamento saudosista e vagamente conservador a respeito de como “a humanidade está corrompida nos tempos modernos” e de como “os homens eram mais decentes no passado”, e todo esse blablablá decadentista que forma o monótono feijão-com-arroz de 99% dos discursos políticos conservadores. Poderia; mas não chega a fazê-lo. Isso porque as cenas em que o demônio possui os corpos das pessoas ou comete seus crimes estão todos saturadas, de formas sutis mas importantes, pelos signos da sociedade de consumo: vendedores e compradores nas ruas, caixas de cereais matinais, contratos de trabalho e relações de patrão e empregado formam o habitat em que o demônio circula e atua. E a cerveja entra numa dessas sutis referências que esclarecem melhor o sentido do enredo.

Numa das cenas em que Hobbes conversa com seus colegas, policiais assumidamente corruptos, segue-se uma breve discussão a respeito da cerveja que irão beber. Aparentemente, estão todos sentados em um bar que serve cervejas importadas, oferecidas como produtos “de luxo” (olha a Babilônia aí!). Hobbes pede uma cerveja comum e corriqueira – uma singela Budweiser –, ao que um dos seus colegas se espanta, sugerindo que ele deveria pedir alguma das importadas do bar: uma Beck’s, talvez uma Guinness ou Bass. Hobbes, resoluto, segue solicitando à garçonete sua corriqueira Bud. É questionado mais uma vez: “Então pelo menos uma Bud Dry, ou uma Bud Ice?” Não, só uma Bud normal mesmo. Sem frescura, sem novidade, sem invenção. Afinal de contas, o que há de errado com a velha Bud? Ou será que o policial precisa, necessariamente, entrar na roda do consumo e procurar sempre novos produtos, comprar mais e mais?

“Algum problema?”
Fonte: partparcelny.com
Às vezes eu me sinto um pouco como o policial Hobbes. OK, é evidente que meus leitores e eu compartilhamos um gosto por cervejas variadas, que fujam da mesmice. Mas o filme me fez pensar, não sem um certo incômodo, sobre a “Babilônia” em que tem se transformado o mercado brasileiro de cervejas ditas “especiais” ou “gourmet” (não sei qual dos dois termos eu detesto mais). Enquanto muitos falam hipocritamente em “beber menos e beber melhor”, contam o dinheiro gordo movimentado por esse mercado e suas amplas margens de lucro, incentivam e praticam uma espécie de consumismo desenfreado de acordo com o qual o que vale é beber sempre mais, a maior quantidade de marcas, os rótulos mais caros. Parece que “beber melhor”, na prática, quase sempre significa “beber mais e mais caro”. Se isso não é a imagem da Babilônia invocada pelo Apocalipse bíblico, eloquente a respeito de seus excessos de luxos e mercadorias, não sei o que é.

Afinal de contas, qual o problema em beber a boa e velha cerveja de sempre? Nas rodas cervejeiras, parece que virou pecado dizer que você bebe “a de sempre”. Pecado, meus amigos, é o esnobismo, o elitismo, o consumismo desenfreado. No caso do filme, a “de sempre” é a Budweiser, clássica lager estadunidense. Por muito tempo, a Bud não era produzida no Brasil; era uma cerveja importada, com posicionamento diferenciado, como a Beck’s, a Guinness ou a Bass da cena do filme. Hoje em dia é produzida no Brasil pela AmBev, mas sob uma curiosa classificação de “cerveja premium” (coisa que ela está distante de ser no seu país de origem). Aqui, o que corresponderia a ela seriam marcas de ampla circulação, tais como Skol, Brahma e que-tais.


Fica o desabafo: não tem nada de errado beber cerveja “comum”. Errado mesmo é excluir ou esnobar quem bebe essas cervejas – as quais, diga-se de passagem, 99% dos amantes das ditas “cervejas gourmet” um dia já beberam com prazer. Eu gosto de variar (acho que isso é óbvio pelo mero assunto deste blog), mas às vezes, quando quero me afastar um pouco dos excessos desta “Babilônia cervejeira”, abro uma garrafa da minha “ordinária” preferida – no meu caso, a velha e boa Bohemia, com aquele refrescante perfuminho cítrico que eu adoro. Às vezes a Heineken (nem sempre é fácil achar a Bohemia em boa forma nos bares e mercados...). Mas a verdade é que qualquer uma está valendo. O importante é não ser chato a ponto de excluir nenhuma. Porque, estou convicto, beber cerveja nenhuma vai me levar para o inferno, mas esnobar quem bebe tem boas chances de me garantir um encontro com os demônios da sociedade de consumo que atormentam nossas vidas.

sábado, 15 de março de 2014

As cervejas mais interessantes de 2013

Na última postagem, comentei algumas questões gerais a respeito do mercado cervejeiro de 2013. Agora, quero falar sobre rótulos específicos que me impressionaram no ano passado, seja pelo seu nível de excelência e complexidade, seja pelo seu custo-benefício, seja pelo que representaram ao longo desse ano que passou. Optei por não incluir aqui rótulos que estejam indisponíveis no mercado brasileiro, por alguns motivos. Em primeiro lugar, porque quero oferecer aos leitores um guia daquilo em que, na minha opinião, vale a pena gastar seu rico dinheirinho num ano marcado por lançamentos caros. Em segundo lugar, porque já tive a oportunidade de comentar aqui no blog, em outros momentos, algumas cervejas extraordinárias que passaram pelo meu copo e que não chegam ao Brasil. Limito os comentários a algumas palavras gerais sobre cada rótulo, mas, se você quiser saber mais detalhes, basta clicar no nome de cada uma para ver a avaliação completa. Então chega de papo furado e vamos aos destaques!

As importadas

Começo falando sobre as cervejas importadas que passamos a ter no mercado no ano passado. Houve muitos lançamentos extremamente caros que eu não tive a oportunidade de provar (foi-se a época em que eu tentava provar um pouco de tudo o que chegava ao Brasil), mas a verdade é que poucos são os que realmente valem o que custam.  Então farei um mix de rótulos caros e extremamente recompensadores, junto com outros de custo-benefício mais favorável.

Fonte: www.cardinal.no
Dentre aqueles que vão onerar seu bolso, a linha de lambics da Cantillon chama a atenção pelo nível de excelência. Um dos maiores destaques é a Cantillon Grand Cru Bruocsella Lambic Bio, lambic pura que maturou durante 3 anos em barris de carvalho. Como ela é engarrafada direto do barril, sem blendar com lambics mais jovens e sem receber nenhuma adição de açúcares, não refermenta na garrafa e, portanto, não desenvolve nenhuma carbonatação, ficando completamente sem gás, como um vinho branco. Sua acidez é mais elegante e contida do que na gueuze, com uma pontada discreta de doçura. No aroma, abundantes camadas de frutas cítricas e maduras (pêssegos, nectarinas, tangerinas, framboesas, limas-da-Pérsia) misturam-se a uma envolvente doçura abaunilhada, com um elegante acento mineral e apimentado. As notas animais e terrosas, típicas do estilo, são um pouco mais suaves do que na gueuze. Os taninos são relativamente leves, deixando-a com um final menos persistente na boca. Esta raridade, de produção e distribuição limitadas, chega ao Brasil custando em torno de R$ 150 pela garrafa grande, de 750 ml.

Fonte: moe-pivo.blogspot.com
Outra cervejaria cara que impressiona pelo grau de qualidade de seus rótulos é a De Molen. Sua impecável linha de cervejas maturadas em madeira mostra a competência virtuosa com a qual a marca trabalha com seus barris. Dentre as que pude provar, o destaque vai para a De Molen Hel & Verdoemenis Misto Bourbon Barrel-Aged. Trata-se de uma versão ligeiramente mais alcoólica da imperial stout Hel & Verdoemenis (que já é incrível em sua versão básica), maturada em barris de carvalho usados para produção dos bourbons Wild Turkey e Austin Nichols e depois blendada à perfeição. Parece um pavê de chocolate engarrafado, daqueles feitos por aquela sua avó manguaceira, com biscoitos umedecidos com vinho do Porto. Biscoito, caramelo e sorvete de chocolate se misturam deliciosamente a uma baunilha limpa, potente e suculenta trazida pelos barris, sem detrimento das frutas passas e dos toques licorosos lembrando Porto. Tons torrados (café e queimado) aparecem sem roubar a cena. A doçura predomina (como numa sobremesa), mas com amargor correto que a impede de ser enjoativa. Excelente sensação licorosa e sedosa na boca. Cerveja dessas irritantemente impecáveis, nas quais você não consegue botar defeito nem que tente. Ah, sim, tem um defeito: custa R$ 85 no Brasil (contra meros 5 euros lá fora). Ops.

Passemos a rótulos para os quais não será necessário fazer poupança ou dilapidar seu holerite. Apesar de ter sido um ano cheio de cervejas caras, houve alguns destaques naquela faixa mais confortável (não disse “barata”, entenda) em torno de R$ 20-25. O primeiro é um exemplar paradigmático do jeito americano de se fazer Russian imperial stouts, mais rústico, seco e lupulado que os ingleses. Trata-se da North Coast Old Rasputin Russian Imperial Stout, que nos chega na faixa dos R$ 20 pela garrafa pequena. Cerveja de força e pegada, com os tons torrados e queimados (café, cinzas, cacau torrado) predominando sobre os mais macios (caramelo, castanha, amadeirado). Mentolado, frutas vermelhas e um quê cítrico da lupulagem expressiva lhe adicionam frescor e complexidade. O final é amargo e seco, com sensação aveludada sem ser pesada em excesso. Boa compra para a adega.

Fonte: www.cask.com.br
Outra linda americana que chegou em 2013 – e que não recebeu a atenção que merece – foi a Ballast Point Big Eye IPA. Este rótulo acabou ficando ofuscado pela sua mais popular irmã, a Sculpin IPA, mas eu a achei uma IPA americana mais equilibrada e agradável, sem os extremismos da Sculpin. Como manda a tradição da costa oeste, não exibe sensação caramelada, mas ainda tem uma certa doçura de malte que a equilibra de forma elegante, escoltando um amargor intenso, limpo e refrescante, que não agride a garganta. No aroma, uma profusão de tons cítricos (casca de laranja, cidra), frutados (framboesa e mamão), herbais (verbena deliciosamente perfumada) e leves florais, que se casam com a doçura de geleia do malte para sugerir suculentas compotas de frutas. Corpo mediano, levemente melado, menos seco que a Sculpin’, mas ainda sem enjoar. Ótima representante do estilo, que se encontra por aí na faixa dos R$ 20 pela long neck.

Fonte: http://www.flickr.com/photos/47365105@N06/
Por fim, uma cerveja que virou minha cabeça: a Mikkeller/Grassroots Wheat is the New Hops. Para quem não sabe, “Grassroots” é a linha colaborativa de uma das mais prestigiadas cervejarias norte-americanas do momento, a Hill Farmstead (que acaba de ser considerada a segunda melhor cervejaria do mundo na votação do Rate Beer de 2013). Trata-se de uma American IPA que fermenta apenas com leveduras do gênero Brettanomyces. Como não recebe bactérias láticas, ela não é ácida, mas tem alguma coisa daquele aroma deliciosamente fresco e rústico das lambics. As Brettamomyces juntam-se aos lúpulos para criar novos e sofisticados horizontes de frescor frutado, cítrico e herbal (uvas verdes, peras brancas, maracujá, terroso, capim-limão, lima-da-Pérsia, leve pimenta). Há um levíssimo acento animal de fundo, bem como um breve toque acético que depois dá lugar a um amargor seco e terroso que se prolonga no final. No nariz lembra um vinho branco mais seco (pense em Sauvignon Blanc, por exemplo), mas na boca o amargor faz as vezes da acidez. Sabemos que as microcervejarias europeias da “nova geração” costumam ser caras, e este rótulo chega ao Brasil na faixa dos R$ 25 pela long neck.

As nacionais

Como já comentei, o ano foi um pouco mais morno no cenário nacional, com poucos lançamentos que realmente tenham se destacado pela sua qualidade. Boa parte das novas cervejas brazucas de 2013 se compõe de imitações de segunda categoria (desculpa, é verdade) de estilos norte-americanos da moda, sobretudo IPAs. E nem sempre com bons preços em relação às importadas dos mesmos estilos.

A Bamberg mantém uma atitude relativamente discreta, “low-profile” no cenário nacional, mas foi responsável por alguns dos lançamentos mais interessantes de 2013. Num momento em que todas as cervejarias estão correndo atrás dos estilos norte-americanos, a Bamberg não teve medo de ser fiel às suas origens germânicas e está lançando muitas receitas inovadoras e instigantes criadas a partir de estilos alemães. No início do ano passado, a Bamberg trocou todo o seu equipamento por um que lhe permite empregar uma técnica usada nas cervejarias alemãs mais tradicionais, a decocção do mosto. O resultado são cervejas com perfil mais rico e saboroso de malte. O grande destaque do ano, para mim, foi a edição de 2013 da sazonal Bamberg Caos. O estilo, pouco usual, é denominado às vezes de “doppelsticke”, e consiste em uma versão mais intensa e alcoólica de uma altbier. Na versão da Bamberg, o aroma exala notas frutadas e lácteas, lembrando vivamente iogurte de morango (com cerejas e passas ao fundo), enquanto o malte traz bastante caramelo, castanhas e um quê de café-com-leite. Ela entra bem doce e suculenta na boca, porém, o final traz um amargor intenso para equilibrar. Cremosa e aveludada na boca, não revela seus 8% de álcool. Tem bom potencial de guarda. A long neck se situa na amigável faixa dos R$ 12 e sai todo ano em abril. Não perca.

Um lançamento que fez bem mais barulho no cenário nacional foi a Bodebrown/Stone Cacau IPA, feita em parceria com Greg Koch, mestre-cervejeiro da Stone que visitou o Brasil no início do ano passado. Trata-se de uma IPA de estilo americano virtuosamente bem-executada, com uma discreta adição de lascas (nibs) de cacau. Enquanto 95% das IPAs brasileiras perdem o frescor aromático depois de alguns poucos goles e te deixam com um copo cheio de chá de capim, a Cacau IPA consegue se manter perfumada e fresca até o fim. Ela começa bem cítrica, com uma sensação meio amanteigada (lembra manteiga de cacau mesmo) de mousse de maracujá, depois revela perfumes herbais frescos em boa intensidade (cidreira, capim-limão, pinheiro, mentol) e, por fim, desenvolve um aroma frutado lembrando pêssego. O caramelado do malte está lá o tempo e, com o tempo, aparece uma nuancezinha lembrando chocolate ao leite. O cacau é suave no conjunto, o que a faz parecer mais uma boa IPA (o que não é pouco) do que uma cerveja com cacau. Ela começa doce e caramelada, levando a um final amargo, não seco, mas sim oleoso. Seu preço aqui em São Paulo assusta e não incentiva o repeteco, mas pelo menos permite a prova: R$ 23 pela garrafa “caçulinha” (300 ml).

Meu terceiro destaque nacional vai para uma cerveja intensa, marcante e de bom custo-benefício, pelo menos aqui em SP: a Invicta Imperial Stout. Ao contrário da Old Rasputin, que comentamos acima, a Russian imperial stout da Invicta é pesada, doce e indulgente como um bolo de chocolate bem cremoso. Muito chocolate daqueles “do padre”, caramelo, biscoitos doces e um tiquinho de café de coador, ao lado de um frutado bem expressivo e sofisticado, lembrando cerejas ao marrasquino e figo verde em calda. Grossa, viscosa e oleosa na boca, com um paladar bem doce que é equilibrado por um amargor assertivo aparecendo no retrogosto e um aquecimento alcoólico inclemente. Para fechar uma noite de gulodices por um preço amigável, na faixa dos R$ 20 pela garrafa de 500 ml. Faz um bom contraste e rende uma bela degustação comparada com outra imperial stout brasileira lançada em 2013, bem mais seca, amarga e rústica: a paranaense Dum Petroleum. Ambas prometem bom futuro na adega.

Sabemos que o Brasil ainda é carente em lançamentos de cervejas maturadas em barris (que estão entre meus estilos favoritos, não é segredo). Ainda existe um vácuo legislativo a esse respeito, que torna a regularização mais incerta. No início de 2013, a cervejaria Wensky lançou a Wensky Drewna Piwa, uma old ale robusta, de 9.5% de álcool, que resultava de um blend em que metade maturou por 4 meses em barris de carvalho americano virgem, enquanto a outra metade maturou em chips de carvalho francês. Old ale comme il faut. É sinal benfazejo ver uma cervejaria procurando o melhor balanço entre madeiras de diferentes origens, como as boas vinícolas já sabem fazer há muito tempo. O uso competente da madeira acentua a suculência e a maciez dos maltes doces, resultando em uma avalanche de doce de leite, toffee, caramelo, castanhas e chocolate. Frutas passas e laranja a complementam com alguma licorosidade que lembra vermute. Além do aroma de madeira propriamente dita, a baunilha do carvalho americano funde-se harmoniosamente às percepções de noz moscada, mineral e mentolado, mais típicas do carvalho francês. A versão blendada ainda não tinha registro comercial. Em meados de 2013, a Wensky Drewna Piwa voltou ao mercado com novo rótulo e já com registro, mas com novo processo de produção, que usava apenas chips de carvalho francês, em vez dos barris propriamente ditos. Ainda não provei a nova versão, espero que mantenha o nível de excelência da anterior. A garrafa de 500ml sai na faixa dos R$ 26, o que não é abusivo considerando-se o estilo. Sou feliz proprietário de mais duas garrafas do primeiro lote, que estão evoluindo na minha adega.


Taí. Nove lançamentos de 2013, para todos os gostos e bolsos. Todos ótimas compras, independentemente do preço. Concorda, discorda, gostaria de adicionar alguma outra sugestão? Use o espaço dos comentários abaixo!

sábado, 1 de março de 2014

Balanço cervejeiro de 2013

“Cheguei, galera!”
Fonte: estudos.gospelmais.com.br (juro!)
Sim, estou atrasado. Mas esta vida exige prioridades claras – e a minha era terminar nossa viagem pelo mundo das cervejas selvagens, o que fizemos na última quinzena. Feito isso, volto no tempo para fazer um balanço do ano cervejeiro de 2013. Não vou falar – ainda – sobre cervejas particulares. Quero primeiro comentar alguns destaques gerais do mercado e algumas expectativas para 2014. Na quinzena que vem, elejo algumas das cervejas que mais gostei de descobrir no ano que passou.

As importadas

O mercado cervejeiro está aquecidíssimo, e isso não é segredo para ninguém. Especialmente no que tange às importações, cuja burocracia é um pouco mais fácil de resolver do que para o lançamento de novas cervejas e marcas nacionais. 2012 já havia sido um ano de importações dignas de nota (basta pensar em cervejarias como a norte-americana Founders, a belga De Struise ou a holandesa De Molen), sobretudo no que diz respeito ao aporte de rótulos de produção elaborada e preços nas alturas, como as cervejas envelhecidas em barris. Mas 2012 também havia sido um ano em que a concorrência apertou as margens de lucro e fez caírem os preços de outros rótulos clássicos, sobretudo belgas. Na época, desenhou-se uma bipartição das importações entre rótulos consolidados, com preço tendente à queda, e rótulos de luxo com preço em ascensão. Em 2013, contudo, só essa segunda tendência de elevação de preços e de nível de elaboração dos rótulos parece ter se acentuado. Tivemos a chegada de várias cervejarias conceituadas lá fora, como Evil Twin, De Dolle, Cantillon, 3 Fonteinen, To Ol, e a ampliação da oferta de produtos de luxo de outras cervejarias que já davam as caras por aqui, como Mikkeller, De Struise ou De Molen.

Por um lado, hoje podemos dizer que o mercado brasileiro está bem abastecido de cervejas de patamar superior, “world-class”, que são consideradas referências em estilos prestigiados e difíceis de se produzir com competência, como é o caso das cervejas maturadas em barris ou lambics. Por outro lado, a escalada de preços assusta: as últimas levas de importadas ultrapassaram com frequência a cifra de R$ 100, muitas vezes por garrafinhas pequenas. Calculo que o número de rótulos nesse patamar de preços deve ter triplicado, talvez quintuplicado, em 2013. Assim como já ocorre há anos no muito mais maduro mercado de vinhos, é possível que tenhamos começado a ver a consolidação de um modelo baseado em “faixas de preço” (mas mais complexo do que nos vinhos, devido à interferência de variáveis como o volume das garrafas), o que inevitavelmente leva o mercado consumidor a se dividir em fatias de renda. Não é mais verdade que qualquer apreciador de cerveja artesanal pode provar os principais lançamentos do ano.

Ou você acha que alguém 
realmente comprou isso tudo?
Fonte: www.bebendobem.com.br
O que me preocupa é pensar até que ponto essas cervejas de luxo estão realmente vendendo. Vejo comentários sobre elas em blogs que recebem garrafas de graça para fazer publicidade, ou de pessoas convidadas para degustações comerciais e outras “boquinhas”, mas não vejo muita gente realmente comprando essas cervejas. É o mesmo vício que existe no mercado brasileiro de vinhos: os vinhos top fazem muito barulho nos blogs devido às práticas de bonificação, mas vendem muito pouco. Cerca de 80% do volume de vinhos vendido hoje pelo maior varejista do Brasil (o Pão de Açúcar) corresponde a vinhos abaixo dos R$ 18, ou seja, praticamente no piso do setor de vinhos finos. E a verdade é que essas práticas de bonificação, como a oferta de garrafas e degustações gratuitas para os “formadores de opinião” do mercado, faz com que o preço aumente para o consumidor final. Será que estamos vendo a mesma coisa acontecer com as cervejas? Há gente por aí falando em bolha. Por um lado, essas novas cervejas “de luxo” normalmente possuem longos prazos de validade e podem se dar ao luxo de demorar para vender; por outro, os estoques precisam rodar, e não sei até que ponto essas cervejas garantirão a rotatividade necessária para importações continuadas. Receio que voltemos a ter aquela situação típica de mercado imaturo: cervejas que vêm ao Brasil uma vez só e depois nunca mais voltam. Seria uma pena.

A outra ponta do mercado das importadas foi o boom das norte-americanas. Mas com reservas. Paradoxalmente, 2013 foi o ano das americanas em volumes de importação, mas também foi um ano em que os novos lançamentos se concentraram em cervejas repetitivas, que oferecem pouco interesse ao degustador. Muitas novas cervejarias, mas muito poucos rótulos realmente inovadores e interessantes, ou mesmo especialmente representativos. A maior parte do que chegou se limita a American pale ales, amber ales, IPAs, stouts e porters, o bê-a-bá da escola cervejeira norte-americana. Aqui e ali, alguma saison mais interessante. Cadê as surpreendentes criações dos ianques? Cadê as sour ales, as imperial stouts, as barrel-aged beers? E tudo vendido a preço de ouro: cervejas que custam US$ 2 lá nos EUA raramente aparecem por aqui por menos de R$ 20. 90% das americanas que têm chegado ao Brasil são cervejas de baixo teor alcoólico, que foram pensadas para serem consumidas em larga escala, mas cujo preço torna essa prática proibitiva aqui no Brasil. E algumas delas chegam em condições deploráveis (como é o caso das Anchor, cujas garrafas têm demonstrado um alarmante cansaço aqui no Brasil).

Para mim, as americanas de 2013 foram uma grande decepção. Com duas exceções: em primeiro lugar, a North Coast, com pelo menos uma cerveja que é referência de estilo, a Old Rasputin Russian Imperial Stout, e que realmente vale os R$ 20 que se paga pelas americanas por aqui. Em segundo lugar, a Ballast Point. Recebemos apenas a linha básica dessa sensacional cervejaria californiana, mas a amostra é boa e inclui pelo menos duas IPAs de alto padrão: a mais badalada Sculpin’ IPA e a subestimada, mas a meu ver mais equilibrada e agradável, Big Eye IPA. É preciso que os nossos importadores voltem a seguir o caminho que predominava antes em importações como a da Founders ou da Brooklyn: rótulos de qualidade consistente, bem acondicionados e distribuídos, com preços competitivos para conquistar e fidelizar novos consumidores. Precisamos de importadores que queiram vender a segunda garrafa para seus clientes, como já tem ocorrido no mercado de cervejas belgas e alemãs. A curiosidade pode nos fazer comprar uma cerveja pela primeira vez, mas é seu custo-benefício e sua consistência que nos farão comprar de novo e consolidar o mercado.

As nacionais

Se a coisa pegou fogo no domínio das importadas, o mesmo não aconteceu com as cervejas nacionais, que viveram um 2013 muito morno. O grande destaque foi a ampliação da prática de contract brewing, ou seja, dos contratos firmados por produtores independentes para produzir suas cervejas em fábricas já existentes. A burocracia necessária para abrir uma cervejaria no país é insana, e o contract brewing forneceu uma alternativa para os produtores que queriam fazer o salto entre a produção caseira e a comercial. Foi assim que marcas como a Dum ou a Urbana conseguiram entrar no mercado em 2013, prometendo boas novidades e mais rótulos para 2014. Quem conheceu a qualidade desses produtores, quando eles ainda estavam nas panelas caseiras, sabe que ainda tem muita coisa boa por vir.

Desse mato ainda sai coelho em 2014.
Fonte: www.allbeers.com.br
Mas as boas novidades pararam por aí. Para todas as outras cervejarias, foi um ano decepcionante. Poucos lançamentos dignos de nota, a maioria consistindo em reproduções de qualidade inferior dos estilos norte-americanos da moda, sobretudo as IPAs. E o pior: custando tanto quanto ou mais caro do que as American IPAs importadas direto da fonte! O resultado, infelizmente, foi uma sucessão de lançamentos desinteressantes, caros e medíocres, que eu nem tive gosto de acompanhar como fazia nos anos anteriores. Há um gargalo burocrático para experimentação (como as restrições para uso de certos ingredientes e a ausência de definição legal para o uso da madeira), mas é preciso ir além do que foi feito em 2013. E agora as cervejarias nacionais estão em uma posição delicada: com a invasão do mercado pelas importadas “de luxo”, não podem mais cobrar os absurdos que vinham cobrando por cervejas mais elaboradas. Essa é uma promessa a cumprir pelas cervejarias brasileiras em 2014.

É preciso apontar para o papel desempenhado pela irritante moda das cervejas norte-americanas. Hoje em dia, parece que só se pode ser legal bebendo IPA (americana, de preferência. O que, existe IPA inglesa?). As cervejarias brasileiras obviamente tentaram atender a essa tendência de mercado, mas em geral só se embananaram. A matéria-prima principal desses estilos (o lúpulo, e em especial as variedades norte-americanas) é cara no Brasil, ainda tem distribuição irregular e chega em mau estado de frescor, o que torna mais difícil a tarefa de produzir boa cerveja. Para piorar, as cervejarias brasileiras não têm know-how para produzir cervejas em estilo inglês e americano. Nosso mercado de artesanais cresceu apoiado na bagagem da tradição alemã. Claro que ninguém quer ficar só bebendo as alemãs basiconas (pilsner, Weiss, Schwarzbier etc.), mas o que eu esperava é que as nossas cervejarias fizessem com os estilos alemães exatamente o que os norte-americanos fizeram com os estilos ingleses: extrapolassem e criassem coisas novas e surpreendentes. É assim que teremos algo de relevante para contribuir com o cenário cervejeiro mundial. São pouquíssimas as cervejarias brasileiras que ainda se dedicam a experimentar com estilos e técnicas alemãs, entre as quais o destaque ainda é a Bamberg. Será que é por isso que a Bamberg foi responsável por alguns dos lançamentos mais interessantes e consistentes do ano?

A parte social

Com o crescimento do mercado, é natural que tenha ocorrido também um crescimento do zum-zum-zum sobre cervejas artesanais no país. Novos blogs, novos eventos e novos canais de divulgação. As cervejas ditas “especiais” definitivamente caíram no gosto dos brasileiros e hoje são talvez a bebida com maior visibilidade nas tendências de consumo, sobretudo entre os jovens de classe alta (A e B), que sentem que vinhos não são “descolados” o suficiente mas que querem se diferenciar em seus hábitos de consumo da classe C, que tem cada vez mais acesso às cervejas classificadas como “premium” (como Heineken, Budweiser, Original e que-tais).

A surreal fila de entrada do Beer Experience 2013.
Fonte: www.destinoscervejeiros.com
Curiosamente, esse crescimento do público e da comunicação não se fez acompanhar por uma ampliação da oferta de bons eventos centrados nas cervejas. 2013 teve vários eventos cervejeiros, mas o tom dominante de quem compareceu a eles foi de decepção. Ingressos caros para eventos que não ofereciam nenhum tipo de diferencial decisivo, seja em termos de rótulos exclusivos, seja em termos de descontos nos preços. E, para piorar, a infraestrutura frequentemente se mostrou precária, incapaz de atender necessidades básicas de um público consumidor de bebidas alcoólicas (como água, banheiros, comida, transporte coletivo etc.). Acredito que muitos organizadores tenham aprendido com os erros de 2013, e espero que 2014 tenha eventos mais bem organizados.

Na falta de mais eventos, a cultura cervejeira brasileira tem, cada vez mais, se tornado uma cultura de empórios – e mesmo de lojas on-line, cruciais num país de território tão dilatado e com economia tão centralizada no eixo sul-sudeste. E o mercado ainda está excessivamente centralizado em São Paulo. Tudo isso vai na contramão do que acontece no mercado norte-americano. Nem reclamo disso, na verdade, porque prefiro beber minhas cervejas em quantidade moderada, na companhia de amigos não-cervejeiros e de minha namorada, e o público cervejeiro que comparece aos eventos ainda é lamentavelmente pouco receptivo à vida feminina inteligente.

Por fim, a atitude da comunidade cervejeira nas redes sociais e mídias on-line tem me irritado um pouco. Apesar do crescimento do mercado, ainda predominam as patotinhas, as lamentáveis guerras de ego travadas por meio de constrangedores torpedos virtuais e o silêncio consentido. Silêncio sobre os preços e práticas abusivas do mercado. Uma irritante atitude baseada na monotonia do mantra do “paga quem quer, o quanto quer”. É como se os problemas deixassem de existir quando paramos de falar sobre eles. Uma comunicação de mercado que se preze exige muito mais transparência do que estamos vendo hoje. Acho que uma prática salutar que deveria ser adotada pelos blogueiros e comunicadores do meio - e que eu pretendo seguir - é sempre anunciar o preço das cervejas que estão sendo comentadas e divulgadas. Não se pode mais ingenuamente presumir que elas serão acessíveis para todos os leitores.


Na próxima quinzena, falo sobre as cervejas que mais me agradaram em 2013. Não perca!