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quinta-feira, 21 de agosto de 2014

"Preço real" e preço por dose

Lembro-me de ter lido, há algum tempo, um artigo interessante no blog O Mosto Crítico, a respeito do “preço real” da cerveja. Para o autor, a relação de custo-benefício de diferentes cervejas artesanais não podia ser avaliada e comparada a partir do preço unitário da garrafa, mas teria de ser calculada a partir do preço do litro. Diante da enorme variedade de envases (as garrafas variam desde 250ml até mais de 1 litro), essa era a única forma de realmente comparar o preço das cervejas que consumimos.

Fonte: tvcominternet.com.br
Parece perfeitamente sensato, mas sabemos que existem fatores que influenciam nessa consideração. Muitas vezes compramos uma cerveja apenas para degustar, para provar, e não necessariamente estamos interessados em beber uma grande quantidade. Nessas ocasiões, uma garrafa de 375ml por R$ 35 pode parecer mais vantajosa ao consumidor do que uma garrafa de 750ml por R$ 65, embora isso contrarie o princípio do preço por litro. Mas há outro fator que interfere nessa conta e que tem ocupado minha atenção há algum tempo: a maneira como a concentração de álcool da cerveja influencia esse cálculo.

“Custo-benefício-álcool”

A expressão acima não foi inventada por mim – eu apenas reproduzo o que ouvi de outro amigo cervejeiro. Ela leva em conta o fato de que nós bebemos cerveja, em parte, para consumir álcool. Claro que a cerveja tem propriedades sensoriais vastíssimas, tem sabores, tem aromas, tem texturas. Claro que a cerveja é uma bebida que agrada ao paladar. Claro que ela oferece maravilhosas oportunidades de harmonização com alimentos e pode valorizar uma boa refeição. Mas é difícil negar que um dos motivos que nos leva a beber cerveja é a sensação do leve entorpecimento alcoólico que ela provoca.

Mais que isso: a quantidade de álcool de uma cerveja é um fator decisivo para determinar o volume que vamos consumir numa determinada ocasião. Não se diz que as chamadas “session beers”, cervejas de mais baixo teor alcoólico, são idealizadas para serem bebidas em grandes quantidades? Isso apenas reflete o fato, conhecido para qualquer consumidor habitual, de que uma cerveja muito alcoólica nos faz “pisar no freio” e beber mais devagar, o que, consequentemente, nos leva a beber menos ao longo do mesmo espaço de tempo em que beberíamos uma quantidade muito maior de uma cerveja pouco alcoólica. Na real, se formos calcular a quantidade de álcool ingerida, veremos que 4 garrafinhas de uma witbier equivalem, mais ou menos, a duas garrafinhas de uma Russian imperial stout. É razoável supor que iremos beber mais ou menos o dobro de garrafas de uma witbier para nos satisfazermos, em relação a uma imperial stout.

Se arrisca a comprar várias caixas da última
session IPA do mercado para o churras?
Fonte: sp.quebarato.com.br
Nesse sentido, o “custo-benefício-álcool” nada mais é do que uma expressão do bom-senso do consumidor. Ele é uma medida do quanto vamos gastar de dinheiro para consumir uma determinada quantidade de álcool, e não apenas um determinado volume de cerveja. Ele também reflete o fato de que as cervejas possuem variações muito significativas de teor alcoólico, que podem ir desde menos de 4% até mais de 12% – observe que o valor maior equivale a 300% do menor. Não estamos falando de variações negligenciáveis, mas de algo que vai nos fazer modificar a maneira como bebemos – e, sobretudo, a quantidade de que precisaremos para nos satisfazer.

A dose mínima

Um dos motivos que me fez pensar nisso é o hábito, que tenho tentado manter, de consumir álcool de forma constante e moderada, a fim de aproveitar os benefícios que ele pode trazer à saúde. Há muita controvérsia científica e médica a respeito, mas diversos estudos mostram que o consumo moderado de bebidas alcoólicas pode trazer benefícios à saúde. O álcool auxilia na manutenção do índice do chamado “bom colesterol” e está associada a uma diminuição nos riscos de doenças cardiovasculares. Além disso, a composição específica da cerveja pode trazer benefícios que se estendem ao aumento das vitaminas do complexo B e de minerais de difícil absorção (como o silício) e à prevenção da diabetes. A bebida alcoólica em questão não precisa necessariamente ser a cerveja. Há toda uma tradição de estudos que associam também o vinho a benefícios de saúde, sobretudo pela propriedade antioxidante da substância conhecida como resveratrol.

Contudo, o consumo deve ser moderado. O que significa isso? A quantidade indicada é influenciada por diversos fatores, incluindo tendências genéticas, estilos de vida e hábitos alimentares – mas, de forma geral, considera-se benéfico o consumo de uma quantidade diária de cerveja equivalente a uma long neck (para mulheres, já que a quantidade aumenta um pouco para homens). No caso do vinho, diferentes fontes indicam uma quantidade que varia entre 125 ml e a genérica medida de “duas taças” (o que, como sabemos, varia de acordo com o tamanho da taça que você está usando, podendo ir desde 200 até 400 ml).

A recompensa por um dia de trabalho honesto!
Fonte: www.folhavitoria.com.br
Vou tentar estabelecer uma média grosseira para compor aquilo que vou chamar de “dose mínima”, que equivale mais ou menos à dose diária recomendada para uma mulher. A quantidade de álcool contida nessa “dose mínima” gira em torno dos 20 ml de álcool. Isso dá um pouco mais que uma latinha de uma cerveja de 5% de álcool, e mais ou menos a quantidade contida em uma taça de 150 ml de um vinho de teor alcoólico médio-alto (13,5%). Essa será a nossa quantidade-padrão que vou usar para calcular o “custo-benefício-álcool”.

Quanto custa?

Quando comecei a consumir a quantidade recomendada pelos médicos de bebidas alcoólicas, imediatamente me assustei com o impacto que esse hábito poderia ter no meu orçamento, que poderia facilmente ultrapassar os R$ 200 por mês. Como sou apreciador tanto de cerveja como de vinhos, imediatamente me fiz a seguinte pergunta: fica mais barato beber vinho ou cerveja?

A resposta imediata a essa pergunta nos leva a optar quase sem pensar pela cerveja. Estamos acostumados a pensar na cerveja como uma bebida popular e barata, em comparação com o vinho, mais elitizado e caro. Afinal de contas, mesmo que bebamos cervejas artesanais, é fácil encontrar cervejas com preço entre R$ 10 e R$ 15, mas é difícil encontrar vinho por menos de R$ 20-25. Mas, pondo na ponta do lápis, comecei a ver que não era bem assim. E isso tem tudo a ver com toda essa coisa da “dose mínima”.

Uma long neck de cerveja equivale mais ou menos à “dose mínima”. Contudo, uma garrafa de vinho pode render 4 ou até 5 “doses mínimas”. E de fato o vinho oferece a possibilidade de guardarmos uma garrafa já aberta (tomando os devidos cuidados e precauções), se quisermos dividir as doses entre vários dias. Assim, uma garrafa de vinho de R$ 25 rende por 4 ou 5 dias, enquanto uma garrafa de cerveja aberta deve ser consumida imediatamente.

Mais que isso: ao ver o preço das cervejas numa gôndola de supermercado ou num cardápio de bar, comecei a me perguntar quanto eu iria gastar para beber, digamos, três ou quatro “doses mínimas” – que é uma quantidade que eu posso tranquilamente consumir numa sessão de bar animada no final de semana. Quanto isso me custaria se eu optasse pela Colorado Índica? E pela Evil Twin Low Life? E pela Chimay Bleue? E por aí vamos.

Montei a tabela abaixo para ajudar nesse cálculo. Ela indica o preço que custa, para cada rótulo, uma “dose mínima” (e indica o teor alcóolico de cada cerveja). Note que, em muitos casos, isso é menos do que uma garrafinha, de modo que você não pode comprar apenas essa quantidade. Mas é um valor de referência útil para multiplicar e calcular o consumo de uma noite. Escolhi propositadamente alguns rótulos que surgem na discussão quando o assunto é “custo-benefício”, e outros que surpreendem quando calculamos dessa forma. Considerei o menor preço a que já consegui encontrar cada cerveja aqui em São Paulo ou em lojas online, o que significa que algumas foram calculadas em cima do preço de supermercado, enquanto outras o foram em cima do preço de empórios e e-commerce (que é mais alto).

Cerveja
ABV
“Dose mínima”
Heineken Lager Beer
5.0%
R$ 2,93
Eisenbahn Weizenbock
8.0%
R$ 4,22
Colorado Índica
7.0%
R$ 5,71
Eisenbahn 5 Anos
5.4%
R$ 6,50
Colorado Vixnu
9.5%
R$ 7,36
Invicta Imperial Stout
9.0%
R$ 8,89
Wäls Petroleum
12.0%
R$ 8,89
Bamberg Helles
5.2%
R$ 9,61
Brooklyn Lager
5,2%
R$ 9,75
Way Beer American Pale Ale
5.2%
R$ 9,93
Duvel
8.5%
R$ 10,70
Chimay Bleue
9.0%
R$ 12,12
Wäls, Session! Citra IPA
3.9%
R$ 14,53
Brewdog Punk IPA
6.0%
R$ 16,90
Tupiniquim/Evil Twin Lost in Translation
6.5%
R$ 17,87
Boon Geuze Mariage Parfait
8.0%
R$ 20,00
Mikkeller k:rlek
5,5%
R$ 25,60
Deus Brut des Flandres
11,5%
R$ 31,30
Harviestoun Ola Dubh 18
8,0%
R$ 37,88

Para quem tiver curiosidade, a fórmula para se chegar a esse preço é a seguinte:

Preço da dose mínima     =              20 x preço unitário            

                                               Volume da garrafa x teor alcoólico

A constante “20” foi escolhida por equivaler à dose mínima de álcool que determinamos anteriormente, em ml. Se você quiser calcular uma quantidade diferente de álcool, é só substituir o “20” pelo número de mililitros de álcool que você quer calcular. O preço unitário é o preço pago pela garrafa. O volume da garrafa foi calculado em ml. Para o teor alcoólico, não se esqueça de que ele é calculado em porcentagem – portanto, se uma cerveja tem 5,2% ABV, o número a ser usado na fórmula será 0,052.

Alguns valores da tabela são previsíveis, outros surpreendem. A Heineken foi colocada como “cerveja de referência” por ser a cerveja comercial de preferência de boa parte dos apreciadores de artesanais (embora não seja a minha). O melhor custo-benefício do mercado artesanal, se considerarmos a quantidade de álcool, fica com a minha querida Eisenbahn Weizenbock, cuja dose mínima custa R$ 4,22, apenas R$ 1,29 acima da Heineken. Estamos acostumados a pensar que as Eisenbahns são todas igualmente baratas, mas quando o quesito ABV entra em cena, vemos que não é bem assim: a Eisenbahn 5 Anos, de 5,4% ABV, já possui preço de R$ 6,50 pela dose mínima. Mais caro que uma Colorado Índica.

Cervejas fortes normalmente tidas como caras, como a Wäls Petroleum, mostram-se mais baratas neste cálculo do que outros rótulos normalmente apontados como possuindo bom custo-benefício, como Bamberg Helles, Brooklyn Lager ou Way APA. E belgas fortes como Duvel ou Chimay mostram-se decididamente mais baratas do que a média das IPAs importadas (representadas aqui pela Brewdog Punk IPA), e apenas marginalmente mais caras do que várias cervejas tidas como rótulos de bom preço. Uma cerveja como a Tupiniquim/Evil Twin Lost in Translation representa uma tendência do mercado nacional de cobrar caro por garrafas pequenas, e acaba saindo mais cara do que as importadas. A Deus, que leva fama de ser ostensivamente cara, mostrou-se mais barata do que as barrel-aged importadas que têm chegado ao mercado (representadas pela Ola Dubh 18).

Vinho ou cerveja

Fonte: colunasaboresaber.net
Volto a uma questão levantada mais acima. Quando comecei a beber a “dose mínima” diariamente, vi que o papo de que beber cerveja é mais barato do que beber vinho é balela, em vários sentidos. Um público de cervejas artesanais está acostumado a achar barato pagar em torno de R$ 6 pela “dose mínima”, o que representa o valor de uma Eisenbahn ou Colorado Índica, e aceita tranquilamente pagar entre R$ 15 e R$ 20 pela dose mínima de cervejas importadas ou artesanais nacionais de pequeno porte.

Ora, se colocamos na roda um vinho de preço baixo, mas honesto, em torno dos R$ 25, vemos que sua dose diária mínima gira em torno de R$ 4,94. Só a Eisenbahn Weizenbock é mais barata do que isso. Mas vou ainda mais longe. Você acha que um vinho de R$ 50 é caro? Saiba que a dose mínima desse vinho custa em torno de R$ 9,88, na mesma faixa de uma Brooklyn ou Way. E um vinho de R$100? Esse é um preço que decididamente assusta se você não é um enófilo. Sua dose mínima fica em torno de R$ 19,75 – apenas R$ 3 a mais do que uma Brewdog Punk IPA, e menos do que se paga por muitas Mikkeller.


E aí, assustou? :-)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Bières brut - Parte V: O mercado brasileiro


É curioso que um estilo com raízes francesas e belgas tão fortes, unindo os métodos tradicionais de produzir cerveja e espumantes nesses dois países, tenha uma presença tão marcante no Brasil, país sem tanta tradição vinícola e cervejeira remontando ao passado. Algumas pessoas acreditam – e me parece plausível – que a elitização e a busca por consumidores de alta renda tenham sido uma forma da indústria cervejeira nacional de procurar inserção de mercado em uma conjuntura econômica de alta taxação, que impede a redução de preços, e de expansão dos mercados de luxo. As bières brut, com suas remissões a champagne e glamour, eram uma escolha certeira para atingir na mosca esse público. Não parece eloquente que o paralelo explícito com os champagnes (por meio do uso do termo “método champenoise”) tenha ocorrido justamente com os rótulos da Terra dos Papagaios, e não tanto com os belgas?

Um novo destino: o Brasil

Maturação e remoção da Eisenbahn Lust 
na vinícola San Michele.
Fonte: Edu Passarelli Recomenda
No Brasil, o estilo foi introduzido pela cervejaria Eisenbahn com sua linha denominada Lust (em alemão, “prazer” ou ”vontade”). A cervejaria de Santa Catarina foi a primeira a invocar a denominação “método champenoise”, em destaque no rótulo, para denominar o estilo e catapultá-lo direto para o mercado de luxo. A Eisenbahn Lust usa a mesma receita da Eisenbahn Strong Golden Ale, mas a cerveja é enviada para a vinícola San Michele (em Rodeio/SC) para a maturação em cave, a remoção e a expelição.

Assim como as grandes vinícolas normalmente produzem dois rótulos diferentes de champagne (o champagne comum e o champagne millesimé), a Eisenbahn lançou uma versão “comum” da Lust, que passa por três meses de maturação, e a versão de luxo denominada Lust Prestige, que passa por um ano de maturação (mais ou menos o mesmo que a Deus, e que a maior parte dos champagnes comuns). Como vimos, a autólise começa a se intensificar a partir do 9º mês de maturação; podemos concluir com alguma segurança, portanto, que a Eisenbahn Lust tem poucas características de autólise, ao contrário da versão Prestige. A produção de dois rótulos diferentes fez com que a Eisenbahn conseguisse oferecer um produto a preços mais competitivos para “penetração” no mercado (a Eisenbahn Lust é a bière brut mais barata – ou melhor, menos cara – do mercado nacional) sem abdicar de um rótulo de luxo produzido com mais cuidado.

José Felipe Carneiro mostra, orgulhoso, 
a primeira safra da Wäls Brut 
passando pela remoção.
Fonte: Edu Passarelli Recomenda
Como se não bastasse, em 2011 foi lançado um segundo rótulo do estilo produzido no Brasil, desta vez por uma cervejaria especializada na produção de estilos belgas: a Wäls, de Minas Gerais. A ideia surgiu de um desafio feito a José Felipe Carneiro, responsável pela produção de cervejas da Wäls, pelo seu irmão Tiago (também proprietário da cervejaria): ele seria capaz de produzir uma cerveja como a Eisenbahn Lust Prestige? Muito estudo e algumas tentativas depois, surgia a Wäls Brut. A cerveja apela para a mesma denominação champenoise já usada pela Eisenbahn. Sua produção usa como base um blend preparado com 70% da tripel da marca e 30% de uma receita exclusiva, e ela passa por maturação na garrafa durante 9 meses – tempo necessário para começar a se intensificar a autólise das leveduras. Assim como a Malheur, a Wäls optou por realizar todas as etapas do processo em sua própria fábrica – mas, ao contrário da cervejaria belga, faz tudo manualmente. Em 2011, a cervejaria iniciou reformas para ampliar as caves de produção da Wäls Brut, indicando um maior investimento neste que já é seu rótulo de mais alto padrão. Entre suas concorrentes diretas, a cerveja se diferencia especialmente pelo licor de expedição, que, em vez de ser um líquido mais adocicado, é a própria cerveja resultante da refermentação com leveduras de espumantes, resultando num produto final levemente mais seco. Talvez devamos considerar que, se as demais bières brut podem ser classificadas como “brut”, a Wäls Brut seria uma “extra brut” ou "brut nature" (um pouco mais seca).

É só isso? Quase, por mais improvável que possa parecer. Há poucas cervejas produzidas no estilo ao redor do mundo. Além das quatro marcas já citadas (disponíveis no mercado nacional), o site norte-americano Beer Advocate indica outros rótulos sob a denominação de estilo “bière de champagne / bière brut”, mas nem todos com o teor alcoólico ou o perfil do estilo consagrado pela Deus. Entre as que mais parecem se adequar ao perfil das marcas belgas, podemos citar a canadense Dominus Vobiscum Brut, da microcervejaria Charlevoix, e a italiana L’Equilibrista, da cervejaria Birra del Borgo. De qualquer forma, considerando-se o berço belga do estilo, o Brasil, com as particularidades do seu mercado de luxo de cervejas, tem se destacado mundialmente na produção do estilo, com o mesmo número de marcas que na Bélgica!

E os preços?

Esta é a clássica questão, invariavelmente levantada quando o assunto são as bières brut. Por que elas custam tão mais caro que os demais estilos (salvo talvez algumas lambics importadas e alguns rótulos excepcionais pela sua raridade ou seu teor alcoólico elevado)? Parte substancial da resposta, é óbvio, encontra-se no método champenoise, principalmente na longa maturação em garrafa e nas trabalhosas etapas da remoção e expelição, quando realizadas manualmente (garrafa por garrafa).

Pode ir esquecendo a sua bière brut no final do ano...
Fonte: www.canstockphoto.com.br
Mas isso justifica tanta diferença? Não possuo uma cervejaria e nunca ousei produzir as danadas, então é um pouco difícil dar uma resposta definitiva para isso. É preciso lembrar que, para além do tempo e do trabalho gastos com o processo produtivo, as bières brut requerem infraestrutura específica apenas para sua produção (ou o aluguel de uma infraestrutura alheia, como é o caso da Bosteels e da Eisenbahn). E, é claro, existe o direcionamento desses rótulos para ocasiões especiais e para um público de maior poder aquisitivo (trata-se dos produtos de luxo de suas cervejarias), estimulando uma precificação em faixa superior. A Wäls Brut, por exemplo, é comercializada em uma caixa de luxo artesanal cujo custo é de R$ 18. É claro que isso gera um impacto no preço final. José Felipe Carneiro, responsável pela produção das cervejas da Wäls, já afirmou que a caixa faz parte da experiência do produto – porque, infelizmente, não se trata apenas da cerveja, mas também da aura de sofisticação e glamour que o consumidor espera dela. Será que podemos culpar exclusivamente o produtor se é isso que o consumidor espera do produto? Mais uma vez, são as bières brut as maiores prejudicadas pelo prestígio associado ao estilo.

Por mais difícil que seja ponderar todos esses fatores para avaliar o preço final das cervejas do estilo, não custa fazermos, de novo, a comparação com os vinhos: as vinícolas nacionais da Serra Gaúcha conseguem colocar no mercado bons espumantes produzidos pelo método champenoise na faixa dos R$ 30-40. Veja, estamos falando de vinhos, que são mais caros para se produzir do que cervejas, a princípio (já que 90% do volume de matéria-prima da cerveja é água). O espumante Valduga Arte, por exemplo, passa por 12 meses de maturação com leveduras (o mesmo que a Eisenbahn Lust Prestige) e sai por menos de R$ 35. Como eu afirmei, é difícil fazer especulações e ainda mais difícil comparar o volume de produção de uma vinícola como a Valduga e uma microcervejaria como a Wäls, mas me parece que não se pode creditar o alto preço das bières brut exclusivamente ao processo de produção.

Na próxima parte deste artigo, finalmente comentaremos um pouco sobre as características sensoriais do estilo. Trocando em miúdos: depois de saber tudo isso, afinal de contas, como uma bière brut se apresenta na minha boca? Não perca!

Perdeu as partes anteriores deste artigo? Confira aqui:

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Bières brut - Parte I: Um novo estilo ou um novo status?

Com a chegada do fim de ano, eu não poderia deixar de registrar algumas linhas sobre o estilo de cerveja mais associado às grandes festas e celebrações: as bières brut. Em suas encarnações belgas ou brasileiras, ela seguramente estará na mesa de vários amantes de cervejas artesanais neste réveillon. Curiosamente, o Brasil é um dos países que mais se destacam na produção deste elaborado estilo tipicamente belga, o que sem dúvida é motivo de orgulho e sinal de maturidade de nossa indústria – mas também deve ser um alerta para pensarmos um pouco. Abro aqui uma série de posts sobre as bières brut, com o objetivo não apenas de ajudar na escolha do rótulo mais adequado para cada um, mas também para incentivar uma reflexão sobre o significado que essas cervejas têm assumido no Brasil nos últimos anos. Comecemos pela última parte.

Fonte: Doses de Arte
O final de ano é a época em que fazemos uma pausa, tentamos passar em revista o ano que se foi e meditamos sobre o que virá. Invariavelmente, a época pede celebração, e as festas são ensejo para novas comidas, novas experiências: a despensa e a mesa se enriquecem com produtos que reaparecem magicamente nos supermercados em novembro para voltarem em janeiro ao seu silencioso exílio, como as castanhas portuguesas com as quais pretendo, mais uma vez, tentar fazer marron glacé. Tentar. Pela terceira vez.

Esse momento de reorganização da vida e do nosso ritmo cotidiano é marcado com uma dieta diferente, a das grandes festas, que quebra o ciclo da alimentação cotidiana e instaura uma ruptura do tempo “normal” de nossas vidas. Novas comidas, e também novas bebidas para marcar, na mesa, esse novo tempo que se vive. Não podem faltar as bebidas normalmente dedicadas às celebrações, em especial o espumante – seja o tradicional champagne para os mais abastados, seja um vinho frisante de qualquer outra procedência ou mesmo uma sidra popular. Em contraste com a corpulência dos vinhos tintos mais gordos, a leveza quase diáfana dos espumantes convida-nos a esquecer nossas preocupações por um instante, e a sensação frisante brinca com nossa sensibilidade e nos torna mais receptivos ao novo, ao alegre.

O salão de recepções matrimoniais de Al Maa’red, 
em Abu Dhabi. Será que realmente precisa disso tudo?
Fonte: LASVIT
Claro que celebrações também são momentos de dispormos das riquezas que acumulamos para contentar nossos entes queridos – ou para nosso próprio contentamento autoindulgente. Entre os povos nativos da costa oeste norte-americana, era comum a realização de cerimônias periódicas conhecidas como potlatch, em que os chefes mais ricos distribuíam presentes e, eventualmente, até mesmo desperdiçavam intencionalmente e destruíam riquezas. Será que nossas suntuosas festas de fim de ano ou as de casamento que alguns anfitriões abastados preparam não têm uma função semelhante? Sem dúvida têm, mas com uma diferença: numa sociedade baseada na troca e na reciprocidade, como é o caso dos indígenas norte-americanos, o potlatch funciona como momento privilegiado de união entre as pessoas e de acesso a produtos escassos. Já na nossa sociedade de mercado consumista, festas suntuosas adquirem o papel de ostentação de riqueza e demarcação de hierarquias de status.

Seja como for, esse período está – para o bem e para o mal – associado à fartura: ao seu desfrute e também à sua ostentação. Por isso, as bebidas da época assumem uma aura de sofisticação e de riqueza: quem poderá negar que, entre todos os tipos de vinho, os champagnes são os mais rodeados de uma aura de glamour? Quanto mais caro, aliás, maior é o status de quem oferece (ou, pior, bebe solitariamente) a garrafa. Para alguns consumidores, isso parece influenciar a percepção de preços de tais produtos. As pessoas parecem se esquecer de que o alto preço final dos champagnes para o consumidor está ligado aos altos custos envolvidos em sua fabricação (voltaremos a esse ponto nos próximos posts), e parecem acreditar que está antes ligado a esse suposto glamour da bebida, levando a todo tipo de mistificação, esnobismo e abuso. Quem está mais preocupado em usar a bebida para ostentar a riqueza acaba, no fundo, bebendo dinheiro. Não importam as qualidades do que se bebe: importa o quanto custou. Numa curiosa inversão, quanto mais caro, melhor é o custo-benefício (!): afinal, o objetivo não é pagar pouco por um produto de qualidade, mas pagar muito por um produto, qualquer que seja sua qualidade.

Na batalha vinho vs. cerveja, os dois saem perdendo.
Fonte: Supplewine
Nós, amantes de cervejas, frequentemente nos lamentamos pela diferença de percepção e julgamento que as pessoas ainda parecem fazer a respeito de vinhos e cervejas. Muitos consideram, ainda hoje, a cerveja como a “prima pobre” dos vinhos: mais barata (embora saibamos que nem sempre é esse o caso) e, consequentemente, menos interessante e refinada. Produto do mesmo pensamento tosco, ostentatório e simplista típico de uma cultura embasbacada com seu recente acesso ao mundo do consumo de luxo. Babaquices do Brasil do século XXI, em suma. Muitas vezes, saímos em defesa de nossas queridas cervejas, advogando que tenham o mesmo status concedido ao nobre fermentado de uvas. Questiono-me se essa paridade realmente é a melhor estratégia. Às vezes, equiparar cervejas e vinhos pode ser um tiro pela culatra: podemos absorver o melhor, mas também podemos ser presenteados com o pior da cultura enófila brasileira. E, infelizmente, esses fetiches perversos que rondam os vinhos nas festas de fim de ano em nossa sociedade consumista parecem estar também contaminando nossas cervejas.

As bières brut, nesse mercado de luxo que tem se tornado o segmento das cervejas ditas “especiais”, estão assumindo as características associadas ao champagne – as boas e as ruins, indistintamente. A comparação se impõe quase naturalmente: ambas as bebidas usam o mesmo método de produção, o chamado método champenoise, aprimorado pelo abade Dom Pérignon no século XVII e por Nicole Ponsardin, a célebre viúva (veuve) Cliquot, no início do século XIX. Na verdade, as cervejas, em especial as da escola belga, guardam muito mais semelhanças com os champagnes do que se poderia supor a princípio. Voltaremos a isso mais tarde. Mas o fato é que, quando surgiu em 2002 a primeira representante deste novo estilo cervejeiro, a belga Deus, ela foi apresentada imediatamente como um “champagne das cervejas”, servida inclusive na tradicional taça dos champagnes (a “flauta”). O mesmo marketing foi aplicado aos rótulos brasileiros, inclusive. Como resultado, a comparação com os champagnes se consolidou definitivamente.

Como para confirmar essa vinculação, a cerveja Deus estabeleceu um novo patamar de preços. Na Europa, a garrafa de 750ml custa em torno de € 15-20. No Brasil, como se sabe, é corriqueiro encontrá-la acima dos R$ 200, o que corresponde à faixa de preços de um champagne mais comercial, como o Moët & Chandon ou o Veuve Cliquot Ponsardin. Outras bières brut, mesmo as nacionais, normalmente ultrapassam os R$ 100, com a exceção feita à versão mais comercial da Eisenbahn Lust. Isso as torna vítimas fáceis daquele fetichismo e daquela inversão de preços que comentei em relação ao champagne: paradoxalmente, a Deus é uma cerveja que vende muito bem no Brasil – não apesar do seu preço, como se poderia pensar, mas justamente por causa dele! Na estúpida lógica do quanto mais caro, melhor, esses rótulos catapultaram automaticamente as cervejas para um novo patamar dentro do mercado de luxo nacional. Os importadores e produtores têm, compreensivelmente, explorado com avidez esse novo e lucrativo nicho de mercado que se abriu para as cervejas, mas será que não existem alguns prejuízos desse tipo de inserção de mercado para um produto como uma cerveja? Não se trata de uma inserção conquistada gradativamente a partir das qualidades organolépticas e sensoriais do produto e da experiência pessoal de vários consumidores, mas de uma mera estratégia de precificação. Posicionamento superficial, frágil, sujeito a todo tipo de abalos.

“Garçom, não estou encontrando meus R$ 200 nesta taça.”
Fonte: Cartoon Stock
Ironicamente, quem sai perdendo com todo esse fetichismo não são (apenas) os consumidores: são as próprias cervejas. Quando se paga um valor tão alto por uma garrafa, é muito difícil evitar que uma série de expectativas se coloque entre nós e o líquido dentro do nosso copo – expectativa que, às vezes, cerveja nenhuma seria capaz de suprir. Muitas vezes, o preço é tudo o que as pessoas conseguem degustar ao tomar essas cervejas, em prejuízo de toda a riqueza sensorial que elas podem nos oferecer se estivermos receptivos. É comum ouvir relatos de apreciadores de cervejas que se decepcionaram ao beber uma Deus. Pelo preço que pagaram, “exigiam” que fosse a “melhor cerveja” que já tomaram (de acordo com aquilo que eles acham que deveria ser a “melhor cerveja”), a mais marcante, a mais impactante, demandando dela características que o estilo não se propõe a oferecer.  Ora, as bières brut jamais se propuseram a ser cervejas impactantes e marcantes! Por conta do seu processo de produção, elas primam justamente pela sua delicadeza. Além disso, apesar de sabermos pelo nosso bolso que o dinheiro tem uma escala quantitativa absoluta, o prazer oferecido por uma cerveja é sempre relativo. Em outros termos, embora possa perfeitamente existir “a cerveja mais cara” do mundo, não existe nem jamais existirá “a melhor cerveja” do mundo – ainda bem.

As bières brut, no fim das contas, acabam vitimadas pela própria faixa de preço em que se encaixam, impedidas de serem corretamente avaliadas de acordo com a sua proposta. O apreciador de cervejas que paga seu preço exige “a melhor cerveja que já bebeu” (o que é uma besteira), e o consumidor mais eclético exige que ela seja um champagne (coisa que nunca será, pois é uma cerveja). Seus verdadeiros encantos, por isso, muitas vezes continuam secretos. Nas próximas partes deste artigo, explorarei o processo de produção dessas cervejas, falarei sobre sua proposta sensorial e finalizarei com uma comparação dos cinco rótulos disponíveis no mercado nacional: Deus Brut des Flandres, Eisenbahn Lust, Eisenbahn Lust Prestige, Malheur Bière Brut e Wäls Brut. Espero poder varrer a grossa camada de fetichismo que recobre essas cervejas para deixá-las falarem por si mesmas, sem o auxílio da etiqueta de preços, e para apreciar seu brilho delicado, próprio e radiante, escondido por baixo de tanto esnobismo.