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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

"Preço real" e preço por dose

Lembro-me de ter lido, há algum tempo, um artigo interessante no blog O Mosto Crítico, a respeito do “preço real” da cerveja. Para o autor, a relação de custo-benefício de diferentes cervejas artesanais não podia ser avaliada e comparada a partir do preço unitário da garrafa, mas teria de ser calculada a partir do preço do litro. Diante da enorme variedade de envases (as garrafas variam desde 250ml até mais de 1 litro), essa era a única forma de realmente comparar o preço das cervejas que consumimos.

Fonte: tvcominternet.com.br
Parece perfeitamente sensato, mas sabemos que existem fatores que influenciam nessa consideração. Muitas vezes compramos uma cerveja apenas para degustar, para provar, e não necessariamente estamos interessados em beber uma grande quantidade. Nessas ocasiões, uma garrafa de 375ml por R$ 35 pode parecer mais vantajosa ao consumidor do que uma garrafa de 750ml por R$ 65, embora isso contrarie o princípio do preço por litro. Mas há outro fator que interfere nessa conta e que tem ocupado minha atenção há algum tempo: a maneira como a concentração de álcool da cerveja influencia esse cálculo.

“Custo-benefício-álcool”

A expressão acima não foi inventada por mim – eu apenas reproduzo o que ouvi de outro amigo cervejeiro. Ela leva em conta o fato de que nós bebemos cerveja, em parte, para consumir álcool. Claro que a cerveja tem propriedades sensoriais vastíssimas, tem sabores, tem aromas, tem texturas. Claro que a cerveja é uma bebida que agrada ao paladar. Claro que ela oferece maravilhosas oportunidades de harmonização com alimentos e pode valorizar uma boa refeição. Mas é difícil negar que um dos motivos que nos leva a beber cerveja é a sensação do leve entorpecimento alcoólico que ela provoca.

Mais que isso: a quantidade de álcool de uma cerveja é um fator decisivo para determinar o volume que vamos consumir numa determinada ocasião. Não se diz que as chamadas “session beers”, cervejas de mais baixo teor alcoólico, são idealizadas para serem bebidas em grandes quantidades? Isso apenas reflete o fato, conhecido para qualquer consumidor habitual, de que uma cerveja muito alcoólica nos faz “pisar no freio” e beber mais devagar, o que, consequentemente, nos leva a beber menos ao longo do mesmo espaço de tempo em que beberíamos uma quantidade muito maior de uma cerveja pouco alcoólica. Na real, se formos calcular a quantidade de álcool ingerida, veremos que 4 garrafinhas de uma witbier equivalem, mais ou menos, a duas garrafinhas de uma Russian imperial stout. É razoável supor que iremos beber mais ou menos o dobro de garrafas de uma witbier para nos satisfazermos, em relação a uma imperial stout.

Se arrisca a comprar várias caixas da última
session IPA do mercado para o churras?
Fonte: sp.quebarato.com.br
Nesse sentido, o “custo-benefício-álcool” nada mais é do que uma expressão do bom-senso do consumidor. Ele é uma medida do quanto vamos gastar de dinheiro para consumir uma determinada quantidade de álcool, e não apenas um determinado volume de cerveja. Ele também reflete o fato de que as cervejas possuem variações muito significativas de teor alcoólico, que podem ir desde menos de 4% até mais de 12% – observe que o valor maior equivale a 300% do menor. Não estamos falando de variações negligenciáveis, mas de algo que vai nos fazer modificar a maneira como bebemos – e, sobretudo, a quantidade de que precisaremos para nos satisfazer.

A dose mínima

Um dos motivos que me fez pensar nisso é o hábito, que tenho tentado manter, de consumir álcool de forma constante e moderada, a fim de aproveitar os benefícios que ele pode trazer à saúde. Há muita controvérsia científica e médica a respeito, mas diversos estudos mostram que o consumo moderado de bebidas alcoólicas pode trazer benefícios à saúde. O álcool auxilia na manutenção do índice do chamado “bom colesterol” e está associada a uma diminuição nos riscos de doenças cardiovasculares. Além disso, a composição específica da cerveja pode trazer benefícios que se estendem ao aumento das vitaminas do complexo B e de minerais de difícil absorção (como o silício) e à prevenção da diabetes. A bebida alcoólica em questão não precisa necessariamente ser a cerveja. Há toda uma tradição de estudos que associam também o vinho a benefícios de saúde, sobretudo pela propriedade antioxidante da substância conhecida como resveratrol.

Contudo, o consumo deve ser moderado. O que significa isso? A quantidade indicada é influenciada por diversos fatores, incluindo tendências genéticas, estilos de vida e hábitos alimentares – mas, de forma geral, considera-se benéfico o consumo de uma quantidade diária de cerveja equivalente a uma long neck (para mulheres, já que a quantidade aumenta um pouco para homens). No caso do vinho, diferentes fontes indicam uma quantidade que varia entre 125 ml e a genérica medida de “duas taças” (o que, como sabemos, varia de acordo com o tamanho da taça que você está usando, podendo ir desde 200 até 400 ml).

A recompensa por um dia de trabalho honesto!
Fonte: www.folhavitoria.com.br
Vou tentar estabelecer uma média grosseira para compor aquilo que vou chamar de “dose mínima”, que equivale mais ou menos à dose diária recomendada para uma mulher. A quantidade de álcool contida nessa “dose mínima” gira em torno dos 20 ml de álcool. Isso dá um pouco mais que uma latinha de uma cerveja de 5% de álcool, e mais ou menos a quantidade contida em uma taça de 150 ml de um vinho de teor alcoólico médio-alto (13,5%). Essa será a nossa quantidade-padrão que vou usar para calcular o “custo-benefício-álcool”.

Quanto custa?

Quando comecei a consumir a quantidade recomendada pelos médicos de bebidas alcoólicas, imediatamente me assustei com o impacto que esse hábito poderia ter no meu orçamento, que poderia facilmente ultrapassar os R$ 200 por mês. Como sou apreciador tanto de cerveja como de vinhos, imediatamente me fiz a seguinte pergunta: fica mais barato beber vinho ou cerveja?

A resposta imediata a essa pergunta nos leva a optar quase sem pensar pela cerveja. Estamos acostumados a pensar na cerveja como uma bebida popular e barata, em comparação com o vinho, mais elitizado e caro. Afinal de contas, mesmo que bebamos cervejas artesanais, é fácil encontrar cervejas com preço entre R$ 10 e R$ 15, mas é difícil encontrar vinho por menos de R$ 20-25. Mas, pondo na ponta do lápis, comecei a ver que não era bem assim. E isso tem tudo a ver com toda essa coisa da “dose mínima”.

Uma long neck de cerveja equivale mais ou menos à “dose mínima”. Contudo, uma garrafa de vinho pode render 4 ou até 5 “doses mínimas”. E de fato o vinho oferece a possibilidade de guardarmos uma garrafa já aberta (tomando os devidos cuidados e precauções), se quisermos dividir as doses entre vários dias. Assim, uma garrafa de vinho de R$ 25 rende por 4 ou 5 dias, enquanto uma garrafa de cerveja aberta deve ser consumida imediatamente.

Mais que isso: ao ver o preço das cervejas numa gôndola de supermercado ou num cardápio de bar, comecei a me perguntar quanto eu iria gastar para beber, digamos, três ou quatro “doses mínimas” – que é uma quantidade que eu posso tranquilamente consumir numa sessão de bar animada no final de semana. Quanto isso me custaria se eu optasse pela Colorado Índica? E pela Evil Twin Low Life? E pela Chimay Bleue? E por aí vamos.

Montei a tabela abaixo para ajudar nesse cálculo. Ela indica o preço que custa, para cada rótulo, uma “dose mínima” (e indica o teor alcóolico de cada cerveja). Note que, em muitos casos, isso é menos do que uma garrafinha, de modo que você não pode comprar apenas essa quantidade. Mas é um valor de referência útil para multiplicar e calcular o consumo de uma noite. Escolhi propositadamente alguns rótulos que surgem na discussão quando o assunto é “custo-benefício”, e outros que surpreendem quando calculamos dessa forma. Considerei o menor preço a que já consegui encontrar cada cerveja aqui em São Paulo ou em lojas online, o que significa que algumas foram calculadas em cima do preço de supermercado, enquanto outras o foram em cima do preço de empórios e e-commerce (que é mais alto).

Cerveja
ABV
“Dose mínima”
Heineken Lager Beer
5.0%
R$ 2,93
Eisenbahn Weizenbock
8.0%
R$ 4,22
Colorado Índica
7.0%
R$ 5,71
Eisenbahn 5 Anos
5.4%
R$ 6,50
Colorado Vixnu
9.5%
R$ 7,36
Invicta Imperial Stout
9.0%
R$ 8,89
Wäls Petroleum
12.0%
R$ 8,89
Bamberg Helles
5.2%
R$ 9,61
Brooklyn Lager
5,2%
R$ 9,75
Way Beer American Pale Ale
5.2%
R$ 9,93
Duvel
8.5%
R$ 10,70
Chimay Bleue
9.0%
R$ 12,12
Wäls, Session! Citra IPA
3.9%
R$ 14,53
Brewdog Punk IPA
6.0%
R$ 16,90
Tupiniquim/Evil Twin Lost in Translation
6.5%
R$ 17,87
Boon Geuze Mariage Parfait
8.0%
R$ 20,00
Mikkeller k:rlek
5,5%
R$ 25,60
Deus Brut des Flandres
11,5%
R$ 31,30
Harviestoun Ola Dubh 18
8,0%
R$ 37,88

Para quem tiver curiosidade, a fórmula para se chegar a esse preço é a seguinte:

Preço da dose mínima     =              20 x preço unitário            

                                               Volume da garrafa x teor alcoólico

A constante “20” foi escolhida por equivaler à dose mínima de álcool que determinamos anteriormente, em ml. Se você quiser calcular uma quantidade diferente de álcool, é só substituir o “20” pelo número de mililitros de álcool que você quer calcular. O preço unitário é o preço pago pela garrafa. O volume da garrafa foi calculado em ml. Para o teor alcoólico, não se esqueça de que ele é calculado em porcentagem – portanto, se uma cerveja tem 5,2% ABV, o número a ser usado na fórmula será 0,052.

Alguns valores da tabela são previsíveis, outros surpreendem. A Heineken foi colocada como “cerveja de referência” por ser a cerveja comercial de preferência de boa parte dos apreciadores de artesanais (embora não seja a minha). O melhor custo-benefício do mercado artesanal, se considerarmos a quantidade de álcool, fica com a minha querida Eisenbahn Weizenbock, cuja dose mínima custa R$ 4,22, apenas R$ 1,29 acima da Heineken. Estamos acostumados a pensar que as Eisenbahns são todas igualmente baratas, mas quando o quesito ABV entra em cena, vemos que não é bem assim: a Eisenbahn 5 Anos, de 5,4% ABV, já possui preço de R$ 6,50 pela dose mínima. Mais caro que uma Colorado Índica.

Cervejas fortes normalmente tidas como caras, como a Wäls Petroleum, mostram-se mais baratas neste cálculo do que outros rótulos normalmente apontados como possuindo bom custo-benefício, como Bamberg Helles, Brooklyn Lager ou Way APA. E belgas fortes como Duvel ou Chimay mostram-se decididamente mais baratas do que a média das IPAs importadas (representadas aqui pela Brewdog Punk IPA), e apenas marginalmente mais caras do que várias cervejas tidas como rótulos de bom preço. Uma cerveja como a Tupiniquim/Evil Twin Lost in Translation representa uma tendência do mercado nacional de cobrar caro por garrafas pequenas, e acaba saindo mais cara do que as importadas. A Deus, que leva fama de ser ostensivamente cara, mostrou-se mais barata do que as barrel-aged importadas que têm chegado ao mercado (representadas pela Ola Dubh 18).

Vinho ou cerveja

Fonte: colunasaboresaber.net
Volto a uma questão levantada mais acima. Quando comecei a beber a “dose mínima” diariamente, vi que o papo de que beber cerveja é mais barato do que beber vinho é balela, em vários sentidos. Um público de cervejas artesanais está acostumado a achar barato pagar em torno de R$ 6 pela “dose mínima”, o que representa o valor de uma Eisenbahn ou Colorado Índica, e aceita tranquilamente pagar entre R$ 15 e R$ 20 pela dose mínima de cervejas importadas ou artesanais nacionais de pequeno porte.

Ora, se colocamos na roda um vinho de preço baixo, mas honesto, em torno dos R$ 25, vemos que sua dose diária mínima gira em torno de R$ 4,94. Só a Eisenbahn Weizenbock é mais barata do que isso. Mas vou ainda mais longe. Você acha que um vinho de R$ 50 é caro? Saiba que a dose mínima desse vinho custa em torno de R$ 9,88, na mesma faixa de uma Brooklyn ou Way. E um vinho de R$100? Esse é um preço que decididamente assusta se você não é um enófilo. Sua dose mínima fica em torno de R$ 19,75 – apenas R$ 3 a mais do que uma Brewdog Punk IPA, e menos do que se paga por muitas Mikkeller.


E aí, assustou? :-)