quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Museus cervejeiros: As cervejas do museu da Cantillon


Na última matéria deste blog, falamos um pouco sobre a visita ao extraordinário Museu Bruxelense da Gueuze, que se localiza no interior da fábrica da cervejaria Cantillon. O museu nos dá a oportunidade tanto de conhecer os métodos tradicionais de produção de lambics (quase abandonados ao longo do século XX pela maioria das cervejarias) quanto de provar, em um ambiente alegre e autêntico, algumas das verdadeiras obras-primas criadas pela Cantillon, servidas direto dos barris ou de garrafas ainda sem rótulos. Pode-se dizer inclusive que a degustação é imprescindível para entendermos toda a proposta do museu. A “excentricidade” das instalações (se comparadas às assépticas fábricas de ales e lagers) é o reflexo perfeito da forte personalidade das cervejas. Não à toa, o tíquete inclui duas porções para degustar, à escolha do visitante – uma à entrada, outra ao final.

Quando fiz a visita, cinco rótulos eram oferecidos aos visitantes do museu: Cantillon Lambic (uma lambic pura e jovem, com um ano de maturação), Cantillon Gueuze 100% Lambic Bio (uma gueuze tradicional, sem adoçantes), Cantillon Faro (uma versão adoçada da gueuze), Cantillon Kriek 100% Lambic Bio (com adição de cerejas) e Cantillon Rosé de Gambrinus (com adição de framboesas). Três lambics sem frutas, e duas com frutas, portanto. Apenas uma dela, a Faro, é adoçada. Todas elas são produzidas integralmente a partir de cervejas de fermentação espontânea, sem adição ou blendagem com ales.

As lambics sem frutas

A sugestão é que se comece a visita com a lambic jovem (pura, servida de uma jarra de cerâmica) para depois provar a gueuze e entender a diferença entre os dois estilos. Enquanto a lambic jovem provém de um único barril e tem apenas um ano de maturação, a gueuze é o resultado de uma mistura de lambics de diferentes barris, com diferentes estágios de maturação.

Fonte:
http://beervana.blogspot.com.br/2011/11/cantillon.html

Estilo: lambic – unblended
Teor alcoólico: 5%
Aparência: cor alaranjada profunda, com certa turbidez. Não forma absolutamente nenhuma espuma, apenas algumas bolhas indicando a viscosidade do líquido.
Aromas: mostra equilíbrio entre características doces de malte e de maturação e os traços de fermentação espontânea. O malte ainda é evidente: uma certa doçura de mel e xarope se mistura a uma sensação doce lembrando plástico, indicando oxidação. Em contraste, elementos da fermentação espontânea já se mostram claramente com notas animais, de couro, uma sensação acética sólida e o aroma terroso característico do terroir da Cantillon.
Paladar: doce, amargo e ácido apresentam-se em equilíbrio. A sensação de doçura é bem mais intensa que na gueuze, enquanto a acidez se destaca no começo e depois vai se atenuando. A surpresa fica por conta de um amargor tânico destacado, que se desenvolve no final. Terá resultado de um barril em especial?
Sensação na boca: única, diferente de qualquer outra bebida que eu já tenha provado. O corpo é leve, mas sua textura é lisa e um tanto oleosa, e ela tem uma forte, mas elegante sensação adstringente de taninos.

Clique aqui para ver a avaliação completa.

A lambic simples, sem blend, da Cantillon é servida diretamente de jarros da cerâmica, à temperatura ambiente e sem nenhuma carbonatação. Sua rusticidade reflete o ambiente genuinamente despojado, mas um tanto sacralizado, da cervejaria. A doçura residual é perceptível, bem mais que em uma gueuze, com os evidentes taninos dos lúpulos e da madeira criando um equilíbrio diferente com uma acidez ainda suave. A absoluta falta de carbonatação, aliada à forte adstringência tânica, cria uma sensação muito curiosa, diferente de qualquer outra cerveja que eu já tenha tomado.

Fonte:
http://www.flickr.com/photos/brostad

Estilo: lambic – gueuze
Teor alcoólico: 5.0%
Aparência: coloração amarela queimada, com alta turbidez e um ótimo creme abundante e persistente, deixando marcas.
Aromas: maduros, com traços animais, terrosos e frutados das leveduras selvagens que se misturam a um elegante perfil de envelhecimento. Animal, terroso e amêndoas cruas predominam, com sensações secundárias de mofo, madeira seca (dos barris?), pêras verdes (dando um inusitado frescor frutado) e notas de mel ou xarope. O aroma de malte quase desapareceu, mas ainda há algo lembrando aveia, bem seco, indicando o trigo.
Paladar: decididamente seco e ácido, mas não de forma agressiva. Amargor e doçura também se fazem presentes em segundo plano, equilibrando-se mutuamente. Saliva a boca.
Sensação na boca: como deve ser uma boa gueuze – corpo bem seco e leve, com uma perceptível adstringência de taninos equilibrada com a acidez e o amargor. A maturação mais longa arredonda-lhe os taninos e seca-lhe o corpo, se compararmos com a lambic pura, tornando-a mais elegante.

Clique aqui para ver a avaliação completa.

A gueuze da Cantillon é feita a partir de um blend de lambics com 1, 2 e 3 anos de maturação em barris de carvalho. Possui paladar seco e adstringente na medida, com acidez marcante, salivando a boca. Grande amplitude aromática, em que as notas animais, terrosas e frutadas da cepa nativa de leveduras selvagens se mesclam admiravelmente a um perfil de maturidade elegante e bem integrado. Servida na própria cervejaria, mostrou-se ainda mais envolvente após a visita. Marcante sem exageros. Elegante, precisa, impecável.


A comparação entre a lambic jovem e a gueuze é muito instrutiva e mostra o trabalho que o produtor de lambics precisa fazer para aprimorar seu produto. A diferença mais marcante é a doçura residual, muito mais elevada na lambic pura. Isso é normal, pois as leveduras selvagens demoram alguns anos para consumir todos os açúcares da cerveja. Além da doçura, a versão jovem mostra taninos mais amargos, atenuando a percepção da acidez. Por não ser carbonatada, a jovem ainda tem uma sensação radicalmente diferente na boca. Já a gueuze mostra acidez mais limpa e consistente, doçura já bem mais suave (apenas o suficiente para equilibrar a acidez) e os taninos amaciados pelo tempo e pelo blend. Além disso, a amplitude aromática da gueuze é mais impressionante, sobretudo no perfil de fermentação espontânea e de oxidação. A lambic jovem é uma experiência única e imperdível, mostrando acidez mais equilibrada e fácil de “encarar” para quem não está acostumado ao estilo, enquanto a gueuze, mais desafiadora ao paladar, mostra toda a elegância de uma lambic bem maturada.

As lambics com frutas

A degustação ao final da visita ainda me permitiu comparar as características trazidas à cerveja pelas duas frutas mais frequentemente usadas como aditivos na produção de lambics: cerejas (na Cantillon Kriek 100% Lambic Bio) e framboesas (na Cantillon Rosé de Gambrinus). A Cantillon não emprega suco nem aromatizante de frutas, usando apenas frutas frescas. Ambos os rótulos são fabricados a partir de blends de lambics de diferentes idades, misturadas a uma quantidade de fruta equivalente a 200 g por litro do produto final. Normalmente, adicionam-se 300 g da fruta a cada litro de uma lambic de um ano e meio de idade, adicionando-se depois mais lambic jovem para ocasionar a refermentação na garrafa.

Fonte: calgarybeerdrinkers.wordpress.com

Estilo: fruit lambic (cereja)
Teor alcoólico: 5.0%
Aparência: coloração vermelha-rosada intensa e profunda, totalmente opaca, com creme rosado de curta duração.
Aromas: bebida bem jovem e fresca, os aromas da fruta mostram-se bastante vívidos, com cerejas frescas e frutas vermelhas, mas sem aquela sensação de bala de cereja de outros rótulos adoçados. Notas de amêndoas cruas e marzipã, com sensação mineral, também são intensas e quebram a doçura da fruta com elegância. Animal e madeira denunciam a fermentação espontânea, mas de forma mais discreta que nas lambics sem frutas. Por fim, seu toque mais característico ficou por conta de um vívido sabor de canela ao final do gole – talvez uma mistura do sabor da fruta com aquele terroso típico das Cantillon. Excelente, surpreendente.
Paladar: ela começa intensamente ácida, implacável, e depois fecha o gole com um equilíbrio perfeito entre a acidez residual, uma doçura de especiarias e um amargor tânico gentil. Mais um ponto para ela.
Sensação na boca: o corpo é leve e a textura é crocante, seca, com adstringência de taninos clara mas não agressiva.

Clique aqui para ver a avaliação completa.

A kriek “regular” da Cantillon é feita com adição de cerejas azedas inteiras a uma lambic de um ano e meio de idade, misturando-se depois um terço de lambic jovem para potencializar a fermentação secundária. Frutas, maturação e especiarias se complementam em perfeito equilíbrio, com os aromas de fermentação espontânea mais discretos. Tem paladar com personalidade, bem ácido no início, conduzindo a um final equilibrado entre acidez, amargor de taninos e doçura. Impecável, é difícil achar defeitos nela. Para mim, foi o ponto alto das degustações da visita – e devo dizer que, até hoje, nenhuma fruit lambic me encantou mais que ela.

Fonte: sheltonbrothers.info

Estilo: fruit lambic (framboesa)
Teor alcoólico: 5.0%
Aparência: sedutora coloração vermelha escura, com nuances arroxeadas, mais intensa que a kriek. Tem alguma transparência e um creme de pouca duração.
Aromas: as características da fruta (aromas de framboesa, de frutas vermelhas e até de cereja, embora ela não leve cerejas na composição), presentes mas não predominantes,  convivem com traços rústicos da fermentação espontânea (terroso marcante, animal, apimentado, vinagre e mostarda). Um certo aroma amendoado complementa o quadro. Bem mais rústica que a kriek, com as características de lambic já se sobressaindo às da fruta.
Paladar: a acidez predomina do início ao fim, com uma suave doçura de fruta, lembrando geleia, que chega ao final para lhe dar equilíbrio. Há pouco amargor.
Sensação na boca: tem corpo leve, com textura crocante e terrosa. Apesar de razoavelmente seca, tem poucos taninos se comparada à Kriek, o que a torna um pouco mais ingênua e fácil de beber, contrastando bem com a rusticidade do aroma. Para uma lambic tradicional, não adoçada, tem paladar acessível e amigável.

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A Rosé de Gambrinus é uma cerveja excepcional por ser, ao mesmo tempo, uma lambic rústica, tradicional e sem concessões, mas também fácil de beber e acessível (para o padrão da Cantillon, pelo menos). Tem intensas características de fermentação espontânea (acético, lático, animal, terroso), mas não mostra taninos tão firmes e consistentes quanto a Kriek, o que lhe dá uma sensação mais leve na boca.


Uma vez que ambas são feitas a partir dos mesmíssimos procedimentos (blends com idades equivalentes e a mesma quantidade de frutas), as grandes diferenças entre essas duas cervejas evidenciam bem a personalidade de cada fruta. O paladar da framboesa (acidez, doçura) parece mais intenso, enquanto as cerejas têm mais taninos, resultando em uma cerveja mais seca, tânica e estruturada. Também as cerejas parecem criar uma interessante harmonia com os tons terrosos das leveduras, resultando em uma deliciosa sensação de especiarias. O resultado é que a Rosé de Gambrinus parece mais alegre e fácil de beber, enquanto a Kriek parece mais elegante e sóbria.

Infelizmente, eu tinha horário para pegar um trem e não tive tempo para provar todos os rótulos. Ficou faltando a Faro, uma lambic sem frutas adoçada com caramelo e açúcar cândi. Como é o estilo que menos me agrada entre os 5 oferecidos, teve de ficar para uma próxima. Não importa – está aí um belo motivo para voltar à fábrica da Cantillon numa outra oportunidade!

sábado, 3 de novembro de 2012

Museus cervejeiros: o Museu Bruxelense da Gueuze

Fachada da Cantillon, com a porta do 
museu no canto esquerdo.
Fonte: acervo pessoal

A cidade de Bruxelas é destino quase obrigatório de todo turista cervejeiro por conta de ser a capital e maior cidade da Bélgica, espécie de nirvana para muitos apreciadores do nobre fermentado de cevada – entre os quais, admito, eu me incluo. A escola cervejeira belga produz uma miríade de estilos cervejeiros (a própria palavra “estilo” parece fora de lugar diante de tanta diversidade), desde as cervejas trapistas produzidas no silêncio reverente das abadias até as saisons mais rústicas e camponesas. Todos eles podem ser encontrados em Bruxelas, para o deleite do cervoturista sedento.

Mas o que nem todo visitante sabe é que existe uma família de cervejas exclusiva da região do vale do rio Senne, onde está encravada a cidade de Bruxelas. Trata-se das lambics, as apaixonantes cervejas de fermentação espontânea da escola belga. Para alguns iniciados ao mundo das cervejas especiais, a palavra “lambic” parece designar qualquer cerveja com fermentação espontânea, sem adição de leveduras. No entanto, o termo Lembeek também corresponde ao nome de um pequeno afluente do rio Senne e de uma vila na região de Bruxelas, sendo uma denominação de origem protegida. Isso significa que apenas as cervejas de fermentação espontânea produzidas naquela região podem reivindicar legitimamente a denominação “lambics”, o que as torna talvez as cervejas mais tradicionais da cosmopolita Bruxelas.

E não é que a cidade tem um museu inteiramente dedicado a elas? Trata-se do MuseuBruxelense da Gueuze (Musée Bruxellois de la Gueuze), que nada mais é do que a denominação da instituição museológica mantida por um dos mais tradicionais produtores de lambics: a cervejaria Cantillon. Um museu criado e mantido pela Cantillon, então? Se você está pensando em um salão com vitrines, equipamentos antigos e fora de uso e legendas explicativas, está enganado. O Museu Bruxelense da Gueuze nada mais é do que a própria fábrica da Cantillon.

Nova Museologia, ecomuseus e museus comunitários

Mas desde quando uma fábrica pode ser um museu? Museu não é lugar de guardar coisas antigas? Na verdade, o Museu Bruxelense da Gueuze pode ser considerado um exemplo daquilo que, em Museologia, chamamos muitas vezes de “ecomuseu”. Mas que diabos é isso? Será que é um museu ecológico, uma espécie de viveiro com plantas e bichinhos e espécies em risco de extinção? Não é nada disso. Vejamos.

Os ecomuseus fizeram parte de um grande movimento de renovação na Museologia mundial ocorrido entre os anos 1960 e 1970. A contundente crítica dos intelectuais da época às instituições e modos de pensar tradicionais não poderia deixar de tomar como alvo os museus, considerados então espaços elitistas de celebração da história oficial dos “grandes homens” – um modo mais pomposo de dizer que muitos museus não passavam de lugares conservadores ocupados de babar ovo para os “poderosos” de antanho. Onde estavam o povo comum e a vida das pessoas de verdade?

Os ecomuseus começaram a chegar também 
ao Brasil no século XXI. Acima, a renda de bilros 
de Florianópolis no Museu do 
Folclore de São José dos Campos.
Fonte: http://www.ovale.com.br
A Nova Museologia das décadas de 1960 e 1970 desenvolveu-se em torno de uma seção da UNESCO chamada ICOFOM (Comitê Internacional para a Museologia) e propôs novos tipos de museus que, ao invés de celebrar antepassados ilustres em vitrines empoeiradas, conseguisse representar as tradições seculares e a cultura viva do povo comum. O termo “ecomuseu” acabou se tornando uma espécie de denominação genérica para indicar esses novos experimentos museológicos. Apesar de sua variedade, tinham alguns princípios comuns: em primeiro lugar, compartilhavam a ideia de que a cultura de um povo era algo vivido no dia a dia, e não algo que pudesse ser imobilizado em uma vitrine. Hábitos, celebrações, formas de trabalho, alimentação e lazer – nada disso cabe em prateleiras. Em segundo lugar, todos entendiam que essa cultura não podia ser tirada do seu ambiente natural e cultural (daí o nome ecomuseu): era preciso levar as pessoas para conhecê-la nos locais efetivamente ocupados pelas comunidades. Em vez de prédios pomposos, os ecomuseus se instalaram em aldeias, centros comunitários, onde quer que as tradições culturais continuem sendo vivenciadas cotidianamente pelas pessoas. Patrimônio imaterial e comunidade residente, tais eram as linhas de força do projeto neomuseológico.

O resgate de uma tradição bruxelense

A cervejaria Cantillon foi fundada em 1900, mas o Museu Bruxelense da Gueuze só foi aberto ao público no ano de 1978. Seu objetivo é salvaguardar uma das tradições populares mais enraizadas na região da Bélgica: a produção e o consumo de lambics segundo técnicas seculares. Ao longo dos anos 1960, a produção tradicional de lambics vinha sendo seriamente ameaçada pela concentração de capitais na indústria cervejeira, que tirava de cena as cervejarias familiares em prol de grandes conglomerados industriais com procedimentos padronizados de produção, que estavam adaptando as particularíssimas lambics ao gosto de consumidores globalizados. Como resultado, as lambics que não desapareceram estavam se convertendo gradualmente em versões atenuadas e adoçadas do estilo (como as que, ainda hoje, dominam o mercado belga).

A Belle-Vue, da AB-InBev, é emblemática do 
processo de adaptação industrial das gueuzes.
Fonte: belgianbeershrimper.wordpress.com
Esse processo ocorreu de forma mais ou menos intensa com todos os estilos cervejeiros no século XX. Mas no caso das heterodoxas lambics, havia agravantes. Ora, a maioria esmagadora das cervejas consumidas em todo o mundo é produzida pela adição de alguma espécie de levedura ao mosto (um preparado líquido à base de água, grãos e lúpulo), seguindo-se uma fermentação realizada por essas leveduras para a produção de álcool. As lambics não recebem adição deliberada de leveduras. Em vez disso, o mosto é deixado fermentar naturalmente pela ação de bactérias e leveduras presentes na atmosfera. Em bom português, a lambic é uma cerveja que o produtor “deixa estragar”, e daí seu gosto desafiadoramente azedo. Para paladares acostumados a produtos pasteurizados e ao rígido controle sanitário da era industrial, as lambics são um tapa na cara. E, como são fermentadas espontaneamente, o produtor precisa abdicar desapegadamente de uma parte importante do controle sobre o processo, o que parece insano diante dos padrões de padronização da produção industrial.

As lambics bruxelenses dependiam de um delicado entrelaçamento de fatores: uma sensibilidade gastronômica pré-industrial, um hábito popular típico de uma região, um grau limitado de concentração de capitais e uma estrutura familiar tradicional comandando a produção. Tudo isso estava ameaçado de extinção na segunda metade do século XX. A Nova Museologia se apresentou então como recurso promissor para preservar um produto regional, unindo em torno dele seus produtores e seus consumidores. Daí nasceu o Museu Bruxelense da Gueuze, com o objetivo de resgatar e difundir uma tradição regional e, ao mesmo tempo, mantê-la viva. Para isso, nada melhor do que um ecomuseu.

A visita ao museu

O nome “Museu Bruxelense da Gueuze” faz referência ostensiva a um dos subestilos de cerveja dentro da família das lambics. As gueuzes são cervejas produzidas a partir do blend de lambics puras de diferentes estágios de maturação (cervejas de um, dois e três anos de idade, no caso da Cantillon), que são envasadas para ocasionar uma segunda fermentação na garrafa. Contudo, a Cantillon produz outros estilos de lambics, que também estão igualmente representados em seu museu, pelo que ele poderia, tranquilamente, ser chamado de Museu Bruxelense da Lambic.

O simpático bar e espaço de degustação 
à entrada do museu.
Fonte: acervo pessoal
O museu não está no centro turístico de Bruxelas, mas chega-se a ele com facilidade depois de uma caminhada de dez minutos a partir da estação central de trens (Gare du Midi). O primeiro choque para o visitante começa na entrada. O museu está instalado no mesmo prédio da fábrica da Cantillon, sendo que não existe uma entrada específica para visitantes, e as portas da cervejaria ficam fechadas durante boa parte do dia. Isso significa que, quando finalmente encontramos o endereço, podemos ter a impressão de que o museu está fechado e que perdemos a viagem. Basta, contudo, abrir a pesada porta para ser recebido no interior (exceto, é claro, se for domingo, dia em que a cervejaria não abre mesmo).

Para o amante de lambics, esse primeiro momento é uma espécie de epifania. Assim que entramos no interior escuro do prédio, os aromas animais e de couro das leveduras selvagens saturam deliciosamente nossas narinas. Parece que estamos dentro de um copo de lambic. À entrada, paga-se uma taxa de 6 euros pela visita. Na verdade, o preço do ingresso é quase simbólico, uma vez que inclui duas degustações incluídas e um livreto explicativo, essencial para se aproveitar a visita. À entrada, normalmente se dá ao recém-chegado uma pequena porção da lambic jovem da cervejaria, servida de um jarro de cerâmica à temperatura ambiente (como nas telas de Bruegel que já comentamos aqui). Ao final da visita, uma pequena porção da gueuze exemplifica na prática a diferença entre os estilos.

É possível sentar-se e apreciar a degustação inicial em um pequeno bar montado à entrada da cervejaria, com antigos barris de madeira servindo como mesas. Em pouco tempo, um dos funcionários da cervejaria apresenta-se para conduzir a visitação para pequenos grupos, em francês e em inglês. Minha visita foi conduzida por Louis-Phillipe, cujo entusiasmo pelas lambics que produzia era evidente em sua fala. Há uma pequena explicação sobre as lambics na cozinha de brassagem da cervejaria, em meio ao equipamento da Cantillon, e o visitante é deixado à vontade para percorrer as instalações por conta própria, sozinho ou em pequenos grupos. Eu aproveitei a oportunidade para também bater um papo com o produtor e presenteá-lo com uma cerveja brasileira. Sabendo que a madeira é um dos elementos essenciais da produção de lambics, resolvi dar-lhe uma cerveja que representasse uma de nossas madeiras típicas, pelo que escolhi a ótima 3 Lobos Bravo Imperial Porter, maturada em barris de umburana.

Lambics a perder de vista descansando 
nos barris da Cantillon!
Fonte: acervo pessoal
Podem-se visitar todas as instalações da cervejaria, incluindo o equipamento de brassagem, as câmaras de fermentação aberta e de maturação em barris de carvalho, a linha de envase e a cave onde se faz a refermentação e a maturação em garrafa. Três coisas me causaram uma forte impressão durante a visita. Em primeiro lugar, ver quão pequena é a fábrica. A Cantillon é uma referência na produção de lambics. Suas cervejas são desejadas e elogiadas mundialmente pelos apreciadores. Apesar disso tudo, a fábrica parece espantosamente pequena, mesmo para os padrões microcervejeiros. Produção em pequena escala, à qual se somam os longos tempos de maturação necessários para uma boa lambic. As cervejas da Cantillon demoram pelo menos 2 anos e meio para ficarem prontas, o que obviamente compromete boa parte do espaço livre. No interior da câmara de maturação, uma placa de madeira estampa um lema que não poderia ser mais apropriado: “Le temps ne respecte pas ce qui se fait sans lui.” Ou seja: “o tempo não respeita aquilo que é feito sem ele.” Na verdade, é a falta de espaço para maturar a cerveja durante todo esse tempo o que impede o aumento na produção da Cantillon.

Esta geringonça mirabolante é a tina de mostura 
do século XIX, ainda em uso na Cantillon.
Fonte: acervo pessoal
O segundo fator que impressiona na visita é ver a antiguidade do equipamento. Segundo nos explicou Louis-Phillipe, quase todo o maquinário em uso ainda hoje é original da época de abertura da fábrica (a única exceção parece ser a linha de envase). Isso significa que a Cantillon produz suas maravilhosas cervejas usando máquinas do século XIX! Tudo o que se vê lá dentro é um verdadeiro patrimônio histórico plenamente funcional – exatamente o que se espera de um ecomuseu. Por fim, o fator talvez mais chocante da cervejaria são as suas condições sanitárias. Nas produtoras de ales e lagers, acostumamo-nos a ver sempre condições sanitárias quase comparáveis às de um hospital, tamanha a preocupação com possíveis contaminações. Ocorre que “contaminações” são a alma de qualquer lambic, pois a fermentação espontânea depende intimamente dos microorganismos que habitam a cervejaria. Apesar de os equipamentos serem sanitizados regularmente, o prédio em si não parece ser higienizado jamais: a cada canto, em cada buraco e viga do madeiramento, deparamo-nos com exuberantes teias de aranha a nos lembrar por que as lambics são chamadas de cervejas “selvagens”.

Grossas teias de aranha se espalham por todos os cantos, 
brechas e frestas do edifício. E a gente ainda 
bebe as cervejas com prazer mesmo assim!
Fonte: acervo pessoal
A antiguidade do maquinário, a paixão dos funcionários, a reverência ao tempo, o verdadeiro ecossistema que existe dentro do prédio com seus fungos, insetos e bactérias convivendo com os homens, tudo isso dá à fábrica da Cantillon um ar ao mesmo tempo genuinamente despojado (nada ali parece montado com propósitos puramente estéticos) e também extremamente sacralizado. Ao observar a rústica câmara de resfriamento no forro da fábrica, no ponto mais alto do edifício, onde o mosto recebe do ar as leveduras selvagens, não pude evitar sentimento semelhante ao de estar em frente a um altar. No lugar onde um verdadeiro milagre acontece a cada nova brassagem. Um milagre reiterado desde um longínquo passado pré-industrial, e cuidadosamente preservado até hoje apesar de sua vulnerabilidade.

Cultura tradicional e preservação

Ao final da visita, serve-se mais uma taça, desta vez da gueuze. Se, no início, bebemos a lambic jovem – crua, não lapidada –, ao apreciar a gueuze, aprendemos a reverenciar a importância de toda aquela estrutura produtiva e respeitar o que se faz tendo o tempo como aliado. Perdoem-me os católicos pela heresia, mas, para quem é apaixonado pelas lambics, é quase como comungar o mistério do sangue de Cristo na eucaristia. Depois, é quase inevitável que nos estendamos nas simpáticas mesinhas do bar para continuar matutando sobre a maravilha da fermentação selvagem, embalados por mais algumas taças de boa lambic (pagas à parte depois da visita a preços bastante camaradas).

Ao final, eu me peguei pensando, como profissional de museus, o quanto o Museu Bruxelense da Gueuze, apesar de seu insuspeitado formato, cumpre exatamente a promessa de um bom ecomuseu. Temos a oportunidade de observar um patrimônio histórico ainda em uso por pessoas apaixonadas que vivem daquilo e, literalmente, respiram o ar da lambic. Vemos com clareza a distância histórica que separa essa experiência do “nosso” mundo industrial contemporâneo, e compreendemos que o presente ainda pode ser feito a partir de muitos passados acumulados. Melhor ainda, podemos comungar, durante algum tempo, o mistério dessa tradição quase abandonada e aprender a reverenciar seus encantos. Unir praticantes e entusiastas em torno de uma deliciosa tradição – não seria esse o objetivo de qualquer boa instituição cultural?

No próximo post, iremos direto ao cálice sagrado: falarei um pouco sobre as cervejas que podemos apreciar no Museu Bruxelense da Gueuze, só para deixar meus leitores com um pouco mais de água na boca. Não perca!

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Museus Cervejeiros: O Museu da Cerveja de Lisboa


Como alguns dos meus leitores talvez já saibam, acabo de passar por um estágio de dois meses na capital portuguesa. Foi um estágio profissional, ligado à minha pesquisa de doutorado, mas é claro que aproveitei as brechas do trabalho acadêmico para conhecer um pouco da cultura cervejeira lusitana. Ainda pretendo fazer um relato completo do que há para se ver e fazer em relação a cervejas em Lisboa, mas quero pôr o carro na frente dos bois por um momento para falar de outro assunto que muito me interessa: museus.

Museologia e museus temáticos

Prédio da primeira fábrica da Bohemia no Brasil, 
reformulado para abrigar o Museu Bohemia Experience.
Fonte: pauloratto.com.br
Museus vinculados à cerveja têm aparecido ao redor do mundo nos últimos anos, e o Brasil não ficou de fora desse fenômeno. Recentemente, tivemos a inauguração de uma grande instituição museológica mantida pela AB-InBev na antiga fábrica da Bohemia, em Petrópolis/RJ: o Museu Bohemia Experience (veja aqui um relato feito por Rodrigo Lemos, do blog BeerArchitecture, sobre a visita ao museu). Em Blumenau, existe ainda o Museu da Cerveja, administrado pela Prefeitura de Blumenau (veja aqui um vídeo feito pelo Brejas sobre o museu). Essas instituições, bem como outras semelhantes que existem no exterior, estão vinculado a uma grande tendência cultural de finais do século XX e início do XXI, que é o fortalecimento dos museus temáticos, que apresentam informações sobre história, cultura, tecnologia e artes, tudo em torno de um tema específico – no caso, nosso amado fermentado de cevada.

Ao contrário do que muita gente pensa, museus não são depósitos de velharias para a gente matar o tempo e ver coisas pitorescas antes de partir para alguma outra atração turística mais descolada. Já atuei profissionalmente em instituições museológicas (mais especificamente, no Museu Afro Brasil) e posso assegurar que museus são instituições complexas, com várias importantes funções sociais para além do Turismo. Os problemas (conceituais e práticos) ligados à montagem e manutenção de museus e exposições museológicas são complexos o bastante para que exista uma ciência exclusivamente dedicada a eles, a Museologia. Pois bem: é justamente à luz de alguns princípios da Museologia que pretendo analisar dois museus cervejeiros que tive a oportunidade de visitar recentemente, começando pelo Museu da Cerveja de Lisboa.

A visita ao museu

Fachada do Museu da Cerveja, na bela arcada 
da Praça do Comércio, com mesas na calçada.
Fonte: acervo pessoa
O Museu da Cerveja abriu suas portas na capital portuguesa muito recentemente, em junho de 2012. Segundo o que se lê no site da instituição, pretende ser um “espaço de celebração da [...] riqueza histórica” da “tradição e patrimônio cervejeiro dos Países de Língua Oficial Portuguesa”. O site não nos dá informações precisas, mas o museu parece ser uma instituição privada com apoio financeiro de parceiros ligados à Associação Portuguesa dos Produtores de Cerveja. A instalação do museu integrou um grande plano de revitalização turística da área da Praça do Comércio, no centro de Lisboa, bem às margens do rio Tejo.

O espaço museológico, propriamente dito, ocupa apenas o piso superior, enquanto o térreo e a parte externa, nas calçadas da Praça do Comércio, são dedicados a um restaurante e cervejaria. A exposição divide-se em três núcleos: no primeiro, temos alguns painéis informativos, com textos e imagens, a respeito da história da cerveja em Portugal. Somos informados acerca da produção e do consumo de cervejas no país desde a época do povoamento celta até os dias atuais. Encontram-se expostos alguns poucos artefatos, em sua maioria equipamentos ligados à produção e consumo de cerveja nos séculos XIX e XX, doados pelas cervejarias portuguesas.

Vitrines com garrafas antigas e materiais 
publicitários de cervejas portuguesas.
Fonte: thebeerstyles.com
A segunda parte da visita mostra algumas marcas de cerveja dos países de língua portuguesa, com vitrines em que são expostos garrafas, rótulos e artigos publicitários antigos e contemporâneos. O maior destaque vai para as cervejas de Portugal, mas existe uma vitrine para cada um dos países de língua oficial portuguesa, cada um mostrando uma marca representativa do país. A marca escolhida para representar o Brasil foi a Bohemia, numa vitrine que mostra alguns rótulos atuais do portfolio da cervejaria. Antes que me perguntem, nem sinal de cervejas artesanais – nem brasileiras, nem portuguesas, nem tampouco de nenhum outro lugar do mundo. Aliás, o acervo contempla apenas e tão-somente as grandes cervejarias industriais do século XX. Apesar de recente, o Museu da Cerveja ignora completamente aquele que talvez seja o mais interessante capítulo da história da cultura cervejeira nas últimas décadas.

Por fim, a visita termina com uma constrangedora e fantasiosa recriação de uma cervejaria monástica medieval. Um educador do museu fantasiado de hábito monástico nos recebe à entrada e nos conduz a um ambiente pequeno e escuro, onde, ao lado da estátua de cera de um monge, somos apresentados aos ingredientes da cerveja sobre uma escrivaninha: “malte claro”, “malte escuro” e um vidro com lúpulos em flor, cujo aroma pode ser sentido pelo visitante. O educador que orienta a visita ainda nos apresenta réplicas de equipamentos usados na produção de cervejas no período e, por fim, serve de uma chopeira em forma de barril uma pequena porção de uma cerveja exclusiva do museu.

Ao sair desse ambiente, descemos as escadas para nos encontramos novamente no bar/restaurante, onde se podem apreciar os chopes exclusivos do museu e outras cervejas portuguesas, brasileiras e angolanas em garrafa e lata, tudo acompanhado de um cardápio composto majoritariamente por peixes e frutos do mar.

Problemas conceituais

Para um profissional de museus com formação como sommelier de cervejas, é difícil saber por onde começar a apontar os problemas do Museu da Cerveja. Em primeiro lugar, salta aos olhos a pobreza do acervo material: alguns poucos equipamentos produtivos de pequeno porte, garrafas e materiais promocionais (uma vasta parte dos quais é atual) em número pouco representativo, sobretudo em relação aos outros países além de Portugal, e um ambiente (a adega monástica) composto totalmente por réplicas, algumas de duvidosa fidelidade histórica.

Recriação de uma cervejaria monástica medieval. 
Não dá para ver bem como eram feitas 
as cervejas na Idade Média?
Fonte: lifestyle.publico.pt
Mas isso é só o começo. Sem dúvida, o núcleo mais problemático do museu é a dita “adega monástica”. O ambiente escuro não nos permite enxergar o acervo, e a exposição do pobre educador fantasiado é confusa e cheia de informações incorretas, mostrando que a formação e o treinamento dos educadores estão longe de ser preocupações do museu. Durante a visita, o educador tentou me convencer de algumas informações que revolucionariam meu entendimento da história da cerveja, se eu tivesse lhes dado crédito. Por exemplo, aprendi que o lúpulo era responsável pelo cheiro de álcool da cerveja, que as cervejas medievais atingiam o espantoso teor de 40% de álcool ao final da fermentação, e que depois precisavam ser destiladas para poderem atingir um teor alcoólico final de 20% (!!!). Uma quantidade assustadora de informações estapafúrdias para uma parte da visita que não durou 15 minutos. A única pergunta que eu fiz ficou sem resposta: durante a degustação de cerveja ao final da visita, fui informado de que eu estava provando a “Cerveja do Museu Bohemia”. Notando que se tratava na verdade de uma Vienna lager bem frutada (falarei mais sobre a cerveja adiante), perguntei se o educador sabia me explicar o porquê do nome “Bohemia”. Continuo até agora assolado por essa dúvida cruel.

À parte as informações equivocadas, também há problemas conceituais graves na idealização da exposição. É evidente que existiu, em algum momento, uma consultoria história para a composição dos painéis informativos (principalmente no primeiro núcleo), mas não encontrei informações sobre a curadoria do museu, nem durante a visita, nem no site da instituição. Os núcleos expositivos não têm um fio condutor claro e não se ligam de forma consistente entre si: temos vitrines de cervejas de todos os países lusófonos (desproporcionalmente representados), informações históricas exclusivamente a respeito de Portugal e a recriação de uma cervejaria monástica que está longe de ser uma particularidade portuguesa – e muito menos dos países lusófonos.

Primeiro núcleo do museu, com os painéis informativos. 
O acervo material aqui é apenas ilustrativo.
Fonte: sabores.sapo.pt
Por fim, há a questão de como o acervo material é abordado. Ora, o foco de um museu deve ser sempre o seu acervo material – seus objetos. Nós vivemos em uma sociedade em que os objetos possuem uma imensa importância, e os museus têm como função primordial suscitar no visitante reflexões e experiências a partir da observação desses objetos, deslocados de seu contexto original. Todo bom museu tem algo a nos dizer, uma história a contar ou uma reflexão a propor por meio dos objetos. Se os objetos não forem o centro dessa experiência, o museu perde toda sua função e se torna redundante: podemos aprender as mesmas informações ou ter a mesma experiência lendo um livro ou assistindo a um documentário, por exemplo. Os objetos, em sua materialidade, constituem aquilo que apenas um museu pode nos oferecer, sua particularidade. Ocorre que, no Museu da Cerveja, os objetos são meramente figurativos, ilustrativos. Na melhor das hipóteses, as informações estão quase todas nos textos dos painéis e no relato do guia, e o acervo material é um mero coadjuvante. Em alguns casos, a exposição nem nos permite enxergá-los a contento!

Nos momentos mais problemáticos, os objetos servem de “cenografia” para uma tentativa de recriar uma experiência histórica (as cervejarias monásticas medievais) de forma caricatural e pitoresca. Um dos museólogos que mais respeito, Ulpiano Meneses (que foi responsável pelo projeto atual do excelente Museu Paulista, vulgarmente conhecido como Museu do Ipiranga), alertou veementemente para os perigos e os problemas conceituais dos chamados living museums, que tentam recriar cenograficamente períodos do passado para dar aos visitantes a ilusória sensação de “viajar no tempo”. Ora, nós somos indivíduos do presente, com os valores da nossa época, de modo que essa tentativa de “sentir a experiência” de épocas passadas só pode resultar em uma grotesca mistificação da história. Não existe atalho de volta ao passado; a única coisa que nos resta é tentar compreender o passado por meio do conhecimento – e os objetos podem nos ajudar nessa tarefa. (para quem tiver interesse, um excelente artigo do Ulpiano em que ele explora essa questão pode ser acessado clicando aqui)

O bar e restaurante

No piso térreo, o visitante termina (ou começa) sua visita num espaço amplo e moderno em que pode se sentar ao balcão ou às mesas para beber uma cerveja e apreciar receitas portuguesas, principalmente frutos do mar. O destaque vai para os chopes da casa, chamados de “Cerveja do Museu” e produzidos com exclusividade para a instituição pela Sociedade Central de Cervejas, a mesma que produz os rótulos da marca Sagres. Há três estilos: Clara, Escura, e Bohemia. Trata-se, respectivamente, de uma American standard lager, uma American dark lager (que os portugueses normalmente chamam de “stout”) e uma Vienna lager. A Cerveja do Museu Bohemia é a mesma da degustação ao final da visita ao museu, e no bar pode-se apreciá-la em doses mais generosas. O mais interessante é o copo do chope: sua superfície interna é moldada na forma da boca de uma garrafa de cerveja, de modo que, quando o chope é servido, parece que há uma garrafa de ponta cabeça dentro do copo! O visual é curioso, além de que a dupla camada de vidro protege o chope contra a variação de temperatura. Boa sacada.

Cerveja do Museu Bohemia. 
O copo de cerâmica você ganha 
ao comprar o tíquete para o museu. 
Será que você reconhece os rótulos 
na prateleira superior, ao fundo?
Fonte: acervo pessoal
Ao final da minha visita, eu pedi um repeteco da Cerveja do Museu Bohemia. Quando vi o nome pela primeira vez, ao entrar, achei que seria uma Bohemian pilsner ou algo próximo disso; contudo, em Portugal, “bohemia” é uma denominação comercial de estilo adotada pelas grandes cervejarias para cervejas que constituem uma interpretação adocicada do estilo Vienna lager. A Cerveja do Museu Bohemia apresentou uma bonita cor acobreada escura, quase idêntica à de uma garrafa âmbar comum (realçando o efeito de ilusionismo do copo), um aroma bem doce, caramelado e frutado (com toques expressivos de maçãs vermelhas) e leve sensação acastanhada dos maltes usados na receita. Mostra-se bem doce, com agradável persistência na boca e um amargor que aparece bem no final e evita que ela se torne muito enjoativa. (veja aqui a avaliação completa) Meus leitores me perdoem a heresia, mas eu preferi a versão servida durante a visita porque ela apresentou uma leve sensação amanteigada de diacetil, que provavelmente indica problemas de higienização da chopeira do piso superior, mas que ressaltou agradavelmente a doçura da cerveja.

Depois de ver a variedade de países representados na exposição, é um pouco frustrante saber que você não vai poder degustar cervejas de todos os países lusófonos no bar. O cardápio apresenta rótulos portugueses, angolanos e brasileiros (entre os brasileiros, Skol e Brahma). Eu aproveitei a oportunidade para degustar, acho que pela primeira vez na vida, uma cerveja africana, produzida em Angola, e para conseguir o primeiro rótulo africano da minha coleção. Para mim foi um momento emocionante, já que minha atividade profissional sempre se ligou a temas de história da África (e de Angola em especial), mas a verdade é que a cerveja estava sofrível. Problemas de transporte? Não só: havia claros problemas do processo produtivo também. Nunca mais vou reclamar da qualidade das cervejas industriais brasileiras.

Uma salada indigesta de lusofonia e capitalismo

Quando observamos que o foco do Museu da Cerveja não é nem oferecer informações históricas consistentes e nem explorar um acervo material, torna-se claro que seu objetivo primordial é outro: vender cerveja. Espero não estar sendo leviano demais, mas minha impressão sincera é a de que, pelo menos por enquanto, o museu é uma espécie de “maquiagem cultural” para uma cervejaria e restaurante para turistas numa região de Lisboa em processo de valorização comercial. Para o restaurante, a montagem de uma instituição museológica oferece benefícios fiscais e oportunidades de parcerias privadas. Para as cervejarias, o espaço expositivo funciona como propaganda para suas marcas. Ambos ganham: quem sai perdendo, além do visitante, evidentemente, é a cultura cervejeira e a boa Museologia.

As noções de “lusofonia” e de integração cultural dos países de língua portuguesa, conceitos da moda no campo da gestão pública da cultura, ajudam a criar essa maquiagem cultural e reforçam a vocação turística da cervejaria. Aliás, a denominação oficial do museu, com nome-e-sobrenome, é Museu da Cerveja dos Países de Língua Oficial Portuguesa. Há planos, inclusive, de que sejam abertas filiais em outros países de língua portuguesa – nomeadamente, em São Paulo (Brasil) e em Maputo (Moçambique). A lusofonia, sem dúvida, é ótimo pretexto para explorar oportunidades de investimento e franquias internacionais. Infelizmente, no caso do Museu da Cerveja, ela não se faz acompanhar da possibilidade de explorar experiências históricas, culturais, e nem mesmo gastronômicas, dos outros países-irmãos falantes do idioma de Camões. Uma pena, pois seria um conceito bastante interessante.

Na próxima parte desta matéria, apresentarei um contraponto ao Museu da Cerveja, falando um pouco sobre a proposta curatorial dos chamados ecomuseus a partir da visita que fiz ao extraordinário Museu Bruxelense da Gueuze. Não perca!

sábado, 29 de setembro de 2012

Cerveja e artes plásticas: Abundância, alegria e moralismo em Pieter Bruegel


Na transição da Idade Média para a época moderna, a região de Flandres (que atualmente corresponde a parte da Bélgica e Holanda) participou ativamente de uma das mais vigorosas transformações na pintura europeia, desenvolvendo o que veio a ser conhecido como a “escola flamenga” de pintura. Embora seja normalmente reconhecida como parte do Renascimento europeu, a escola flamenga difere bastante da arte italiana da época. Sua pintura tornou-se conhecida pelo seu detalhismo exuberante e pela maior atenção ao ambiente e à paisagem circundante. Como resultado, em vez de se ater a algumas figuras importantes, a pintura flamenga muitas vezes produziu grandes painéis de inigualável riqueza de detalhes e informações sobre o modo de vida da época.

Ora, todos nós, apreciadores de cerveja, estamos carecas de saber que, além de ser o berço da escola flamenga, essa parte da Europa também é uma das mais tradicionais regiões produtoras de cerveja do mundo. Não espanta, portanto, que a cerveja tenha sido figurada com alguma frequência nas obras de arte da época. Partiremos hoje da obra de um pintor chamado Pieter Bruegel (também conhecido como Brueghel, o Velho, já que seu filho também veio a se tornar pintor) para refletir um pouco sobre o papel da cerveja e dos alimentos de forma geral na cultura europeia da época. Bruegel é autor de uma série de representações da vida camponesa do período – alguns afirmam que ele chegava a se vestir como camponês para poder frequentar eventos populares e observar melhor! E, como não poderia deixar de ser, a cerveja aparece em algumas dessas representações.

Cerveja e festa

Pieter Brueguel – O casamento camponês (1568)
Fonte: http://www.ibiblio.org

Tomemos como exemplo O casamento camponês, de 1568. Essa pintura é notável por vários motivos. Observe-se especialmente a solução da composição, feita de forma assimétrica com perspectiva em dois pontos de fuga, o que consegue ao mesmo tempo criar um amplo espaço para os convivas do lado esquerdo sem esconder as personagens sentadas à mesa. A noiva, figura principal do evento, é destacada de forma sutil e natural pelo tecido verde pendendo atrás dela. Mas o verdadeiro protagonista do quadro é o povo, com sua disposição de aproveitar ao máximo a festa, conversando alegremente, ouvindo música e comendo e bebendo o que, na época, era uma raríssima fartura alimentar. Aliás, não é assim até hoje? Conheço algumas pessoas que só vão a casamentos para comer e beber – e, evidentemente, depois falar mal da comida e da bebida pela qual foram à festa.

Pieter Brueguel – O 
casamento camponês (1568) 
- detalhe
Fonte: http://www.ibiblio.org
O observador atento já terá visto a cerveja na cena. Há alguns jarros e canecos de cerâmica sobre a mesa – lembremo-nos de que não era costume usar vidro nos copos de cerveja antes do século XIX. E, principalmente, há a figura no canto inferior esquerdo, enchendo um jarro pequeno a partir de um grande cântaro. A cena evoca as representações pictóricas das bodas de Canaã, durante as quais se atribuiu a Cristo o milagre de transformar água em vinho. Esse aí sabia das coisas. Aliás, numa primeira olhadela, pensaríamos se tratar de vinho o que está representado n’ O casamento camponês. Mas a cor do líquido indica claramente que era a cerveja que abastecia a animada festa popular.

Assim, à temperatura ambiente, em jarros abertos, possivelmente sem carbonatação? É, assim mesmo. Existem alguns lugares tradicionais na região de Bruxelas, na Bélgica, em que você ainda pode dar a sorte de encontrar a cerveja sendo servida dessa maneira: nas cervejarias que produzem lambics e em alguns cafés em que elas são servidas “à tradicional”. Na cervejaria Cantillon, por exemplo, a lambic simples (mas não a gueuze e nem as com frutas) é servida exatamente dessa forma: em jarros de barro, à temperatura ambiente e sem carbonatação. Aliás, é provável que a cerveja que tenha sido figurada na pintura seja uma cerveja de fermentação espontânea, como as lambics, que eram muito mais comuns na época do que são hoje – para a minha infelicidade, diga-se de passagem, já que sou um amante inveterado do estilo.

Cerveja e fartura

Diante disso, devemos encarar a possibilidade de que outras bebidas servidas em jarros de cerâmica nas pinturas de Bruegel e de outros mestres flamengos fossem também cerveja. Outra cena em que isso é sugerido é a tela A colheita do milho, pintada por Bruegel alguns anos antes, em 1565:

Pieter Brueguel – A colheita do milho (1565)
Fonte: http://upload.wikimedia.org

A composição, mais uma vez assimétrica, se divide mais ou menos na metade pela árvore em primeiro plano. À esquerda dela, uma elaborada paisagem dos campos flamengos com uma aldeia ao fundo; à direita, na parte inferior, alguns trabalhadores rurais descansam e fazem uma refeição. Um deles, de camisa vermelha, sorve avidamente um líquido de um grande cântaro como aqueles que vimos n’ O casamento camponês. A associação com a cerveja é sugerida pela própria cena: estamos em uma região produtora de grãos, e não de uvas, e é provável que o recipiente de barro contenha um pouco da produção cervejeira local. Um dos trabalhadores dorme tranquilamente à esquerda da árvore, talvez levemente amortecido pelo álcool.

A cerveja infinita, fluindo caudalosa como um rio, fazia parte dos sonhos de fartura típicos da cultura camponesa da Idade Média e do início da época moderna. Nas duas telas que vimos, a cerveja está associada a momentos de alegria e de abundância: num caso, uma festa de casamento, comemoração e ocasião de beber e comer à vontade. No outro, a época da colheita, que marca um momento de alegria e de otimismo pela chegada de mais alimento, prometendo fartura à mesa durante os meses seguintes. A cerveja, como bebida por excelência ligada aos grãos, ao cultivo e à mesa, marca presença nessas cenas de alegre e inocente comilança.

Uma sombria ambiguidade

Em várias regiões da Europa medieval, acreditava-se na existência de um país fantástico chamado Cocanha, a terra da abundância. Descrições da época mostram o país da Cocanha como uma espécie de paraíso terrestre, em que o leite, o vinho e o mel corriam em riachos, a comida caía dos céus nas bocas das pessoas e as árvores abundavam com frutos. Em uma cultura camponesa marcada pela ameaça real da fome e da carestia (as crônicas da época relatam diversos anos de grande mortandade pela falta de alimentos), o país da Cocanha simbolizava uma compreensão carnal, imediata e material da felicidade e do paraíso. Um mundo sem preocupações, em que o gozo era lei inevitável. Até por isso, esse mito foi visto com alguma ambiguidade pelos teólogos da Igreja – os quais, cada vez mais, passaram a defender a mensagem de que a verdadeira salvação da alma implicava abandonar os prazeres da carne. No século XVI, a região de Flandres tinha uma forte presença de protestantes, para os quais a mensagem do ascetismo e da negação do corpo era ainda mais importante do que para os católicos.

Nesse contexto cultural, não é de estranhar que a “cerveja abundante” dos sonhos camponeses fosse vista com alguma reserva, principalmente pela cultura erudita da época. Não propriamente por causa do álcool (como ocorre hoje), mas porque ela se misturava a utopias carnais e materiais que pareciam ameaçadoras do ponto de vista religioso.

Pieter Brueguel – O país da Cocanha (1567)
Fonte: http://upload.wikimedia.org

A representação de Bruegel do país da Cocanha, que você vê acima, mostra exatamente essa ambiguidade. Vemos em primeiro plano três homens deitados: da esquerda para a direita, um camponês, um cavaleiro e um padre, simbolizando os três estados da sociedade. Acima deles, uma mesa com comida e jarros deitados, presumivelmente já consumidos pelos três convivas. Animais abatidos jazem pelo cenário, e uma infinidade de tortas está sobre uma mesa. Até as montanhas, ao fundo, parecem feitas de alguma guloseima semelhante a creme ou geleia.

Contudo, há algo de sombrio na representação da cena: as cores são escuras e as figuras aparecem com um ar levemente patético (especialmente notável no soldado ao fundo, com a boca aberta esperando que a comida caia do céu). Mais que isso: deitadas, em torpor, elas parecem ter esquecido suas atribuições e responsabilidades: a Bíblia do padre está sacrilegamente jogada no chão à sua esquerda, bem como a luva e a lança do cavaleiro também jazem inúteis ao seu lado.

Pieter Brueguel – O triunfo da morte (1562) - Detalhe
Fonte: http://www.ibiblio.org
O tom da cena aqui não é de alegria: é quase de condenação, lembrando a representação de Bruegel do Triunfo da Morte, de 1562, em que a morte e os cavaleiros do apocalipse atacam implacavelmente os homens bebendo, tocando música e jogando gamão (veja ao lado um detalhe da obra). Em todas essas cenas, nota-se o fascínio exercido nos homens dessa época pela abundância de comida e bebida, mas também, simultaneamente, os seus potenciais perigos para a alma. A morte ronda essas cenas de alegre e inocente divertimento como uma espécie de lembrete onipresente do pecado e da futilidade da carne mortal. Mesmo as cenas camponesas que vimos acima – O casamento camponês e A colheita do trigo – têm algo de patético, de irônico, uma perturbadora falta de identidade entre o pintor e a cena que ele retrata.

Encontramo-nos aqui nos albores de uma era em que a abnegação, o controle do corpo e a disciplina seriam cada vez mais exigidos, à medida que o prazer gratuito e descompromissado passaria a ser visto com crescente desconfiança. E a cerveja, com sua remissão a sonhos de fartura, seu efeito entorpecente e sua presença em celebrações da abundância, passaria a estar sob a vigilância dos olhos da moralidade. Sombrio prenúncio dos nossos tempos modernos.