sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Cerveja e mitologia - Parte I: A bebida da imortalidade


Baco (1595), pelo pintor italiano Caravaggio, 
ostentando sua opulenta taça de vinho.
Fonte: Wikimedia Commons
Boa parte das pessoas conhece, pelo menos por alto, o vínculo entre o vinho e a mitologia. Em grande medida, isso ocorre porque fomos criados em uma cultura profundamente eurocêntrica e, portanto, temos maior familiaridade com a mitologia europeia do que com a mitologia dos povos americanos (apesar de vivermos na América e não na Europa). E as mitologias europeias mais conhecidas entre nós vieram de povos em que o vinho ocupava o papel de bebida de prestígio das elites – estou falando dos gregos e dos romanos. Portanto, é de certa forma natural que tenhamos muita familiaridade com figuras como Baco/Dioniso (deus greco-romano do vinho), mas não conheçamos mitos ligados às cervejas.

Como se sabe, porém, a cerveja era a bebida fermentada mais proeminente em diversas sociedades ao longo da história. A “genealogia” mais conhecida da cerveja remonta sua criação remota aos egípcios ou aos sumérios, mas existiam também diversos povos que produziam bebidas fermentadas a partir de outros vegetais com reservas de amido além do trigo e da cevada. Em muitas dessas sociedades, as cervejas deixaram marcas sobre as lendas, mitos e narrativas dessas culturas.

No Brasil, os indígenas já consumiam, desde antes da chegada dos portugueses, uma bebida fermentada produzida a partir da mandioca – entre os tupinambás da costa atlântica, essa bebida era conhecida como “cauim” – ou “vinho de mandioca”, como muitas vezes os portugueses a chamaram. Não se tratava propriamente de um vinho, sendo talvez mais próxima de uma cerveja de fermentação espontânea. Em linhas gerais, o processo de produção era o seguinte: as raízes da mandioca eram cortadas em pedaços pequenos e cozidas em água fervente. Esses pedaços eram mastigados e cuspidos em um grande pote. A bebida então fermentava espontaneamente e era servida durante as grandes festas e cerimônias dos tupinambás. Nunca era bebida solitariamente, ao contrário das bebidas alcoólicas dos europeus.
A ilustração, do relato de viagem do padre francês André 
Thevet, que esteve entre os tupinambás no século XVI, 
representa o preparo do cauim.
Fonte: 

Nosso vergonhoso desconhecimento das culturas americanas é tamanho que, para a maior parte dos amantes de cerveja, Cauim é apenas o nome de um dos rótulos da Cervejaria Colorado. Contudo, o cauim figura em vários importantes mitos indígenas, entre os quais dois que pretendo apresentar brevemente aqui. As versões de ambos os mitos foram extraídas do livro O Cru e o Cozido, primeiro volume do monumental estudo de Claude Lévi-Strauss sobre a mitologia americana, sobre a qual já tive a oportunidade de tecer alguns comentários aqui antes.

Um mito tukuna

Se os gregos e os romanos associavam o vinho aos deuses, na figura de Baco/Dioniso, para os indígenas o cauim também tinha associações sagradas. Tanto é que um dos mitos da etnia tukuna (que vive na região amazônica) o considera a “bebida da imortalidade” e o compara a um presente dos deuses. Vejamos o que os tukuna nos falam sobre a bebida:

Mito tukuna: A bebida da imortalidade
            Uma festa da puberdade estava chegando ao fim, mas o tio da jovem virgem estava tão bêbado que não podia mais conduzir as cerimônias. Um deus imortal apareceu sob a forma de um tapir [anta]. Levou a jovem e casou-se com ela.
            Muito tempo depois, ela voltou à aldeia com seu bebê e pediu aos parentes que preparassem uma cerveja especialmente forte para a festa de depilação de seu irmão mais novo. Ela assistiu à cerimônia em companhia do marido. Este havia trazido um pouco da bebida dos Imortais e deu um gole a cada participante. Quando todos ficaram ébrios, partiram com o jovem casal para se instalarem na aldeia dos deuses.

Alguns esclarecimentos se fazem necessários. Nas mitologias dos índios sul-americanos, é comum que os homens e os animais convivam e até se casem entre si, porque essas narrativas se passam em um tempo mítico, supostamente anterior à separação definitiva entre os homens e a natureza. Diante disso, o casamento de uma jovem índia com uma anta não deve causar espanto, e nem ser encarado como uma tragédia. Outro esclarecimento diz respeito às cerimônias mencionadas no mito: entre os indígenas, diversas cerimônias coletivas marcam a passagem da infância para a vida adulta, entre as quais a festa da puberdade e a festa de depilação. São eventos que marcam o momento em que as crianças passam a ser reconhecidas como adultas, podendo desempenhar as tarefas dos adultos e casar-se. Muito semelhante ao que acontece em nossa cultura, em cerimônias como as tradicionais festas de debutantes, as festas de 15 anos e, em certo sentido, também os trotes universitários. Trata-se, em todos os casos, de ritos coletivos de passagem.

No mito tukuna, a bebida cria as condições da união entre deuses e homens. O tio da jovem virgem havia tomado cerveja demais na festa de puberdade da moça e, por conta disso, o deus-anta-imortal pôde levar a jovem e casar-se com ela. Quando a moça retorna à aldeia, por ocasião de mais um rito de passagem (aqui, a passagem da vida infantil para a adulta é paralela à passagem da mortalidade para a imortalidade), o marido traz a bebida alcoólica preparada pelos deuses imortais. Os parentes “humanos” da jovem consomem a bebida, ficam bêbados e partem para a aldeia dos imortais junto com a moça. Nos dois episódios, é a bebedeira que permite que os homens unam-se aos deuses e alcancem a imortalidade: no primeiro caso, a bebida preparada pelos homens permite a união de uma única jovem; no segundo, uma “cerveja especialmente forte” e mais a bebida preparada pelos próprios deuses permitem que a aldeia inteira parta em companhia dos imortais. Ou seja, para os tukuna, a cerveja funciona como uma espécie de “chave” que abre a porta entre os homens e os deus, a vida mortal e a imortalidade.

Álcool e o sagrado

Na Última Ceia de Tintoretto (1559), o vinho tem 
lugar de destaque na mesa dos apóstolos.
Fonte: http://www.atlantedellarteitaliana.it
A associação entre as bebidas alcoólicas e os deuses é comum em várias culturas. Não basta citar o fato, crucial na liturgia católica, de que Cristo transformou o vinho em seu próprio sangue durante a última ceia com os apóstolos? Hoje, nossa sociedade vive tempos de profunda moralização e disciplinarização do comportamento, mas em outras épocas (bem como em outras culturas contemporâneas), a embriaguez sempre foi encarada a partir de uma perspectiva positiva. Claro, e isso é um ponto fundamental, sempre se tratou de uma embriaguez controlada: seja pelo fato de ela ser praticada durante cerimônias religiosas, seja por se tratar de um hábito necessariamente coletivo, e portanto passível de controle, moderação e auxílio mútuo.

Contudo, em todos esses casos, o álcool é encarado como uma substância que pode colocar em homens em um estado de proximidade com o sagrado, que pode mudar sua forma cotidiana de pensar e agir, abrir novas possibilidades de socialização. Se seguirmos a clássica definição sociológica de Émile Durkheim, o sagrado é aquilo que transcende a individualidade dos homens, ultrapassa a singularidade dos pequenos grupos, e condensa os valores e a autoridade de toda uma sociedade. O sagrado é a porta para algo maior do que nós mesmos, uma forma de alcançar uma coisa além das limitações da nossa vida individual. Daí o cauim, cerveja dos deuses, ser conhecido como a “bebida da imortalidade” entre os tukuna.

A cerveja sempre foi considerada a bebida das confraternizações, da alegria, capaz de fazer amizades – Randy Mosher a trata com um “lubrificante social”, capaz de fazer com que as pessoas rompam certas barreiras iniciais e se relacionem de forma mais natural e fácil umas com as outras. De certa forma, ela nos aproxima também de algo maior que nós mesmos, nos integra no seio de um grupo que nos transcende. Claro que uma reles mesa de bar, um churrasco entre amigos, podem parecer algo modesto, se comparado ao papel fundamental do cauim nas cerimônias religiosas e sociais mais importantes dos indígenas, entre os quais ele é a bebida da coletividade por excelência.

Mas, em maior ou em menor grau, em todos esses casos podemos ver, de forma mais ou menos clara, como o consumo moderado, consciente, socialmente regulado da cerveja é capaz de romper com a mediocridade mesquinha de nossas vidas individuais, de nos por em contato com algo maior do que nós. Por isso mesmo, não me parece nem um pouco condizente com a vocação da cerveja que ela seja usada para ostentar e criar barreiras entre as pessoas. Num primeiro olhar, tudo isso pareceria uma apologia vulgar ao álcool, um incentivo a este hábito frequentemente considerado como “destruidor de famílias”. Na verdade, se trata do contrário disso: o consumo moderado e consciente da cerveja e do álcool não precisa destruir – antes, ele pode unir as pessoas, fortalecer vínculos, criar algo mais grandioso do que cada um de nós poderia fazer sozinho. E não é essa a grande tarefa do gênero humano? Não deveria ser sempre isso que buscamos, não importa a cultura em que fomos criados ou a religião que aprendemos a seguir?

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