sábado, 29 de setembro de 2012

Cerveja e artes plásticas: Abundância, alegria e moralismo em Pieter Bruegel


Na transição da Idade Média para a época moderna, a região de Flandres (que atualmente corresponde a parte da Bélgica e Holanda) participou ativamente de uma das mais vigorosas transformações na pintura europeia, desenvolvendo o que veio a ser conhecido como a “escola flamenga” de pintura. Embora seja normalmente reconhecida como parte do Renascimento europeu, a escola flamenga difere bastante da arte italiana da época. Sua pintura tornou-se conhecida pelo seu detalhismo exuberante e pela maior atenção ao ambiente e à paisagem circundante. Como resultado, em vez de se ater a algumas figuras importantes, a pintura flamenga muitas vezes produziu grandes painéis de inigualável riqueza de detalhes e informações sobre o modo de vida da época.

Ora, todos nós, apreciadores de cerveja, estamos carecas de saber que, além de ser o berço da escola flamenga, essa parte da Europa também é uma das mais tradicionais regiões produtoras de cerveja do mundo. Não espanta, portanto, que a cerveja tenha sido figurada com alguma frequência nas obras de arte da época. Partiremos hoje da obra de um pintor chamado Pieter Bruegel (também conhecido como Brueghel, o Velho, já que seu filho também veio a se tornar pintor) para refletir um pouco sobre o papel da cerveja e dos alimentos de forma geral na cultura europeia da época. Bruegel é autor de uma série de representações da vida camponesa do período – alguns afirmam que ele chegava a se vestir como camponês para poder frequentar eventos populares e observar melhor! E, como não poderia deixar de ser, a cerveja aparece em algumas dessas representações.

Cerveja e festa

Pieter Brueguel – O casamento camponês (1568)
Fonte: http://www.ibiblio.org

Tomemos como exemplo O casamento camponês, de 1568. Essa pintura é notável por vários motivos. Observe-se especialmente a solução da composição, feita de forma assimétrica com perspectiva em dois pontos de fuga, o que consegue ao mesmo tempo criar um amplo espaço para os convivas do lado esquerdo sem esconder as personagens sentadas à mesa. A noiva, figura principal do evento, é destacada de forma sutil e natural pelo tecido verde pendendo atrás dela. Mas o verdadeiro protagonista do quadro é o povo, com sua disposição de aproveitar ao máximo a festa, conversando alegremente, ouvindo música e comendo e bebendo o que, na época, era uma raríssima fartura alimentar. Aliás, não é assim até hoje? Conheço algumas pessoas que só vão a casamentos para comer e beber – e, evidentemente, depois falar mal da comida e da bebida pela qual foram à festa.

Pieter Brueguel – O 
casamento camponês (1568) 
- detalhe
Fonte: http://www.ibiblio.org
O observador atento já terá visto a cerveja na cena. Há alguns jarros e canecos de cerâmica sobre a mesa – lembremo-nos de que não era costume usar vidro nos copos de cerveja antes do século XIX. E, principalmente, há a figura no canto inferior esquerdo, enchendo um jarro pequeno a partir de um grande cântaro. A cena evoca as representações pictóricas das bodas de Canaã, durante as quais se atribuiu a Cristo o milagre de transformar água em vinho. Esse aí sabia das coisas. Aliás, numa primeira olhadela, pensaríamos se tratar de vinho o que está representado n’ O casamento camponês. Mas a cor do líquido indica claramente que era a cerveja que abastecia a animada festa popular.

Assim, à temperatura ambiente, em jarros abertos, possivelmente sem carbonatação? É, assim mesmo. Existem alguns lugares tradicionais na região de Bruxelas, na Bélgica, em que você ainda pode dar a sorte de encontrar a cerveja sendo servida dessa maneira: nas cervejarias que produzem lambics e em alguns cafés em que elas são servidas “à tradicional”. Na cervejaria Cantillon, por exemplo, a lambic simples (mas não a gueuze e nem as com frutas) é servida exatamente dessa forma: em jarros de barro, à temperatura ambiente e sem carbonatação. Aliás, é provável que a cerveja que tenha sido figurada na pintura seja uma cerveja de fermentação espontânea, como as lambics, que eram muito mais comuns na época do que são hoje – para a minha infelicidade, diga-se de passagem, já que sou um amante inveterado do estilo.

Cerveja e fartura

Diante disso, devemos encarar a possibilidade de que outras bebidas servidas em jarros de cerâmica nas pinturas de Bruegel e de outros mestres flamengos fossem também cerveja. Outra cena em que isso é sugerido é a tela A colheita do milho, pintada por Bruegel alguns anos antes, em 1565:

Pieter Brueguel – A colheita do milho (1565)
Fonte: http://upload.wikimedia.org

A composição, mais uma vez assimétrica, se divide mais ou menos na metade pela árvore em primeiro plano. À esquerda dela, uma elaborada paisagem dos campos flamengos com uma aldeia ao fundo; à direita, na parte inferior, alguns trabalhadores rurais descansam e fazem uma refeição. Um deles, de camisa vermelha, sorve avidamente um líquido de um grande cântaro como aqueles que vimos n’ O casamento camponês. A associação com a cerveja é sugerida pela própria cena: estamos em uma região produtora de grãos, e não de uvas, e é provável que o recipiente de barro contenha um pouco da produção cervejeira local. Um dos trabalhadores dorme tranquilamente à esquerda da árvore, talvez levemente amortecido pelo álcool.

A cerveja infinita, fluindo caudalosa como um rio, fazia parte dos sonhos de fartura típicos da cultura camponesa da Idade Média e do início da época moderna. Nas duas telas que vimos, a cerveja está associada a momentos de alegria e de abundância: num caso, uma festa de casamento, comemoração e ocasião de beber e comer à vontade. No outro, a época da colheita, que marca um momento de alegria e de otimismo pela chegada de mais alimento, prometendo fartura à mesa durante os meses seguintes. A cerveja, como bebida por excelência ligada aos grãos, ao cultivo e à mesa, marca presença nessas cenas de alegre e inocente comilança.

Uma sombria ambiguidade

Em várias regiões da Europa medieval, acreditava-se na existência de um país fantástico chamado Cocanha, a terra da abundância. Descrições da época mostram o país da Cocanha como uma espécie de paraíso terrestre, em que o leite, o vinho e o mel corriam em riachos, a comida caía dos céus nas bocas das pessoas e as árvores abundavam com frutos. Em uma cultura camponesa marcada pela ameaça real da fome e da carestia (as crônicas da época relatam diversos anos de grande mortandade pela falta de alimentos), o país da Cocanha simbolizava uma compreensão carnal, imediata e material da felicidade e do paraíso. Um mundo sem preocupações, em que o gozo era lei inevitável. Até por isso, esse mito foi visto com alguma ambiguidade pelos teólogos da Igreja – os quais, cada vez mais, passaram a defender a mensagem de que a verdadeira salvação da alma implicava abandonar os prazeres da carne. No século XVI, a região de Flandres tinha uma forte presença de protestantes, para os quais a mensagem do ascetismo e da negação do corpo era ainda mais importante do que para os católicos.

Nesse contexto cultural, não é de estranhar que a “cerveja abundante” dos sonhos camponeses fosse vista com alguma reserva, principalmente pela cultura erudita da época. Não propriamente por causa do álcool (como ocorre hoje), mas porque ela se misturava a utopias carnais e materiais que pareciam ameaçadoras do ponto de vista religioso.

Pieter Brueguel – O país da Cocanha (1567)
Fonte: http://upload.wikimedia.org

A representação de Bruegel do país da Cocanha, que você vê acima, mostra exatamente essa ambiguidade. Vemos em primeiro plano três homens deitados: da esquerda para a direita, um camponês, um cavaleiro e um padre, simbolizando os três estados da sociedade. Acima deles, uma mesa com comida e jarros deitados, presumivelmente já consumidos pelos três convivas. Animais abatidos jazem pelo cenário, e uma infinidade de tortas está sobre uma mesa. Até as montanhas, ao fundo, parecem feitas de alguma guloseima semelhante a creme ou geleia.

Contudo, há algo de sombrio na representação da cena: as cores são escuras e as figuras aparecem com um ar levemente patético (especialmente notável no soldado ao fundo, com a boca aberta esperando que a comida caia do céu). Mais que isso: deitadas, em torpor, elas parecem ter esquecido suas atribuições e responsabilidades: a Bíblia do padre está sacrilegamente jogada no chão à sua esquerda, bem como a luva e a lança do cavaleiro também jazem inúteis ao seu lado.

Pieter Brueguel – O triunfo da morte (1562) - Detalhe
Fonte: http://www.ibiblio.org
O tom da cena aqui não é de alegria: é quase de condenação, lembrando a representação de Bruegel do Triunfo da Morte, de 1562, em que a morte e os cavaleiros do apocalipse atacam implacavelmente os homens bebendo, tocando música e jogando gamão (veja ao lado um detalhe da obra). Em todas essas cenas, nota-se o fascínio exercido nos homens dessa época pela abundância de comida e bebida, mas também, simultaneamente, os seus potenciais perigos para a alma. A morte ronda essas cenas de alegre e inocente divertimento como uma espécie de lembrete onipresente do pecado e da futilidade da carne mortal. Mesmo as cenas camponesas que vimos acima – O casamento camponês e A colheita do trigo – têm algo de patético, de irônico, uma perturbadora falta de identidade entre o pintor e a cena que ele retrata.

Encontramo-nos aqui nos albores de uma era em que a abnegação, o controle do corpo e a disciplina seriam cada vez mais exigidos, à medida que o prazer gratuito e descompromissado passaria a ser visto com crescente desconfiança. E a cerveja, com sua remissão a sonhos de fartura, seu efeito entorpecente e sua presença em celebrações da abundância, passaria a estar sob a vigilância dos olhos da moralidade. Sombrio prenúncio dos nossos tempos modernos.

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